"Mexe a Raba" - Foto: Divulgação
“Mexe a Raba” – Foto: Divulgação

Nesta quinta (13.06) Lellê lança “Mexe a Raba”, seu primeiro single e clipe em carreira solo. Com inspiração nos anos 70 e referências como Diana Ross e Donna Summer, a música é uma mistura do Soul e Trap que promete ser o hit do momento. A carioca que vem do pop-funk, agora descobre novas facetas musicais. Conversamos com Lellê sobre a nova etapa na carreira, suas inspirações e empoderamento.

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De onde veio a inspiração para o clipe, a estética dos anos 70, figurino, ritmo, tudo isso nessa sua nova fase?

Essa estética dos anos 70 entrou no meu processo de autoconhecimento enquanto artista e pessoa. Me identifiquei muito com essa década justamente pela força, pela entrega, pelo ato político, pela mensagem, pela moda, pelo visual, por tudo. Como tenho a dança muito forte dentro de mim, foi a década que eu mais me apaixonei e virou minha referência.

Não só para a música quanto para o clipe, me inspirei em divas como Diana Rossa e Donna Summer, além do “Soul Train” que era um programa 100% negro e que passava toda essa cultura da negritude como entretenimento.

 

Quem fez o styling do clipe e como ele foi pensado?

O responsável pelo styling foi o Luís Fernando, que inclusive assinava o styling de Mr Brau, muito talentoso.

Quando comecei a pensar no que eu queria de figurino, cabelo e tudo mais, pensei: ‘Preciso chamar as pessoas certas que vão colocar energia nisso para que isso aconteça’. Ele foi um dos que topou de primeira, mesmo com pouco tempo para realizar e tendo uma demanda muito grande. Ficou super empolgado!

 

Como você entrou para a disputa do passinho, um duelo de dança que é tipicamente masculino? Como se sente sendo a primeira mulher a ganhar destaque na disputa?

O movimento do passinho era super masculino e muito machista também. Quando eu tentava entrar no lugar eles não gostavam. Falavam que isso não era pra mim, não era para mulher. As poucas meninas que conseguiam disputar com os meninos, estavam lá não pela dança e sim por andar com eles.

Realmente a primeira menina a ser respeitada dentro do movimento fui eu, porque fui muito abusada! Comecei a questionar o motivo que pelo qual só homens poderiam participar da disputa. Quando comecei a batalhar (no passinho) e os meninos viam que era boa, muitos se sentiam humilhados por perder para uma mulher. Tinha muita resistência por parte deles, por verem que uma mulher fazia tão bem quanto eles.

 

Atualmente, as mulheres também duelam ou ainda são poucas?

Hoje em dia tem muitas mulheres duelando. Nos concursos, a maioria tem categoria feminina e masculina. Além dos duelos separados de homens e mulheres, têm também duplas de homens e mulheres que dançam juntos.

 

Algum momento imaginou a proporção que a sua presença nas batalhas ia tomar?

Fico muito feliz com o caminho que tomou. Por ter sido a primeira, sofri muito com isso. Não foi fácil ter que brigar por um espaço que deveria ser de todos e não fazia sentido para mim ter que brigar por ele.

Que bom que briguei e que hoje tem uma tendência de meninas que dançam do jeito que elas querem dançar, que mandam o passinho do jeito que elas querem mandar e os homens respeitam isso.

Entendo que quando alguém quer fazer algo novo acaba sofrendo muita rejeição. O novo dá medo, o novo te tira da zona de conforto, o novo faz você pensar. As pessoas não querem isso, ninguém quer desconstruir.

 

"Mexe a Raba" - Foto: Divulgação
“Mexe a Raba” – Foto: Divulgação

Quem são suas referências na música e na moda?

Ah, são tantas. Principalmente do movimento Black como Beyoncé, Rihanna, Diana Rossa, James Brown. Aqui no Brasil, Alcione, Taís (Araújo) apesar de não ser da música me inspira enquanto mulher, Nelson Sargento e Gilberto Gil.

