Jal Vieira – Foto: Davi Reis

Nascida na Brasilândia, bairro periférico da capital paulista, e primeira da sua família a conquistar um diploma universitário, Jal Vieira sempre esteve às margens dos “padrões” impostos pela sociedade. Leia seu depoimento à Bazaar:

“Não me enquadro no perfil eurocentrado esguio e hegemônico no qual a moda se estruturou. Sou uma mulher que veste manequim 46-48, e que não performa feminilidade. Mesmo não sendo uma mulher gorda, ainda assim, raramente encontro roupas que se adequem ao meu corpo – e não sou eu quem deve se adequar às roupas que não me cabem.

Além de começar em uma indústria que por si só já exclui corpos nos quais não estejam dentro dos manequins 36-38, para piorar, o meu start na moda se deu em um ambiente em que escutava, durante alguns castings que acompanhei, que a modelo estava gorda – moças que vestiam 34-36! Fora a problemática de utilizarem ‘gorda’ de forma pejorativa, como se essa característica fosse ruim.

Então, isso me fazia questionar o tempo inteiro que eu não era para aquele mundo e que jamais seria aceita por ele. Meti-me em dietas loucas e que desrespeitavam a minha corporalidade, tudo para tentar caber numa ilusão vendida pela moda antiquada em que vivíamos – ouso conjugar no passado, porque existe uma leva de novos profissionais que vêm mudando essa estrutura excludente na qual o sistema da moda se debruçou.

Hoje percebo que há um movimento forte de designers, ‘artivistas’ e jornalistas que têm colaborado para a mudança desse cenário. Mas ainda acho que essa pluralidade esteja mais focada em um espaço pequeno. Se ampliarmos o olhar para o sistema de moda como vemos nas fashion weeks internacionais, por exemplo, ainda não consigo enxergar corporalidades diversas sendo contempladas. Nem nas passarelas nem na estrutura dessas marcas.

O nosso País flexibiliza tudo quando violências partem de um corpo hegemônico para um corpo dissidente. Há sempre uma desculpa, um acobertamento. As violências que têm sido legitimadas desde sempre pelo Estado. Criminalizá-las não se trata apenas de inibir essas práticas, mas de evitar que mais pessoas sejam vítimas recorrentes de quem perpetua preconceitos por saber que não serão punidas.

Lembrando que, no caso da gordofobia, esses corpos antes de sofrerem violências físicas, sofrem violências morais em espaços que sequer foram projetados para recebê-los. Isso também é uma violência. Existe uma dívida histórica a ser sanada e que só aumenta. E nós temos pressa!”