Leonardo Hallal e Renato Hojda, da Focus Têxtil, abrem o Focus Fashion Summit – Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

O Focus Fashion Summit 2020 começou nesta quarta-feira (28.10) em uma edição totalmente virtual. Com os convidados entrando remotamente a partir da plataforma do Zoom, o evento tem duração de dois dias e aborda diversos temas relevantes do universo da moda e seus adjacentes.

Leia abaixo os principais destaques do dia

Ancestralidade na Moda: origem e resgate
Hanayrá Negreiros, Day Molina, Mariana Goulart e Eduardo Inagaki

A primeira mesa do dia, “Ancestralidade na moda: origem e resgate”, teve como foco central a discussão em torno de como os ancestrais das populações se refletem e emergem como objeto de representatividade e resistência dentro do mundo da moda. Com um olhar amplo, a mesa trouxe diferentes abordagens para o assunto, colocando para discutir representantes das populações negras, indígenas e orientais.

Day Molina, expoente estilista de origem indígena, contou que busca transformar o olhar sob esta população de quem vê e consome seu trabalho na moda. “Meu foco na moda é mudar a imagem do indígena, descolonizar o olhar, resgatando o pertencimento étnico. Atuo com um ativismo de protagonismo e corpos indígenas ocupando a moda”, disse. A estilista completou ainda que, na visão dela, a ausência de representatividade na moda é reflexo de um processo histórico triste. “A falta da representatividade indígena na indústria da moda é, também, um reflexo do racismo estrutural da sociedade”.

Representando o povo preto, a pesquisadora Hanayrá Negreiros veio à tona na mesa ao falar que reconhecer a própria ancestralidade é um passo importante para se chegar na essência individual. “Acho que todos devem acessar sua ancestralidade, seja ela qual for, de negritude ou não, para ajudar a se chegar no que as pessoas são hoje, buscar a essência de fato”.

Para completar a mesa que deu início ao evento, o estilista e ilustrador Eduardo Inagaki sentou de forma virtual para falar e indagar sobre a ancestralidade da comunidade japonesa no Brasil – que é a maior do mundo fora do país oriental. Indo de encontro com a opinião de Negreiros, para Eduardo, a ancestralidade é necessária para se encontrar a essência e todo um universo que reside ali. Inagaki ainda compreende que a militância, na maioria das vezes, deixa de ser um embrião nas pessoas quando se encontra a ancestralidade de cada um. “Eu virei militante, de fato, quando eu descobri a minha ancestralidade. Quando eu percebi minha essência, tudo mudou”.

Biodesign, o design vivo
Louis Alderson-Bythell (LAB), Victoria Geaney, Renan Serrano (Visto.bio), Alexandra Farah e Leonardo Hallal (Focus Têxtil)

Mesa com o tema biodesign – Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

Na segunda mesa do primeiro dia de Focus Fashion Summit, alguns players da moda se uniram para falar de inovações que unem biodesign à moda e, consequentemente, criam produtos mais sustentáveis. A primeira a falar foi a jornalista Alexandra Farah, que compartilhou um pouco do que já existe no mercado, como peças em couro de maçã, abacaxi, cactus e, até mesmo, células de colágeno feitas em laboratório.

A jornalista foi seguida por Renan Serrano, que falou da onde surgiu a ideia da criação da Visto.bio. “Percebi que meus clientes voltavam para comprar as mesmas peças clássicas, que se desgastavam depois de um certo número de lavagens. O maior motivo que nos leva a lavar as roupas são as bactérias e o suor. Criamos um produto para que as pessoas possam diminuir a proliferação de bactérias nas peças que preferirem”, disse o designer.

Louis Alderson-Bythell e Victoria Geaney deram uma visão mais acadêmica sobre o assunto. Enquanto primeiro falou sobre a vontade de seus alunos do Royal College of Arts de estudar mais sobre biodesign, a segunda apresentou sua pesquisa de PHD, que resultou na criação de um kit que ajuda designers a impulsionarem produções interdisciplinares.

BRIFW, com Olivia Merquior (Dacri Deviati)

A desmaterialização da moda foi o tema da palestra “A revolução das tecnologias imersivas no mercado de moda global”, comandada por Olivia Merquior e tendo pesquisas do BRIFW, plataforma imersiva que quer apontar caminhos para a moda do futuro, sobre este universo.

“Precisamos nos preparar para transformar produtos em serviços, em experiências”, decretou Olivia, dando como exemplo um lançamento que deve ganhar força quando a tecnologia 5G finalmente estiver implantada no mundo: uma parceria entre o Facebook e a Ray-Ban.

A novidade está prevista para chegar ao mercado no ano que vem. Os detalhes ainda são escassos, mas eles devem funcionar de modo similar ao Echo Frames, da Amazon. Os óculos devem trazer microfone, alto-falantes e uma série de sensores para mapear o ambiente e auxiliar o usuário em tarefas de navegação, compras e atividades físicas, entre outras tarefas.

