Especial Dia Internacional da Mulher: Helena Vieira
Foto: Gui Gomes

A escritora, ativista transfeminista, assessora para a cultura da diversidade e colunista da Harper’s Bazaar, Helena Vieira, entende que o mundo está passando por mudanças sensíveis.

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“Falando especificamente sobre moda – ou aquilo que estamos convencionalmente chamando de moda –, ela tem se transformado, mas de uma forma branda. A questão é que há uma diversidade de corpos que se modificou ao longo do tempo, assim como a prevalência de certos tipos de corpos. Hoje a gente vive um momento em que existem corpos pretos e corpos gordos que querem consumir moda, mas nada é feito para eles. Então, o que precisamos responder aqui é como esse tipo de corpo pode ser considerado bonito? E a primeira coisa é perceber que a beleza se readequou por séculos, e o que vemos hoje é que a moda parece resistente às transformações, e isso precisa ser superado”, conta.

“É evidente que existe um estereótipo do sucesso, daquilo que se pensa de alguém de sucesso. Essa imagem foi produzida como eurocêntrica e magra porque a colonização não foi apenas política e econômica, mas uma dominação subjetiva, o que podemos chamar de ‘colonialidade do poder’, que estabeleceu uma ‘idealidade corporal’. Para o homem, o corpo é o do guerreiro, viril, masculino, e para a mulher, ele tem que ser delicado, frágil e magro”, explica.

“A gordura passa a ser associada, sobretudo, a partir do século 19, quando se tem um cenário potencialmente fabril, a um corpo descapacitado, preguiçoso e repleto de culpa. Desse modo, os conceitos de sucesso serão interpretados como ideais civilizatórios. E as populações que enriqueceram e construíram as melhores civilizações foram as europeias. Isso é parte de um processo ideológico de uma grande ficção que se construiu sobre nós, pois a riqueza que se vê na Europa é um espólio erguido por séculos de exploração dos africanos e dos povos originários das Américas. Esses padrões precisam ser alterados justamente no rompimento com esses arquétipos. E como se rompe com isso? Conhecendo a história e vendo outros corpos na posição de sucesso e de visibilidade, em especial, nas revistas de moda. Só assim nós seremos capazes de ressignificar a beleza”, finaliza.

Sobre a criminalização da gordofobia, Helena acredita que a conscientização ainda tenha melhor efeito do que a punição. “A gordofobia deve ser criminalizada de acordo com os danos causados. Por exemplo, um médico que comete negligência por ser gordofóbico – e isso acontece – deve ser responsabilizado. Mas não defendo a criminalização no sentido prisional porque nós vivemos uma crise carcerária, com uma população encarcerada imensa, sendo que a maioria nem teve os seus crimes julgados, além disso os nossos presídios são verdadeiros campos de concentração. Então não vejo sentido em criminalizar. É aceitável que se construam outras práticas de conscientização”, pondera.