Foto: divulgação
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“Sou a morena alta vestindo um macaquinho”, foi assim a mensagem que eu mandei do lobby do Ritz-Carlton, em Nova York. Eu senti um toque no meu ombro. “Bela roupa. Eu sou o Rich.”

O executivo de 65 anos parecia velho, mas muito bem preservado. Depois de martínis e um prato de queijo, nós pegamos um quarto – Rich tirou sua roupa, e eu achei ele um gato. Nós estouramos uma champanhe, ficamos na jacuzzi que estava superquente e nos secamos.

No meu caminho para ir embora, Rich colocou um envelope na minha bolsa. “Sua grana, boneca”. “Obrigada, daddy”, eu respondi, contando minhas cinco notas de cem dólares.

Eu conheci o Rich através do SeekingArrangement.com, um site de namoro que conecta homens ricos, mais velhos e bem-sucedidos, chamados de sugar daddies, a atraentes mulheres jovens e de mente aberta, conhecidas como sugar babies. Pessoas com potencial de sugar preenchem um perfil, em que os daddies declaram o seu patrimônio líquido e renda, e as babies podem indicar a renda mensal desejada, com uma média de US$ 3 mil (cerca de R$ 9.825). Para um homem de posses, um acordo de benefícios mútuos proporciona uma companhia sem amarras, como o like The Girlfriend Experience – série provocativa do canal pago norte-americano Starz, estrelada a neta do Elvis Presley. O programa conta a história de uma estudante que se destaca nos estuds, mas que acaba virando uma acompanhante de luxo – ou seja, o meu próprio caso.

Desde o início, eu era uma candidata improvável para a função: uma garota comum com cara de freira. Minhas duas irmãs mais novas e eu frequentamos uma escola de classe média alta em Massachusetts. Meu pai, criado como judeu, foi um advogado que virou empresário. Minha mãe, um produto da educação britânica estoica, era professora do primeiro grau. Eu fui em uma escola só para meninas e depois para a Tufts University, onde eu obtive formação dupla (em desenvolvimento infantil e chinês) e toquei oboé no conjunto de sopro.

Na verdade, eu estava me debatendo. Depressiva e bulímica, eu me senti presa, desmotivada, arrastando o meu corpo através de movimentos ritualísticos. Com a formatura se aproximando, eu tinha garantido uma posição boa no meu escritório e me senti grata ao mercado de trabalho que era muito desanimador em 2011. Mas a questão de como eu queria passar minha vida, pessoalmente e profissionalmente, representava um dilema difícil.

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Durante a faculdade, eu raramente tinha encontros. Durante quadro anos, eu tinha compartilhado uma cama platônica com o meu melhor amigo gay. Ultimamente, ele esta ocupado explorando a vida noturna em Boston e tudo o que o aplicativo Grindr tem para oferecer. Muitas vezes eu me encontrei dormindo sozinha.

Parcialmente brincando e parcialmente desesperada, dei um Google no termo Sugar Daddy e acabei caindo no Seeking Arrangement, o que abriu para mim um mundo de generosos benfeitores, dispostos a financiar a minha existência sem rumo. Dos meus 22 aos meus 26 anos, eu passei por 30 homens diferentes que tinham idades que variavam entre 42 e 75 anos. Ao final desse período, ganhei quase US$ 300 mil (R$ 980 mil).

Rich foi o primeiro a me mandar uma mensagem: “Bela clavícula”, ele escreveu, se referindo à minha anônima foto de perfil cortada no meio. Eu tinha imaginado bilhetes para ópera, tratamentos de spa, novos macacões para o meu guarda-roupa de inverno, mas o pagamento foi direto em dinheiro – e isso foi uma boa surpresa.

“Foram os US$ 500 mais fáceis que eu já fiz”, eu falei para o meu colega de quarto, que estava trabalhando por US$ 10 (R$ 32) por hora como assistente de pesquisa. Fiquei espantada ao perceber que eu poderia ser paga para usar um vestido colado ao corpo, bebericar coquetéis, e conversar, como eu tinha feito gratuitamente com os caras da minha idade. Lembrei-me de um cara particularmente bonito que eu conheci através do famoso site de relacionamentos OkCupid: bronzeado, malhado e 27 anos. Nós jantamos em uma pizzaria local da rede Uno. Depois, voltei para a sua casa para nós fazermos sexo – uma troca justa pensei. Por dois drinks de vodca com cramberry e um wrap, parece natural devolver o favor. Essa é a questão: Seeking Arrangement era igual OkCupid – mas por dinheiro.

Eu nunca vi o Rich novamente, mas depois do nosso encontro eu me viciei no site. Eu amei a emoção impertinente e a  instantaneidade do namoro por fins lucrativos. Examinando minuciosamente as minhas mensagens, eu agendei um novo pretendente com um grande potencial para cada noite naquela semana: um advogado na terça-feira, professor na quarta-feira, neurocirurgião na quinta-feira. Sexta-feira, eu conheci um engenheiro de software com fetiche por pés.

Sexo nunca foi uma exigência no Seeking Arrangement, embora eu acredite que muitas vezes fosse a principal aspiração para estes homens. Eu não odiava as relações; eu sentia como um exercício – envolvia suor e era cardiovascular. Eu tratava essa parte com indiferença. Sem nada em jogo para mim emocionalmente, o dinheiro substituiu a busca do prazer. Foi um incentivo tangível, recompensa garantida em troca do meu consentimento.

Eu me adequava bem ao grupo demográfico dos daddys. Cabelo preso de um jeito despojado, eu não era o padrão de beleza, mas esses homens viram a minha juventude como uma novidade – uma fantasia.

