Lena e GloriaFoto: Douglas Friedman
Lena e GloriaFoto: Douglas Friedman

É difícil encontrar alguém que seja tudo aquilo que a gente espera, muito menos que ultrapasse as expectativas. Como já aprendi e reaprendi ao longo da minha curta vida profissional, muitas vezes nos desapontamos com pessoas que consideramos essencialmente importantes – mas deixemos isso para a autobiografia que se escreve aos 80 anos. Por falar em memórias e encontros com ídolos, Gloria Steinem escreveu uma autobiografia maravilhosa, My Life on the Road, e é muito mais profunda do que jamais imaginei. Ela me recebeu em seu escritório, no piso-jardim de seu duplex, em Nova York, onde o ar-condicionado estava quebrado, mas ela não transpirava. Mostrou sua coleção de cintos indígenas, me disse o que ler e quem pesquisar no Google, demonstrou um senso de humor lindamente transtornado e, na verdade, fez perguntas. Sempre vou me lembrar dessa tarde como uma das mais bonitas da minha vida, passada ao lado de uma influência feminista seminal, que, generosamente, nos deixa saber que ela mesma ainda está aprendendo. Ela é viva a esse ponto.

LENA DUNHAM: Ouvi dizer que, em 2014, você foi à África para comemorar seus 80 anos, o que é incrível. Quando fiz 24, fiquei em casa. Seu livro deixa claro que viajar está no seu sangue. E adoro o capítulo sobre não dirigir – eu também não dirijo.
GLORIA STEINEM: Que bom. Bem-vinda!

LD: Adoro quando me levam aos lugares. Mas me sinto muito pressionada, especialmente pelos homens, que ficam dizendo o tempo todo que vão me ensinar a dirigir. Houve algum momento na sua vida em que decidiu que essa não era uma habilidade necessária?
GS: Foi gradual. Eu ficava pensando que devia tirar a habilitação, mas acabei não indo porque nunca precisei dirigir. Moramos em Nova York, onde dá para ir a qualquer lugar sem carro. E, quando viajo, sou sempre recebida e conduzida por um comitê organizador ou algo assim. Percebi, depois de começar a escrever esse livro sobre por o pé na estrada, que havia algo de irônico nisso. Mas fui salva pelo Jack Kerouac, que também não sabia dirigir.Ainda assim, é raro encontrar outra pessoa que também não dirija.

LD: Fiz do ato de nunca tirar habilitação um ato quase político. Ser reprovada no exame me levou a uma depressão quase psicótica, que me fez entender que eu não precisava me envolver com isso de novo.
GS: É. Principalmente fazer baliza, é a pior parte.

LD: A dedicatória do seu livro ao médico que fez o aborto de um filho seu me deu arrepios. Há quanto tempo você vinha pensando em revelar a identidade dele?
GS: Penso muito nele, mas, como me pediu para que não revelasse seu nome, sempre me pareceu uma proibição. Um dia, me dei conta de que ele está morto há muito tempo, que são outros tempos e que é hora de agradecer.

LD: E ele agora é um herói, não um criminoso.
GS: É um herói.

LD: Ultimamente, o feminismo entrou para o zeitgeist – dá para encontrar até lingerie com a palavra “feminista” na bunda [Nota de Dunham: eu estava usando um par dessas quando escrevi a introdução desta entrevista]. As pessoas volta e meia me perguntam “o que você acha da Beyoncé usar a palavra ‘feminista’?” . Acho que isso é ótimo. O que poderia nos prejudicar em outra mulher que se identifique como feminista de uma maneira nova e interessante?
GS: Isso. Acho ótimo que ela se envolva. Nunca conversei com a Beyoncé, mas gostaria. Estava presente quando ela fez o concerto Chime for Change, em Londres [2013]. Quando ela subiu no palco e disse ao público, que era na maioria de mulheres,‘Eu sei que a vida é difícil, mas estamos juntas. E, pela próxima hora, estão seguras’, me conquistou logo de cara. Depois,o marido dela apareceu no meio da apresentação, cantou um verso junto com ela, lhe deu um beijo na bochecha e se foi. Pensei: “Ok, o Frank Sinatra não teria feito isso com uma de suas esposas. O show seria dele”. Para mim, isso parece um avanço! Beyoncé tornou-se artista profissional muito jovem e nem sempre foi fácil para ela. Parece que faz o melhor que pode.

LD: Como lida com os ataques que, inevitavelmente, acontecem por ser o rosto de um movimento tão complexo? Já te deu vontade de dormir por uma semana?
GS: Já foi pior. No começo, era muito doloroso e houve momentos ruins. Mas, agora, desenvolvi diretrizes para lidar com isso. Tento, com sucesso variável, dizer “Por favor, não me chame de ícone.” Tento usar meu primeiro nome e não o nome completo, porque, de certa forma, parece mais amigável. Não aceito fotografar ou participar de programas de TV se houver somente brancos.Às vezes, as pessoas dizem que as mulheres são as piores inimigas de si mesmas, mas sempre retruco: “Não somos”. Mesmo que quiséssemos, não teríamos poder para isso. As coisas melhoraram, acho eu, porque há muito mais compreensão de que estamos atacando um problema grupal, não individual. Com o passar dos anos, já houve quem me perguntasse:“Para quem você vai passar o bastão?”. Sabia que tinha ficado brava, mas não soube o que dizer. Finalmente entendi que, espera aí, não estou abrindo mão do meu bastão.

