Blusa de veludo de seda drapeado e calça de seda, todos da Schiaparelli Haute Couture (marca usada em todos os looks da matéria). Colar Calla, de ébano e diamantes Vhernier. Sapatos Christian Louboutin - Foto: Thanassis Krikis/Arquivo Harper's Bazaar
Blusa de veludo de seda drapeado e calça de seda, todos da Schiaparelli Haute Couture (marca usada em todos os looks da matéria). Colar Calla, de ébano e diamantes Vhernier. Sapatos Christian Louboutin – Foto: Thanassis Krikis/Arquivo Harper’s Bazaar

Por Armando Palha

Ao entrar no salão onde, nos anos 1930, Elsa Schiaparelli (1890-1973) recebia pessoalmente suas clientes de alta-costura, no número 21 da Place Vendôme, em Paris, é impossível não se render ao encanto do mundo exclusivo da estilista, que até pouco tempo permaneceu adormecido.

A gaiola dourada que emoldura a porta de entrada, criada por Jean-Michel Frank, é a mesma que Schiap, como seus amigos a chamavam, mantinha na entrada de sua loja, que funcionava no andar de baixo. As ilustrações de Marcel Vertès e Raymond Penet, que hoje adornam as paredes, são das campanhas publicitárias para alguns dos perfumes da grife, e as duas colunas em branco, obras de Alberto Giacometti, amigo e colaborador de Elsa. O estilo surrealista que marca a trajetória da estilista está espalhado por todo o ambiente, como nos frascos de seus perfumes (o único masculino que fez, por exemplo, tem a forma de um charuto, desenhado por Elsa inspirado no quadro Ceci n’est pas une pipe (1928-29), de René Magritte). Apesar de terem se passado 60 anos desde que Schiap fechou as portas de sua empresa, o fascínio causado por seu nome continua fresquíssimo.

Terno de seda bordado com folhas de palmeirade ouro - Foto: Thanassis Krikis/Arquivo Harper's Bazaar
Terno de seda bordado com folhas de palmeira
de ouro – Foto: Thanassis Krikis/Arquivo Harper’s Bazaar

Não foi à toa,portanto, que Diego Della Valle, presidente da Tod’s e um dos maiores investidores italianos de moda, resolveu comprar e relançar a marca, em 2012. Como embaixadora e tradução perfeita do estilo ousado, altamente sofisticado e repleto de ironia de Schiap, Della Valle nomeou Farida Khelfa. A top franco-argelina, hoje também diretora de documentários, ocupa uma das salas do prédio da Place Vendôme, transformada em seu escritório.

Ali, recebeu esta Harper’s Bazaar para um papo e uma tarde de fotos vestindo a coleção de alta-costura de verão 2014 da grife, que marcou a volta da Schiaparelli para as passarelas. Assinados por Marco Zanini (ex-Halston e Rochas), os looks revivem técnicas, estampas, estilos e desejos de Schiap. Mas sem ranço algum de passado. “Uma nova maison de couture é sempre bem-vinda para Paris e para a moda”, comenta Farida.“Zanini não está buscando reinterpretar o surrealismo de Schiaparelli, mas, sim, manter a marca relevante no mercado contemporâneo”, observa.

Reconstruir uma marca do porte da Schiaparelli não é tarefa fácil. Farida sabe disso: “É um trabalho em progresso”, admite. Um dos grandes legados de Schiap foi o diálogo que criou entre os mundos da arte e da moda. Circulava (e fez grandes parcerias) com nomes como Salvador Dalí e Jean Cocteau. Coco Chanel, uma das “tais” contemporâneas, referia-se a ela como “aquela artista que faz roupas”, em clara demonstração de rivalidade.

Muito à frente de seu tempo, Schiap viajava o mundo em busca de inspiração. “Ela foi uma mulher muito moderna, esteve inclusive no Brasil, em um período pré-guerra, quando pouquíssimas pessoas se aventuravam”, conta Farida, ela mesma uma aventureira. De família argelina, mas nascida em Lyon, saiu de casa aos 15 anos, rumo a Paris, sem dinheiro algum. “Se não tivesse buscado essa independência precoce, sinto que minha liberdade de espírito teria morrido”, observa. Ao contrário, foi na boate Le Palace, place to be absoluto na Paris dos anos 1980, que sua liberdade alçou voo. Ali,conheceu os estilistas Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier e o fotógrafo Jean Paul Goude, trinca responsável por sua meteórica carreira como modelo.

Atualmente, Farida se dedica também à direção e produção de documentários. Seu mais recente filme,sobre a vida do amigo Christian Louboutin, será lançado em setembro deste ano. “O doc mostra a trajetória de Christian, que veio do nada, num país onde a mobilidade econômica é praticamente impossível, e conseguiu ultrapassar enormes barreiras para alcançar o que ele tem hoje”, revela. Com acesso irrestrito ao grand monde, tem se especializado em filmar, com intimidade, grandes nomes internacionais.

É dela o doc Jean Paul Gaultier, Quebrando Regras, lançado em 2010; assim como Campagne Intime, média-metragem que revela os bastidores da campanha para uma frustrada reeleição de Nicolas Sarkozy, em 2012. Carla Bruni é uma de suas amigas mais próximas, madrinha de seu casamento com Henri Seydoux (pai de Lea, vale contar). Mas ainda é a moda que faz seu coração bater.“O fato é que adoro trabalhar com estilistas e estar envolvida nos vários aspectos de criação.Foi a indústria da moda que me acolheu quando cheguei em Paris, então, sou muito fiel a ela.”

Assine Harper’s Bazaar