Foto: Getty Images

Nesta segunda-feira (31.08), a Bazaar, em parceria com a Vimer, organizou uma live para iniciar uma discussão crucial para o momento que estamos vivendo: faz sentido usar o termo “Black Friday”?

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Com mediação de Patrícia Carta, a conversa contou com a participação de Camila Salek, sócio-fundadora da Vimer, Carol Barreto, Levis Novaes e Vinicius Tex, do coletivo MOOC, e os estilistas da Célula Preta Jal Vieira, Diego Gama, Weider Silveiro e Fábio Costa.

No início da discussão, Camila Salek reforçou que a pandemia trouxe um momento muito forte de ressignificação e de trazer o questionamento de coisas que não falávamos há muito tempo. “Quando fomos pesquisar a origem do termo e discutir isso com algumas pessoas do varejo, vimos que isso era um questionamento para algumas pessoas. A gente precisa executar nossa escuta ativa”, acrescenta.

Já Carol Barreto, que é designer de moda e professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da UFBA, trouxe para a conversa o entendimento de como a linguagem é produtora de realidade e definição de sujeito. “Quando compreendemos que cada produção de inferioridade, de subordinação pode ser desconstruída e substituída por ideias e produções discursivas que signifiquem imagens de positividade e não de negatividade para as pessoas integrantes de grupos minoritários em representatividade, compreendemos o binarismo assimétrico que a nossa língua foi formada”, explica.

Em sua fala, Carol marcou o público com um conceito muito simples, mas poderoso: “Não há democracia, nem a possibilidade de igualdade se nós mesmas não podermos falar sobre, por e para nós mesmas”.

Origem da expressão

Segundo Jal Vieira, o termo Black Friday não surgiu da maneira como o conhecemos hoje. “Blackout Friday” é a versão original do termo, usada pela primeira vez nos Estados Unidos para se referir a uma crise que houve na bolsa de valores de Nova York, tida como um grande apagão.

“Depois dessa crise, o país precisou dar uma alavancada na economia. Mas há também a questão fiscal norte-americana. O ‘black friday’ acontece depois do Thanksgiving, que é um dos pouquíssimos feriados americanos em que você é remunerado. Então está todo mundo em casa, recebendo, porém não consumindo. Foi uma forma de fazer a massa comprar, mas de uma forma muito louca”, acrescentou Fábio Costa, da NotEqual.

O estilista acrescentou que, nos Estados Unidos, não existem verdadeiros descontos. A ‘black friday’ por lá é um dia em que o imposto de comercialização é retirado dos produtos, o que gera uma baixa nos valores. “O que você não paga neste imposto, você recebria de qualquer forma no seu reembolso fiscal do ano seguinte. Então é uma forma de condicionar o pensamento a achar que você realmente está adquirindo um produto mais barato, mas na verdade só estão tirando um imposto que você receberia de qualquer forma depois”, acrescentou Fábio.

Para Jal Vieira, uma das coisas mais chocantes sobre a história é o fato de o termo ter sido popularizado por policiais norte-americanos, que são conhecidos por não valorizar as vidas negras: “Ele foi popularizado por policiais que, frustados com o fato de que a ‘black friday’ parava todo o transito, deram este apelido àquela sexta-feira. Quando isso aconteceu, os lojistas se ofenderam com o fato de terem colocado este termo e tentaram trocar para ‘big friday’. Quando comecei a ler sobre o assunto e cheguei nesse dado fatidicamente, muitas coisas se juntaram na minha cabeça. Pensar da onde surgiu, com que propósito e até virar popularizado, e como veio para o Brasil sem se questionar a respeito e como isso é recebido”.

“Quando a falamos de ‘Black Lives Matter’, há um sentido do poder que tem nas vidas negras, da importância delas. Ao mesmo tempo, tem o outro extremo, como ‘black marketing’, que poderia e deveria ter o sentido de um mercado onde as pessoas negras circulam, mas é o mercado associado a coisas ilegais, a coisas que não podem naquela região. Quando trazemos para ‘black friday’, vamos para um terceiro ponto. É exatamente isso, baratear. Baratear o que não tá barato, na verdade, vender pela metade pelo triplo do valor”, reflete Levis Novaes, trazendo uma discussão iniciada nos comentários da live.

Ressignificando o termo

“Essa alusão que fazemos entre os termos ‘negro’ e ‘black’ a algo ruim – como em ‘lista negra’ e ‘a coisa tá preta’ – não tem como não refletir em nós, corpos negros. É claro que a população vai nos ver de uma forma quase que ameaçadora. Acho que para nós, pessoas negras, a sociedade não é um lugar seguro, então acho que isso é providencial”, analisou Weider Silveiro.

“De fato, é preciso iniciar um novo processo criativo. Não precisamos usar termos em inglês para falar dessa chuva de ideias. Se somos maioria numérica da população brasileira, isso não significa que somos maioria em representatividade. Contexto, cultura, produção de sentido e significado não podem ser modificados de um dia para o outro. Ou seja, a gente vai passar cem anos usando o termo ‘black friday’ e ele ainda vai ser entendido como um termo pejorativo, especialmente se nomeia práticas de barateamento, desvalorização econômico-financeira para a aquisição de determinado produto. Então não é só a utilização de um termo, é aquilo que ele evoca, é a pratica a qual ele está atrelado, nenhum produto da linguagem existe de maneira separada, ela é resultante de processos de significação”, finaliza Carol.

“Se um termo como ‘black friday’ causa ruídos, questionamentos e dúvidas, esse debate já se torna necessário por si só, independente de saber o que é certo ou errado. Historicamente, preto e negro são palavras usadas para adjetivar situações tidas como ruins. Há temos nos questionado sobre isso, mas isso acontece dentro de uma bolha. A gente pensa que está claro para todo mundo, mas não está. Precisamos ampliar não só o olhar, mas nossas vozes”, diz Jal Vieira.

Assista à live na íntegra abaixo – ou no nosso IGTV.