Startup de moda, é possível?
Eduardo Cristian (Black West/Costurando Sucesso ), Felipe Sanchez (Global Química & Moda), Henri Kanj (Busca Têxtil), Andressa Rando (Moda de Sucesso) e Sergio Fridrich (Prints Connection)

Mesa sobre startups de moda – Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

Dando continuidade ao evento, Henri Kanj mediou uma mesa sobre startups. Os presentes na discussão explicaram o que é startup e quais os diferenciais deste modelo de negócio em relação a outros. “Startup é quando uma empresa pequena nasce para resolver alguma dor – independentemente da área -, para melhorar processos já existentes”, afirmou Sergio Fridrich. “Acho que precisamos nos lembrar que uma startup não precisa ser digital, pode ser um produto”, acrescentou Felipe Sanchez

Eduardo Cristian, que investe em startups, lembrou de alguns pontos essenciais na hora de criar seu negócio, como ter um projeto bem definido, saber como colocá-lo em prática e lembrar que o que faz uma marca não é um produto, mas a sua filosofia. “Os momentos de crise são os melhores para trazer inovação e tecnologia, porque saímos de um padrão de vida que estávamos vivendo”, finalizou Andressa Rando

Construir novas oportunidades em momentos de adversidade, com André Jório (Redley)

O coach e diretor de marketing e vendas da marca Redley, André Jório, liderou um talk para falar sobre como ele enxerga a construção de novas oportunidades em momentos de adversidade como o que estamos vivendo neste momento. Logo de cara, Jório disse que, mesmo vivendo em meio a um mundo digital, é preciso pensar sobre soluções humanas e reais para se conquistar clientes. “Não se limite a negócios digitais em um cenário de incertezas. Existem muitas soluções e nasce-se novas dificuldades. Com isso, é preciso novas soluções e elas precisam ser encontradas”, disparou.

Para se lançar algo novo é preciso ter criatividade aguçada, criando um método e, principalmente, emocionando e tocando os clientes para criar um vínculo. “Inovação é criatividade com nota fiscal. Crie, faça corações baterem mais fortes. É preciso emocionar, criar vínculo com seu cliente, mas para isso tem que ter método.”

Antes de encerrar, o head da Redley foi enfático ao dizer que, antes de visar e obter bons lucros, é preciso se criar credibilidade com quem vai consumir seu produto. “Ofereça benefícios valiosos para seu cliente, antes de ter lucro. É necessário ter credibilidade antes de ter lucro.”

Inovando no varejo hoje
Marcella Kanner (Riachuelo), Richard Stad (Aramis) e Yoni Stern (Focus Têxtil)

Mesa sobre o futuro do varejo – Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

Não há dúvidas: não existe mais varejo offline sem online. “Houve uma mudança de mindset desta divisão. Pós-pandemia, é um único cliente em momentos diferentes, o ambiente digital se misturou com o ambiente físico”, disse Marcella Kanner, da Richuelo, durante a quarta mesa do evento. “A inovação existe para tornar a experiência do cliente fluida e o espaço físico se tornou a extensão do online.”

Para Richard Stad, da Aramis, a pandemia deu a maturidade de trabalhar com o digital, forçando o entendimento da vertente de forma a curto prazo. “Já tínhamos alguns recursos digitais da loja, mas agora é muito mais. A mudança precisa acontecer a partir da cultura, por isso, investimos em times que tinham uma cultura nova para seguirmos em frente”, acrescenta.

“Precisamos nos preparar para atender os clientes do varejo no tempo certo. A Focus tem que apostar, mas saber o que o cliente vai querer. Temos que sempre deixar ele com o estoque pulmão. Comprar o que vai vender, comprar mais quando acabar e vender no tempo que eles precisam. Vender para os varejistas no tempo que eles precisam”, disse Yoni Stern, da Focus Têxtil.

É possível ser sustentável em larga escala?
Nina Braga (Instituto-E), Paulo Cristelli (Focus Têxtil), Henry Costa (Renner), Yoni Stern (Focus Têxtil), Donatti (C&A)

É impossível falar sobre sustentabilidade sem se questionar o que os grandes players do mundo da moda estão fazendo a respeito deste assunto. Pensando nisso, o Focus Textil promoveu o questionamento: é possível ser sustentável em larga escala? Segundo Donatti, da C&A, é impossível não ser sustentável em grande escala. “Nosso cliente, como sociedade, não aceita mais e todos estamos tendo que ir por este caminho”, explica.

“Acho que a palavra chave da sustentabilidade é colaboração. Entendemos que podemos coordenar com a nossa cadeia, mas ela precisa estar muito engajada com isso”, acrescenta Henry Costa, da Renner. Para Nina Braga, do Instituto-E, as empresas precisam tornar a sustentabilidade como indicador de sucesso – tanto dentro quanto fora da marca.