Fotos: Caíque Barboza
Fotos: Caíque Barboza

Por Manoela Amorim

Desde sempre, somos ensinadas que um dos pilares de um relacionamento é a fidelidade. Sou a única mulher entre quatro irmãos, e cresci
vendo todos namorando e ficando com outras meninas.Diziam que as amavam e que tinha sido só uma escapada. Me acostumei com esse cenário e fui descobrindo que “traição” era mais comum do que imaginava.

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Meus irmãos beijarem outras meninas não diminuía o quanto gostavam de suas namoradas – era, sim, um desrespeito ao acordo que tinham. Quando comecei a descobrir minha sexualidade, me vi tendo casinho com dois caras. Eram completamente diferentes, me tratavam de jeitos diferentes, mas gostava bastante dos dois. Era um dilema pensar que deveria escolher um. Foi aí que comecei a pesquisar sobre a poligamia e o poliamor.

Para o garoto com quem o caso já estava mais sério propus um relacionamento aberto.Achei que ele fosse amar – todos os meus amigos falam que é o sonho deles. Fui direta e esperando que ele toparia tudo – errei feio.Ficou desconcertado quando soube que eu ficava com outros homens. Sem querer, desmanchei um possível relacionamento que estava bem. Me sobrou o outro rapaz e é com ele que tenho uma relação aberta há quase dois anos.

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Conheci o Caíque em uma viagem para a casa de praia de um amigo em comum. Não ficamos de cara, mas rolou uma conexão: fazíamos o mesmo curso de Cinema, na mesma faculdade (ele, dois anos na frente). Uma semana depois, ficamos em uma festa, depois num show, num bar… As coisas caminharam aos poucos e nos vimos completamente envolvidos. Ao mesmo tempo, achava ele frio, estava na cara que não queria muito compromisso. Um dia, alegre em uma festa, disse o que achava sobre poligamia e relações abertas.A resposta não podia ser outra: ele pensava IGUAL a mim e, inclusive, já tinha tido um namoro assim durante um ano e meio. Desde então, temos uma relação supersólida, com planos e tudo que é esperado de qualquer namoro.

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Viver um relacionamento aberto não é ter uma vida dionisíaca e ficar com quem vê pela frente. É ter a liberdade de fazer algo que eu queira sem me sentir culpada ou arrependida depois.Não importa o quão somos apaixonados; o tesão é inevitável. Sou completamente louca pelo Caíque e sei que ele é por mim, mas isso não tem a ver com a vontade de ficar com outras pessoas. Mas é preciso conversar sobre absolutamente tudo o que acontece dentro e fora do relacionamento. De um olhar torto até sobre as pessoas com quem nos encontramos. Para mim, a base de qualquer relacionamento é o diálogo, quando se é aberto, então, é essencial! Fingir que não acontece só faz alimentar inseguranças desnecessárias. É importante também estabelecer limites.Você precisa saber até onde pode ir e até onde o outro consegue aceitar. No nosso caso, temos três regrinhas: não ficar com outra pessoa estando no mesmo lugar; não ficar com amigas minhas e nem eu com os amigos dele; e, a mais importante, usar proteção. As duas primeiras já foram quebradas e espero um dia conseguir abolir de vez, porque vejo cada vez menos sentido nelas.

Se tenho ciúme? Não vou negar, de vez em quando bate sim, do tipo: “Você me acha mais bonita, né?”. Mas não passa disso. Jamais mudaria o nosso jeito de se relacionar, porque é como funciona para nós. Mas essa questão intriga as pessoas. Para muitos, ter ciúme equivale a gostar de verdade. Eu já acho que engloba aspectos mais importantes do que o sentimento de posse.

Muita gente me pergunta se não tenho medo de ele se apaixonar por outra pessoa. Sim, tenho, mas não vai ser um rótulo de relacionamento fechado que mudaria isso, não é? Nossa relação é aberta porque o amor, em si, é aberto e livre, e não deve se prender a rótulos. Somos pós-modernos, indecisos e queremos aproveitar. Além disso, acredito no poliamor. Nunca senti, mas é algo que quero experimentar – sem forçar nada. Hoje, ainda é raro as pessoas se relacionarem dessa maneira assumidamente, mas acho que a tendência é crescer. Nosso namoro não é segredo para ninguém: nossos amigos e famílias sabem, aceitam, não existe muito drama. Nunca passou de um comentário meio chato. Também procuro não manter segredos para os casos que tenho fora do namoro. Não que eu vire para meu novo match do Tinder e fale: “Oi, tenho uma r.a., tudo bem?”. Se é pertinente, falo sobre o assunto, e geralmente os caras se interessam. Sempre escuto um: “Que moderna” ou “seria meu sonho”. Contudo, já deparei com comentários constrangedores, preconceituosos até. Do tipo: “Mas, você gosta mesmo dele?”. Ou: “Você fica com outros ou está nessa mais por causa dele?”. Esta última, particularmente, me deixa muito triste, pois já ouvi de amigas feministas, que não conseguiram enxergar o machismo explícito nela. Como alguém poderia se submeter a um relacionamento aberto porque o outro quer? Isso não deve ser imposto ou pressionado, tem de brotar de um desejo dos dois.