Na moda? Ah, a Rihanna é TUDO! Quando fala de moda eu penso nela. Que mulher ousada, confiante e pra mim isso é moda.

 

Existe uma semelhança muito grande entre você e a cantora Iza, tanto fisicamente quanto profissionalmente, história de vida, duas mulheres negras vencendo o mundo e ganhando os palcos. Vemos em vocês duas mulheres negras empoderadas. Como enxerga isso?

Eu acho a Iza uma mulher super linda, talentosa e fico muito feliz de vê-la na cena (musical), de ser reconhecida. Ela representa o valor da mulher negra, da cantora, uma voz potente. Já trabalhamos juntas e eu a admiro muito. Ficamos muito felizes uma pela outra.

 

Desde a época do Dream Team existia uma pegada fashion nos clipes, como funcionava? Vocês que pensavam? Quem produzia?

Tínhamos uma equipe, a Topa Tudo Produções, que foi extremamente especial na nossa vida, não só como artistas, mas como pessoas. Pensávamos tudo juntos. O que íamos fazer, as roupas que íamos usar, fazíamos muitas reuniões para que tudo tivesse em harmonia. Chegar no ponto certo da roupa, da cor, da estampa, estava muito ligado à ousadia, as cores da favela.

 

A favela é muito rica em conteúdo fashion, serve até mesmo de inspiração para a indústria no exterior, como você vivenciou isso?

Tem a coisa da feirinha, que é um clássico das favelas. As lojinhas da região. Eu comprava em todas. Dentro da favela têm várias tendências, cada hora tinha uma. Eu sempre fazia tudo ao contrário, nunca gostei de andar como todo mundo. Até hoje ainda compro nesses lugares.

 

Como é seu estilo nessa nova fase, como se deu a transição?

A transição ocorreu naturalmente, primeiro porque o tempo passa e é normal mudar e segundo que minha vida e minha carreira me ensinaram muitas coisas. Vejo algumas pessoas, vídeos, algumas coisas que vão mudando minha forma de pensar, agir e vestir, certas coisas vão me moldando. Faço análise há dois anos e estou me descobrindo.

Agora estou na fase Lellê, que não é mais aquela menina. Hoje em dia tenho outras responsabilidades, tenho uma outra mensagem a passar. Estou mais madura.

 

Você chegou a um patamar em que poucas pessoas atingem, ainda mais difícil atingir para pessoas que são da periferia, isso deve ser motivo de muito orgulho. Como você se sente?

Eu estou nervosa, menino! Conta Lellê dando gargalhadas. Acho que foi exatamente por isso que fiz “Mexe a Raba”. Essa responsabilidade é muito doida, porque tenho 21 anos, sou muito nova, mas ao mesmo tempo foi aonde a vida me levou. De certa forma, esse meu estilo de vida, como fui criada, a minha atitude me levou a um lugar que representa alguma coisa. Representa mulheres que são da favela e que têm um sonho, que cada vez mais está difícil de realizar. Principalmente nesse momento que estamos vivendo no Brasil. Então me vejo muito nesse lugar de dizer que é possivel. Porque é! Apesar de parecer que não.

Acho que o que mais atrapalha a gente é a nossa insegurança, nosso medo. Eu já tive isso várias vezes. Em vários momentos tive medo. Nunca pensei em desistir, mas o medo balança.

O que eu fiz foi pegar na mão do medo e fui embora, fui com ele. Talvez eu não possa ir sem ele, mas posso ir com ele. É dizer para essas mulheres, essas pessoas, que estão nesses lugares, que a vida não é só aquilo, que realmente é meio aprisionador o ambiente. O que o país faz com a gente, é uma lavagem cerebral. Quando você olha para uma pessoa que chegou lá, você passa a tê-la como referência. Não somente para ser artista, mas para qualquer coisa que a pessoa sonhar. Dizer para as pessoas que elas podem ir em busca dos próprios sonhos, elas podem ser quem elas quiserem ser. Essa é a mensagem que quero passar.

Veja o clipe:

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