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Graças às minhas façanhas lucrativas, eu fui capaz de me mudar para Nova York após me formar e obter muitos empreendimentos: eu tentei estágios, me matriculei em um curso de cinema, e atuei em peças off-Broadway. No meu tempo livre, eu cultivava tomates, passava todos os levels de Candy Crush, e ensinava Zumba para os idosos – dormir com homens ricos que me tratavam como sua princesa paga era minha segunda vida secreta.

Atualizando o meu CEP no Seeking Arrangement, eu passei fins de semana no Plaza com um idoso afluente que me visitou uma semana depois da minha aula de como fazer fantoches. Ter encontros com sugar daddies foi uma alternativa natural e preferível a ter que me submeter a um casamento ou uma carreira estressante. Era uma saída fácil –uma brecha em nossa sociedade, uma área em que todas as mulheres jovens poderiam capitalizar.

Em reuniões, todas as minhas amigas da escola ouviam atentamente às minhas histórias – um alívio de seus trabalhos de 8 horas por dia em recursos humanos. A história de um homem de 42 anos tetraplégico, cuja virgindade eu tive o prazer de tomar por US$ 1.000 (R$ 3.272) foi uma das favoritas da multidão.

“Você está lidando com drogas?” perguntou o meu (verdadeiro) pai. Com as informações que ele tinha naquele momento sobre meu trabalho do dia a dia, estava confuso sobre a origem do meu dinheiro. Ele me ensinou a não depender de um marido financeiramente – de certa forma eu estava seguindo o seu conselho. Lucrando com a minha aparência feminina, me senti com uma mulher independente, e não amarrada ou presa por um parceiro.

Eventualmente, eu decidi ser franca. Meus pais não ficaram emocionados ao ouvir sobre meus métodos de ganhar dinheiro, mas eles aceitaram minhas escolhas. Depois da minha depressão e transtornos alimentares, eles ficaram aliviados que eu estava operando – gratos que eu estava viva.

“Nós só queremos que você seja feliz”, disse minha mãe. Minha avó estava mais entusiasmada. “Por que eu não pensei nisso quando eu tinha a sua idade? Eu tinha pernas muito agradáveis”. Eu amei essa declaração.

Já as palavras do meu pai me machucaram: “Me desculpe que eu não pude dar-lhe tudo o que você queria”, disse ele. Na verdade, ele tinha. “Nada disso é sua culpa, pai. Eu não sei por que eu estou fazendo isso. Eu estou tentando descobrir. Eu só quero que você seja orgulhoso de mim. Eu sinto muito.” “Sempre estou orgulhoso de você”, ele disse. Me senti indigna. Me inscrevi para a pós-graduação no dia seguinte.

Três meses depois, de volta a Nova York, eu não estava vendo ninguém. Eu estava esperançosa em voltar a estudar, mas sem os daddies eu me sentia perdida. Eles deveriam ser um meio para um fim, mas eu ainda me sentia desprovida de ambição ou qualquer ideia clara do que eu queria. Para mim, o trabalho sexual tornou-se um meio de estagnar a distração final, vocacionalmente e intimamente. Comecei a ir à terapia obter um insight.

“O que levaria uma agradável jovem com ensino superior completo a fazer sexo por dinheiro?”, perguntou o terapeuta. “Além do dinheiro?”, eu respondi. Ele não estava se divertindo. “O que aconteceu com o seu espírito?”, ele continuou. “O que quebrou, e quando?”

Eu acreditava que tinha agido deliberadamente, de forma pragmática, como um adulto consciente. Tornar-me uma sugar baby não era o caminho que eu tinha imaginado para mim, mas eu o via como parte da minha jornada de uma vida de estabilidade – e conexão humana.

Ainda assim, mais tempo se passou, eu não podia deixar de me sentir mais assombrada pelo o que eu estava deixando para trás. Toda vez que eu via casais juntos eu me perguntava: por que não quero compartilhar minha vida com alguém? Eu temia que algo estivesse errado comigo – eu não tinha esse desejo de uma conexão emocional. Fazer sexo por dinheiro tornou-se uma maneia de eu participar desse reino da intimidade, porque senão eu não eu não ia querer de maneira alguma.

Na terapia, eu finalmente confessei a fonte do meu desmoronamento: quando eu tinha 15 anos, eu estava sentada perto do meu avô no jantar e eu senti a sua mão na minha coxa nua. Quando eu comentei isso com a minha mãe mais tarde naquela noite, ela congelou. “É por isso que eu nunca te deixei sozinha com ele quando você era pequena”, ela disse. ”Ele fez coisas, quando eu estava crescendo.”

Como uma criança pequena, eu aprendi que o mais perto que eu estava dele, mais presentes ele iria me trazer: ovos Cadbury, bonecas Madame Alexander, doces de framboesa e por aí vai. Tudo parecia inocente para mim, mas agora percebo que não era.

Reconhecer esta parte confusa do meu passado foi importante para minha própria auto-compreensão. No entanto, eu não quero dar desculpas por minhas ações, nem quero confirmar a noção malformada que o trabalho sexual é inerentemente patológico. Se vamos ou não fazer escolhas com base em eventos que ocorreram na infância, nós certamente agimos em reação às nossas situações imediatas e ambientes: o meu era uma cultura de conexão. Hesitante em voltar para o OkCupid, eu entrei de volta para o Seeking Arrangement para verificar minha caixa de entrada.

“E aí linda. Quer ser mimada?”

“Sim”, eu respondi, aceitando a proposta de um operador de Wall Street de 45 anos.

*Conteúdo da Harper’s Bazaar US