Eliane Dias – Foto: Daniel Eduardo, com ilustração de Arthur Marques

Nascida sob a regência do signo de Câncer e filha de Iansã, em sua religião, Eliane Dias não aceita não como resposta. Mãe, empresária, CEO, produtora-executiva, advogada, política e feminista, tem a obstinação como marca pessoal e a frase “seu desejo é uma ordem” como mantra central de sua vida.

“Dos 9 anos, quando decidi ser advogada, até o momento em que peguei minha carteira da OAB, tudo isso se concretizou”, contou à Bazaar, da produtora que comanda, a Boggie Naipe, onde mantém a carteirinha da OAB e o diploma de Direito emoldurados na parede. “Temos que tomar cuidado com o que desejamos porque se for um desejo real e profundo ele irá se materializar, e nossa vida vai se caminhar para lá.”

Assim como desejou ser advogada, também quis muito um dia comandar a carreira dos Racionais MCs – Mano Brown, um dos integrantes da banda, é seu marido. “Na época, no começo dos anos 2000, eles não quiseram. Eram jovens e me chamaram de brava e mandona. Vida que segue. Mas eu desejei isso.” E, mais uma vez, a vida mostrou a força do desejo.

Anos depois, assumiu os mais de 25 anos de carreira do maior grupo de rap da música nacional para ajeitar tudo. “Me chamaram em 2013 e demorei meses para responder.” Mas aceitou, principalmente por conta dos seus dois filhos, Jorge e Domênica Dias. “Eles são herdeiros de toda aquela obra e me falaram que, se eu não cuidasse, a herança deles cairia na mão de qualquer um.”

A história daqui em diante é de extremo sucesso: Eliane ajeitou tudo, como previsto. Criou redes sociais oficiais do grupo, produtos licenciados para os fãs e levou o quarteto para tocar nas principais casas de shows do País. Começava, ali, o comando dela como CEO da Boggie Naipe.

A empresa em questão é hoje um “grande guarda-chuva”, segundo ela, que abarca três marcas: a Yebo, de moda streetwear, em que é investidora e acompanha tudo; a Labbel Record, onde o filho Jorge cuida do selo de trap (subgênero derivado do rap, com raízes nos anos 2000 nos Estados Unidos); e a Cosanostra, que é a marca do Racionais MCs, onde as músicas são editadas e a carreira gerida.

Com tudo isso, tem dias que a empresária passa o dia todo em reunião. “Nem tudo passa por mim, mas as grandes decisões tem meu crivo. Estou de olho em tudo”, diz. Atuando em diferentes ramos do mercado, e tendo artistas de 20 anos e outros de mais de 50 sob seu comando, vive em uma constante busca por sempre se manter atualizada e antenada ao que está rolando no mundo. “Tenho que me renovar. Preciso me virar para estar de acordo com as informações que acontecem no Brasil e no mundo, tanto no universo cultural, quanto na saúde e na política.”

Sua mais recente marca foi a Boggie Week, uma feira de cultura preta em que é exaltado o encontro de mentes de diferentes ramos, como moda, ativismo, gastronomia, economia de shows e duelo de MC’s. A vontade de criar este evento veio de uma inquietação bastante pessoal de Eliane: “Fui a um festival bem bacana em São Paulo, em 2014, mas ele não me marcou. Não foi algo inesquecível.” Faltava algo ali e, na sequência, passou a rodar o Brasil e o mundo visitando festivais, eventos e feiras, até que uma delas encheu seus olhos, na África do Sul. “Decidi levar para o Brasil e, desde 2018, está formatado na minha cabeça.”

A primeira edição aconteceu em um modelo híbrido no fim do ano passado. “A base deste festival é o respeito, o amor, a inclusão e não ter que falar de racismo”, conta. “Estamos preparando uma edição bem especial para este ano, mas o segredo é a alma do negócio.”

Referência de potência, trabalho e humanidade, é sabido que Eliane é inspiração para outras mulheres. Ela mesma não se enxerga como este ponto de influência, mas sempre ouve e entende este lugar que ocupa e sente uma responsabilidade imensa. “Nenhuma mulher preta que se inspire em mim pode achar que chegamos lá por conta de todos os lugares que já alcancei. A caminhada é dura, contínua e diária. Não tem jeito.”