Erika Hilton sobre trajetória política: “Permaneço ativista. Estou vereadora”
Foto: Rafa Canoba

Vereadora mais votada de São Paulo e primeira mulher transgênero a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal da capital paulista, com exatos 50.508 votos, Erika Hilton ainda está ligada nos 220 volts. Dorme pouco e se multiplica para dar conta dos compromissos da agenda. “Ser a primeira é importante porque demonstra mudança, mas também escracha uma denúncia, a de que mulheres iguais a mim foram mortas, proibidas de ocupar lugares, sentenciadas para as esquinas e a prostituição”, conta ela, que já havia saído vitoriosa das eleições de 2018 com a Bancada Ativista (PSOL), a primeira candidatura coletiva eleita no estado. Com um discurso alinhado aos anseios progressistas das redes sociais, muitos depositam nela expectativas desleais, que ela faz questão de ponderar. “Esse mandato é voltado para São Paulo, conduzido por uma travesti negra, que não se resume a pensar pautas identitárias.”

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Alvo frequente de ataques virtuais, está processando 50 pessoas que a difamaram nos últimos meses com xingamentos, ofensas racistas e transfóbicas. Com isso, pretende mandar um recado a quem acredita que possa sair ileso dos crimes virtuais. “Não fico lendo, mas quando me deparo com um comentário, falo: a sociedade é podre, não tem escrúpulos, está moldada para me fragilizar, me atacar e preciso ser muito melhor”, diz. Erika se coloca no papel de militante antes de agente pública. “Permaneço ativista. Estou vereadora”, diz sobre o mandato que vai até 2024. Encara como necessidade de sobrevivência essa vontade de lutar por direitos das minorias. Quando ainda fazia faculdade de Gerontologia, em São Carlos (interior paulista), fundou um cursinho pré-vestibular voltado para pessoas trans e foi ali que despertou seu desejo de se lançar na política.

Natural de Franco da Rocha, viveu até os 14 anos na periferia de Francisco Morato, na região metropolitana da capital. Foi enviada à casa dos tios, onde enfrentou a “cura” pela igreja e em seguida as ruas e a prostituição. “Cresci em um lar, fui muito amada, protegida e só fui violentada quando o cristianismo fundamentalista entrou na minha casa e fez uma lavagem cerebral na minha mãe, que sempre foi meu pilar”, recorda. Mas logo a matriarca recobrou a consciência e hoje elas têm ótimo relacionamento. “Se não fosse esse resgate, não teria voltado para casa, terminado a escola e não teria apoio para ir para a graduação”, conta ela, que cresceu cercada pela avó, mãe e tias. Hoje não segue religião. “Tenho espiritualidade, fé. Mas crença, doutrina, não tenho nenhuma.”

Erika mudou de casa no fim do ano passado para um apartamento maior na companhia do namorado Gabriel Lodi. “Casamos e essa é a palavra, não gosto muito. Fico um pouco assustada, confesso. Mas, na prática, é isso”, ri. Com a candidatura, perdeu a liberdade de sair frequentemente, mas não reclama. “Não sou baladeira, gosto de ficar em casa.” Por causa da exposição, o temor pela vida é contínuo e vez ou outra acende o sinal de alerta. “As possibilidades de morrer, na minha trajetória de rua, de prostituição, são inúmeras. Celebro a minha existência o tempo inteiro.” E é preciso se precaver. “Mas não me paraliso nem dou sorte ao azar. Já recebi ameaças de morte absurdas e assustadoras.”

Sem arriscar palpites sobre possíveis cenários a médio e longo prazos, sua condução na vereança será determinante se quiser concorrer ao Senado, à Câmara dos Deputados e até mesmo à Presidência. “Acho importante ter uma travesti negra competente disputando o cargo. Se Bolsonaro foi presidente, qualquer pessoa pode.” Sendo o Brasil o País que mais mata transexuais no mundo pelo décimo terceiro ano consecutivo, Erika sabe da importância de seu papel desbravador. Abriu os caminhos e espera que esta seja apenas a primeira resposta contra a onda de ódio, ataques e de fascismo que se levantou nos últimos anos.

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Sustentabilidade no amor
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Resistência
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Resiliência
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Muitas! Racial, Direitos Humanos, LGBTQIA+, Direito à Cidade, classe, raça, gênero, sexualidade, vida, moradia e equidade social.

São Paulo
Atende aos interesses de uma elite cafona e démodé, que tem potencial para ser melhor.

Rua
Lugar de aprendizados, sofrimento e realidades cruéis.

Luta
Por sobrevivência, existência e legitimidade. Pelo reconhecimento das nossas humanidades.

Meta
Fazer o melhor mandato legislativo que a cidade de São Paulo já viu.

Sonho
Fim das desigualdades, em que as pessoas possam ter casa, comida e vida. E não sejam violentadas por sua cor, identidade de gênero ou sexualidade.