Maria da Penha deu nome à lei brasileira – Foto: Jarbas Oliveira/Reprodução

Há exatos 70 anos, a marca de café norte-americana Chase & Sanborn publicou nos jornais da época uma propaganda em que um homem aparece batendo na esposa justificando a ação com os dizeres: “Isso é para que você não se arrisque com outro café”. O machismo faz parte da cultura da humanidade desde os tempos mais primitivos – há quem jure, de pés juntos, que Maria Madalena era uma líder entre os apóstolos e não uma prostituta, como prega o Novo Testamento. Porém, durante séculos, a mulher seguiu sendo apagada e confinada ao posto de coadjuvante (ou de puta, quando mais atrevida), sem nenhum direito ao próprio corpo ou à emancipação.

Para as jovens nascidas em meio ao metaverso, soa absurdo que suas ancestrais não podiam trabalhar, estudar ou zanzar a bordo de uma roupa mais sensual – ou funcional (note que as calças compridas eram proibidas, isso até Coco Chanel, nos anos 1920, retomar a luta de Amelia Jenks Bloomer e driblar a desconfiança social com a criação de sua peça icônica).

Por sinal, a mão de obra feminina só foi aceita durante a 1ª Guerra Mundial, no momento em que as linhas de produção ficaram à deriva por falta de operários. Ou seja, historicamente a mulher só serviu para servir aos homens – mas não pense que elas o fizeram caladas.

A opressão sexista passou a ser denunciada com mais veemência no Iluminismo francês (1789), que lançou luz sobre a violência de gênero e a subserviência feminina. A ativista Olympe de Gouges surgiu como uma das fundadoras do movimento pré-feminista ao escrever a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, em 1791, documento que proclamava que as mulheres tinham os mesmos direitos “naturais” dados aos homens e exigia igualdade entre os sexos, além de questionar o poder do patriarcado. Acabou guilhotinada em praça pública – mas conseguiu fazer com que outras pessoas levassem adiante o seu discurso.

Demorou muito para que as donas de casa jogassem fora os aventais e ateassem fogo aos sutiãs (símbolo máximo da censura do corpo feminino). Foi apenas entre 1968 e 1977 que, finalmente, o mundo testemunhou os hormônios explodirem (com perdão ao uso do chavão). A luta pela libertação e pela equidade de direitos (jurídico, econômico, se xual e político) não tinha mais volta – e ainda contava com forças como Simone de Beauvoir, Kate Millett e Betty Friedan. O divórcio virou espécie de salvo-conduto para a felicidade, mesmo que viesse com o brinde da má fama colado na testa. Deixar de ser propriedade – e não ostentar o sobrenome do “senhoril” no registro civil – era o sonho realizado de muitas gerações de feministas.

Se tudo parecia caminhar às mil maravilhas, eis que um enorme abismo obrigou à estagnação (para não cravar o termo “retrocesso”). No Brasil, em 2020, uma mulher foi assassinada a cada sete horas, e quase sempre por motivos banais. Vale pontuar que, desde 2015, o feminicídio foi incluído como circunstância qualificadora do crime de homicídio (o que, na teoria, aumenta a pena do agressor).

Uma rápida viagem ao tempo é importante para relembrar o caso de Ângela Diniz, ocorrido em 1976, em que seu ex-companheiro, Doca Street, a matou com quatro tiros no rosto. Em sua arguição, Doca alegou “legítima defesa da honra”, recurso que faz parte do Código Penal de 1940 e que só perdeu a validade com a Constituição de 1988. Ao ver os advogados do empresário culpabilizando a vítima pela própria morte, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Também é imprescindível rever o episódio da farmacêutica Maria da Penha, que dá nome à lei sancionada em 7 de agosto de 2006, considerada a mais importante em relação à proteção da mulher no País, que foi vítima da violência doméstica. Em 1983, seu então marido, o economista e professor universitário Marco Antonio Heredia Viveros, tentou assassiná-la, não uma, mas duas vezes! Na primeira tentativa, ele atirou contra ela simulando um assalto; na segunda, tentou eletrocutá-la no chuveiro. Maria ficou paraplégica por conta dos ataques e a condenação de Heredia aconteceu apenas 19 anos depois, tendo ele cumprido menos de dois anos de cadeia.

Ainda que as taxas de feminicídio sejam alarmantes – e os discursos de ódio estejam na espinha dorsal do País (“O feminismo só vai adiante quando homens de geleia não se posicionam. […] A população tem que se posicionar contra esse ‘politicamente correto’. Se o feminismo cresce é por causa do homem frouxo. Então, não seja frouxo!”, declarou o deputado federal Eduardo Bolsonaro em sua rede social), a masculinidade contemporânea entrou em colapso graças à ruptura do “mito da virilidade”, da contínua libertação da mulher.

Segundo a filósofa francesa Olívia Gazalé, a dominação masculina foi construída nos campos político, filosófico, religioso, biológico e cultural, moldando o homem a uma postura viril e limitando a mulher a uma posição de inferioridade. “O futuro do feminismo depende da conscientização pelo homem de sua virilidade fabricada e da reinvenção de sua masculinidade.” Como descreve um ditado popular: “Ela adora flores, mas prefere respeito”