Gloria Steinem, aos 81 anos, em 2015 - Foto: Douglas Friedman
Gloria Steinem, aos 81 anos, em 2015 – Foto: Douglas Friedman

LD: “Estou vivinha da silva e andando de elefante em Milwaukee, obrigada.”
GS: Isso mesmo. Estou usando meu bastão para ativar os bastões de outras pessoas. Porque a simples ideia de que há um só bastão é besteira. Não me admira que não saibamos para onde estamos indo.Todo mundo precisa de um bastão para saber aonde vai.

LD: No decorrer da sua carreira, como conseguiu evitar a fadiga emocional que vem de dar duro para criar mudanças e, às vezes, não conseguir os resultados que deseja?
GS: No comecinho, estava mais sujeita ao burnout, porque acho que burnout é em função da ingenuidade. Mas, quando a gente percebe que é uma luta para toda a vida, pode imprimir um ritmo, físico e emocionalmente. Tem duas coisas que ajudam: uma é aceitar que esse é um projeto para a vida inteira e não ser ingênua a respeito da profundidade daquilo que estamos tentando fazer.A segunda, para mim, é entender os meios e os fins. Assim, se tivermos um movimento que só corre,corre,corre,teremos um fim que é só correr,correr,correr.Se tivermos um movimento que disponha de tempo para piadas, poesia, amor, é isso que iremos conseguir no fim. Então, temos de construir ao longo do caminho. Não podemos matar gente para salvar a aldeia.

LD: Existe algo na idade que você tem que lhe dê uma calma ou compreensão que não tinha antes?
GS: No momento, estou totalmente dedicada a entender a idade que tenho. Falo a minha idade para todo mundo, porque eu mesma não acredito. Não tenho certeza de que sabemos o que é a velhice. Quando cheguei aos 40, um jornalista bonzinho me disse: “Você não parece ter 40 anos”. E respondi:“Mas ter 40 anos é assim. Como você poderia saber? Faz anos que mentimos para vocês”. Mas também sei que não poderia prosseguir sem meus amigos, principalmente as mulheres, mas homens tambÉm. Essa é uma das coisas que tento dizer para a garotada:“Seus antigos amantes viram sua família”.

LD: Acho que meus antigos amantes me odeiam demais para isso.

Em sua festa de aniversário de 50 anos - Foto: reprodução
Em sua festa de aniversário de 50 anos – Foto: reprodução

GS: A questão é se vocês, na verdade, não só se amavam, mas também se gostavam. Leva alguns anos para superar qualquer desequilíbrio, mas o fato é que as duas pessoas compartilharam algo que ninguém mais conhece. E isso vocês sempre terão e nunca vai embora.

LD: Mudando de assunto, a imprensa feminina está em um ponto muito diferente de quando você fundou a revista Ms., que continua a evoluir. O que acha da situação da imprensa feminina de hoje?
GS: Bom, obviamente a internet é um ponto de destaque. Para as que têm acesso a ela, é um dom.A gente pode usar na segurança de casa – não precisa sair. Então, diria que ela é positiva. Mas precisamos ter em mente que é um meio, não uma mensagem.

LD: A respeito da internet, você disse coisas incríveis sobre pornografia no passado. Adoro sua descrição da diferença entre pornografia e erotismo.
GS: Ah, que bom, porque conseguimos transmitir a mensagem de que estupro é diferente de sexo, e de que é violento, mas ainda não conseguimos demonstrar que pornografia é diferente de erotismo – aquela é coerciva, este é mútuo. Sempre digo aos homens nas plateias: “Cooperar é tão melhor do que dominar, vocês nem imaginam”. Queremos fazer uma camiseta com a frase “Erotize a igualdade”. E o corpo humano, com licença, não é obsceno.

LD: O que é obsceno é tratar imagens de agressão sexual como se fossem de sexo consensual e não deixar claro o limite entre as duas coisas. Na qualidade de alguém que tira a roupa na TV, sei que, quando vou para o set, estou estabelecendo minhas regras e me mostrando no meu próprio contexto.

Gloria em uma conferência da Women Against Pornography, em 1979 - Foto: reprodução
Gloria em uma conferência da Women Against Pornography, em 1979 – Foto: reprodução

GS: Quando a gente vê a foto de uma mulher nua ou seminua, sabe, pela atitude dela, para quê foi clicada.

LD: Outro grande debate a respeito dos direitos individuais que está acontecendo é sobre a identidade trans e a fluidez de gênero, que estão se entrelaçando com o feminismo. Como podemos ser inclusivos ao mesmo tempo que reconhecemos os desafios de nascer biologicamente mulher?
GS: Acho que não tenho a resposta para isso. Mas existe uma diferença entre a luta pelo controle sobre o corpo da mulher e, com isso, sobre os meios de reprodução – algo que está aí para ficar – e o gênero, que foi inventado para controlar os meios de reprodução. Espero que um dia mudemos a sociedade para que se ajuste a cada indivíduo singular, em vez de o indivíduo singular se ajustar à sociedade. Mas estamos todos tentando achar nossas próprias soluções e precisamos apoiar uns aos outros.

LD: Muito bem dito. Agora, uma pergunta menos elevada, mas uma resposta de que preciso desesperadamente: falando como alguém que viajou a vida toda, como você faz as malas?
GS: Mal.

LD: Eu achei que, a esta altura, você seria a rainha das malas.
GS: Mudei com o tempo. Costumava usar minha pasta de trabalho para isso. Tinha uma pasta de lona que adorava. Colocava uma muda de lingerie, jeans de veludo e aqueles collants de gola alta. E pronto. Fiz isso por anos. Usava a mesma coisa sempre e, quando voltava para casa, queimava tudo. Depois, até eu me cansei disso e comecei a usar malas de verdade. Só procuro nunca levar nada que não consiga carregar.