Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por Helena Vieira

No dia 28 de junho celebra-se o “Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+“. A data faz alusão à Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969, nos Estados Unidos. Neste dia, homens gays, travestis, drag queens e lésbicas se levantaram contra a violência e a chantagem policial. Emergia, ali, a consciência de que possuíam o direito de estar em um bar, de se reunirem, de existirem em comunidade e, mais ainda, a de que as perseguições policiais eram injuriosas e inaceitáveis.

A notícia deste acontecimento – assim como o nome de muitos dos participantes, como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera – ganhou o mundo e os noticiários. Nos anos seguintes, muitas organizações em defesa dos direitos de LGBTs nasceram mundo afora, atuando contra as múltiplas violências sofridas por essa comunidade.

É muito importante compreender o sentido de orgulho impresso nesta data e movimentações. Trata-se da afirmação orgulhosa contra a humilhação, a correção, a vergonha, a estigmatização. Há muito tempo, e ainda hoje, sujeitos sexo-gênero dissidentes, ou seja, que não se enquadram nas formas cis e heterossexuais de desejar, têm sido alvo de inúmeras formas de violência, ora com a criminalização de seu desejo e de suas formas de amar, ora com a criminalização de suas identidades e mudanças, ou até mesmo com a destituição total de sua condição humana e autonomia por meio da patologização. Toda essa violência e estigma promovem um estado interno de profundo sofrimento.

Para além da violência física, LGBTs estão submetidos a formas de violência social, simbólica e subjetiva. São os processos de desqualificação da própria existência, seja através da negação da identidade, do rótulo de perverso, de pecador que promove a miséria subjetiva, da vergonha de si e do próprio corpo. A afirmação do orgulho se opõe a isso, possibilitando a construção de uma autopercepção positiva e de um senso de comunidade.

Especial Dia Internacional da Mulher: Helena Vieira
Helena Vieira é colunista da Bazaar – Foto: Gui Gomes

Orgulho para quê? Para afirmar a possibilidade de existir e de viver fora das normas, para que ninguém nunca mais sinta vergonha da forma como gesticula, do tom da voz, das roupas que veste ou da identidade de gênero que expressa. O orgulho afirma-se contra a vergonha, e não como manifestação de uma pretensa superioridade – e muito menos como exibicionismo.

Em 1880, nos registros do médico sexologista Richard von Krafft-Ebing, um paciente lhe diz o seguinte, sobre sua própria homossexualidade (e também referindo-se ao seu grupo de amigos e amigas , algumas delas transexuais): “Uma vez que a maioria das ‘tias’, bem como eu, de forma alguma lamenta sua anormalidade e sentiria muito se essa condição tivesse de ser modificada; e, além do mais, uma vez que a condição congênita, de acordo com a minha experiência e a de todos os outros, não pode ser alterada, todas as nossas esperanças repousam na possibilidade de se mudarem as leis que tratam do assunto (…)”

Krafft-Ebing, autor do livro “Psicopatia Sexualys”, um compêndio do final do século 19 sobre patologias sexuais, é o responsável pela difusão dos termos homossexual e heterossexual. É importante perceber, no trecho mencionado, que o paciente afirma que não gostaria que sua condição fosse curada. Ele parecia, de alguma maneira, já intuir que não se tratava de doença e que poderia ser afirmada com orgulho.

Tendo ainda a história deste paciente como norte, percebemos que as tentativas de afirmar o orgulho contra a vergonha e a perseguição são ainda anteriores à Stonewall. O autor da carta ao doutor Ebbing começa a construir o orgulho quanto à sua condição, a partir da construção de uma comunidade, de conhecer outros como ele, que compartilham medos e inseguranças em comum.

Ressalto a importância da comunidade, justamente porque tem sido o costume, em todo o mundo, que o dia do Orgulho seja comemorado com uma grande Parada, que reúne LGBTs de todas as classes e raças. Porque afirmar coletivamente o orgulho significa também dizer a cada jovem gay, a cada moça lésbica do interior, a cada pequena travesti que começa sua transição: você não está sozinha. Nossa vida vale a pena, creia nisso.