Paula usa casaco Zara, calça legging de couro Isabel Marant, sandálias Alexandre Birman e brincos Dries Van Noten. O cachorro da coleção pessoal do marido Sebastien No sentido horário, quadros de Sebastien Bonin, Leo Uzi e Caribé – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

Por Daniela Pizetta

Paula Le Moult talvez não tenha percebido ainda, mas leva a vida, e principalmente o trabalho, no melhor estilo punk-rock. Porém, antes de qualquer surpresa em relação à comparação (afinal, o que uma carioca solar teria a ver com o estilo mais underground do rock&roll), digo que é preciso ir além, pois não me refiro à estética e sim à ética punk, que é toda baseada no “faça-você-mesmo”.

Fotografia da artista argentina Romina Ressia, bolsa Bottega Veneta, bonecos de madeira da Vitra, brincos e pulseira de seu acervo pessoal – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

O fato é que não cheguei a esta conclusão sozinha. Tão logo entramos no segundo minuto de conversa, a própria estilista mandou sinais sobre os pilares que sustentam sua personalidade: “não existe nada que eu não consiga fazer, mas se existir, aprendo em cinco minutos”, disse em entrevista à Bazaar.

A estilista usa top Missoni, saia Alexander Wang e tênis Buchemi. Arara com acervo de sua marca, a Lily Franco – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

Hoje morando com a família em Bruxelas, na Bélgica, toca de lá a marca de moda que lançou em 2018 e é inteira produzida no Brasil: Lily Franco. O DNA da label é brasileiro, mas o olhar de Paula é global. Sua rotina é cercada por referências incríveis; dentro e fora de casa. A apenas 40 minutos de onde mora, fica a Royal Academy of Fine Arts, escola localizada na Antuérpia e berço de designers de moda, como Martin Margiela, Dries Van Noten e Haider Ackermann, três integrantes do icônico grupo The Antwerp Six.

A sala de jantar – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

A algumas quadras da sua townhouse, fica o ateliê do celebrado florista Thierry Boutemy, responsável pelas instalações de marcas como Hermès, Dior e pelas flores que decoram a sala de jantar de Paula.

Carreira

Brincos “roubados” da mãe, dos anos 1980, dinossauros da coleção do filho Antoine – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

O trabalho na moda sempre foi um norte para a estilista, que deixou o Rio de Janeiro aos vinte e poucos anos para trabalhar como figurinista nos estúdios paulistanos da Rede Globo. Foram quinze anos na emissora até ser tomada pelo desejo de abrir seu próprio negócio. Por volta de 2004, começou a desenvolver produtos high-end para marcas contemporâneas, enquanto atuava como stylist no mercado editorial e aos poucos construiu seu próprio networking.

Quadro da amiga Mari Liberali; duo de corações mexicanos em metal, presente de Paula ao marido; bloco em resina transparente Arman – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

Em 2008, foi para a Inglaterra, onde concluiu seu mestrado no London College of Fashion. Por lá, abriu espaço para o amor e casou-se com o franco-alemão Sebastien Le Moult. Juntos, mudaram-se para o Brasil, e foi nesta época que Paula ampliou seus horizontes ao trabalhar para o Grupo Soma, o conglomerado que detém marcas como Animale e A.Brand.

Look da collab Loewe e Paula’s Ibiza, saia A.Brand, argolas Celine. À esquerda, vaso da coleção Guaxpelúcias. Par de quadros de Ana Norberta e flores de Thierry Boutemy – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

A townhouse

Cinco anos depois, o casal voltou à Europa e mora em Bruxelas até hoje. Foi na capital belga que nasceram os gêmeos François e Antoine, e enquanto um deles é apaixonado por elementos da natureza, o outro é o colecionar dos dinossauros que “decoram” a casa de cinco andares da família. Paula diz que a invasão dos bichos não foi planejada e, sim, absorvida com bom humor: “eu tenho dois meninos incríveis que brincam pela casa e acabamos incorporando seus brinquedos no dia a dia, sem resistência”. Paula também nos lembra que na Europa não existe glamour, e poucas pessoas contratam serviços de babás, por exemplo. “Algumas horas de apoio é natural, mas além de ser caro é malvisto, pois a convivência é parte fundamental da educação e ela é dada pelos pais através de exemplos.”

A sala de estar – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

A casa vertical, no melhor estilo Beaux-Arts, abriga também o escritório/ateliê de Paula, que fica no último andar. “Como trabalho no horário do Brasil, às vezes coloco as crianças para dormir e subo para trabalhar.” De forma geral, o bom gosto do casal e as peças cheias de histórias refletem a personalidade de Paula e de Sebastien. Juntos, gostam de garimpar e descobrir peças com significados, como a obra do brasileiro Caribé, que encontraram em um mercado de artes em Paris, ou a foto da jovem fotógrafa argentina Romina Ressia (uma das preferidas de Sebastien).

Pulseira de laço Rodarte, colar dourado com pedras verdes herdado da mãe, dos anos 1960, vaso Jaqueline Terpins – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

Fã da marca americana Rodarte e das divertidas parcerias da Loewe com a icônica Paula’s Ibiza, seu estilo pessoal é reflexo do seu vasto conhecimento, e isso não se resume a marcas de moda. A brasileira conhece seu corpo, ama suas raízes e usa a moda de forma emocional. Um fato curioso, é que Paula tem fascinação por correntes douradas, como a bolsa azul com alça de metal da italiana Bottega Veneta, uma das suas preferidas. Com bom humor, conta que levou o assunto até para a terapia, e descobriu que os elos que tanto aprecia estão diretamente ligados à sua vida social: “ao mesmo tempo que sou extrovertida, tenho poucos e verdadeiros amigos. Meus encontros na vida são fortes, nutrem e me mantém segura.”

Look Lily Franco e brincos Dries Van Noten – Foto: Victor Pattyn, com styling de Leticia de Robiano

Depois de um papo delicioso no melhor português, com palavras francesas que chegavam para preencher os espaços que nossa língua não alcança, percebo que Paula é mesmo dessas pessoas que se entregam. Seu trabalho é “alimento” e tudo que pulsa nela está também nas suas coleções. A Lily Franco nasceu para levar o DNA brasileiro aos europeus e uma das premissas da marca é ser feita no Brasil. Reúne tudo que Paula aprendeu em vinte anos na moda e é também o elo que a conecta com suas raízes: “minha marca é uma maneira de estar perto do sol, falando minha língua e criando um produto que tem minha personalidade.”