Leonardo Hallal e Renato Hojda, da Focus Têxtil, abrem o Focus Fashion Summit – Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

Por Carol Hungria, João Victor Marques e Marcela Palhão

O segundo dia do Focus Fashion Summit 2020 aconteceu nesta quinta-feira (29.10) em uma edição totalmente virtual. Com os convidados entrando remotamente a partir da plataforma do Zoom, o evento tem duração de dois dias e aborda diversos temas relevantes do universo da moda e seus adjacentes.

Leia abaixo os principais destaques do segundo dia de evento.

Lixo Zero
Marcelo Sommer, Tayná Raffaine (Pernambucanas), Walter Rodrigues (Assintecal) e Igor de Barros (Reserva)

Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

O segundo dia do evento começou com uma mesa de debate muito relevante e atual: a discussão acerca de como o lixo da indústria da moda pode ser bem reutilizado e descartado. Mediado por Walter Rodrigues, da Assintecal, a primeira do dia contou com a participação do estilista Marcelo Sommer, da modelista Tayná Raffaine, que trabalha na Pernambucanas, e do designer de moda Igor de Barros, da marca Reserva.

Recém formada pelo Senac, Tayná – que hoje trabalha como modelista na Pernambucanas, foi descoberta por vencer o concurdo Talentos na Moda Sustentável, sendo convidada pela marca de varejo para integrar o time e lançar uma coleção-cápsula.

Durante a mesa, ela contou que o mais legal de iniciar a implementação da mudança de mentalidade na empresa foi a troca que teve com os profissionais que já trabalhavam na casa e estavam dispostos a conhecerem novas ideias. “O legal foi a troca entre as minhas ideias sustentáveis e a ideia do varejo, na produção em grande escala, conseguindo fazer com que uma mudança, mesmo que pequena, comece a acontecer”, finalizou.

O conhecido e renomado estilista Marcelo Sommer, que está a frente da marca de upcycling Up,Majuisi, contou quais são os maiores desafios de se produzir uma coleção a partir de peças já existentes: “O verdadeiro desafio é trabalhar com peças já marcadas, modeladas. Tudo que eu já aprendi, estou tendo que aprender. Temos que transformar em um produto novo, com uma nova história. É um retrabalho de modelagem para retirar as formas já existentes”.

Para encerrar o papo, entre as falas, o diretor criativo da marca Reserva, Igor de Barros, disse – levando em conta a realidade da label que representa e demais – que cada passo é importante para se alcançar um nível de sustentabilidade alto. “Um passo de cada vez, um momento de cada vez, não vai ser do dia pra noite, mas temos que topar essa experiência e essas mudanças. Cada passinho é importante”, finalizou.

Vamos nos Permitir
Lucius Vilar (Inspira Mais), Janaina Salgado (Trend2), Felipe Sanchez (Global Química & Moda), Fernanda Feijó (Renner) e Fábio Neves (Epson)

Na segunda mesa do dia, o Focus Fashion Summit 2020 discutiu o futuro e as novas tecnologias da estamparia. Segundo Janaina Salgado, o atual cenário da moda brasileira está mais favorável à produção de estampas nacionais e valorização dos nossos artistas. “Estamos passando por um momento de reparação e as cores atingem muito as emoções. O mercado está muito colorido e mirando em estampas abstratas, com combinações de cores energizantes e tranquilizantes”, acrescenta.

Lucius Vilar enxerga os últimos cinco anos como uma mudança para este ramo da moda, com abertura de mercado e internacionalização de estúdios. Já Fábio Neves apresentou o que há de mais interessantes quando pensamos em estampas digitais: “A tecnologia permite a impressão de diversas estampas no mesmo dia e a criação de um número ilimitado de coleções. Uma fábrica digital tem um espaço dez vezes menor do que qualquer fábrica convencional.”

Prototipando o Futuro da Moda
Fábio Mariano Borges (inSearch), Lucilene Danciguer (Lab Moda Sustentável), Sabina Deweik e Itiana Passetti (Revoada)

Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

“O futuro não é dado, é criado”. Foi com esta frase de impactou que começou a mesa “Prototipando o Futuro da Moda”, dita pela mediadora Lucilene Danciguer, do Lab Moda Sustentável. E ela permeou todo o talk do segundo dia do Focus Fashion Summit.

“Estamos esperando as tendências prontas ou criamos as nossas próprias histórias”, questionou Fábio Mariano Borges, da inSearch, pontuando que tendências são fenômenos comportamentais, “não as que duram três meses”. Citando o autor John Cooper, ele lembra que vivemos em um mundo complexo, “mas temos a tendência em resumir tudo em três ‘key point’, e isso corta qualquer criatividade”.

A caçadora de tendências Sabina Deweik concorda que o futuro não é um destino. “Existem futuros possíveis. Eles são criados a partir das nossas escolhas no presente”, defende. Com a pandemia, a população mundial ganha a possibilidade de um “reset”, de se reimaginar e avaliar tudo o que vinhamos fazendo. “A pandemia talvez seja um ‘acorda’ para a gente sair do modelo egocentrico e individualista que estávamos vivendo”, sentecia.

“Temos agora a possibilidade onde escolhemos colaborar, sermos mais empático, tratar nosso planeta como a única morada que nós temos”, diz. No consumo, isso já se reflete. “O resultado a qualquer custo foi invertido. Os consumidores estão muito vigilantes neste momento. O que importa é a transparência, é a diversidade, é o fazer de dentro para fora”.

Itiana Passetti, da grife Revoada, reforça esse novo mindset sustentável. Sua marca trabalha a economia circular muito focada em transformações de resíduos. “É hora de refletir se, de fato, a gente se veste de maneira que seja um ‘ganha a ganha a ganha’, ou seja, onde a natureza também se benefícia com a nossa existência na Terra”, finaliza.

Economia Social
Gustavo Silvestre

Cada vez mais, a moda sem propósito tem perdido o seu sentido e iniciativas que agregam valor não-comerciais às suas peças ganham destaques. É o caso do projeto Ponto Firme, criado por Gustavo Silvestre. Durante seu talk no evento, o estilista compartilhou a história por trás da criação da iniciativa que ensina crochê para presidiários e já teve coleções apresentadas em grandes eventos, incluindo o SPFW.

“O projeto leva capacitação profissional para o detentos preencherem seu tempo de forma ativa e, quando saírem de lá, terem como gerar renda. Depois de cinco anos, recebo alguns meninos saídos da penitenciária que querem continuar trabalhando com crochê, então os inclui na minha equipe. Na próxima edição do SPFW, vamos apresentar uma coleção e lançar um documentário sobre a anterior. A economia social é um dos caminhos para o futuro da moda”, acrescentou Silvestre.

Turbinando a venda online
Leonardo Hallal (Focus Têxtil), Renato Hojda (Focus Têxtil), Felipe Dellacqua (VTEX), Thiago Verçosa (Original.io), Raphael Lassance (Growth Team) e Fernando Guglielmetti (C&A)

Foto: Reprodução/Instagram/@focusfashionsummit

Dados, dados e mais dados. Este é o grito de ordem para as marcas que precisam renovar o seu negócio digital. “Transformação virtual significa abrir uma conta no Instagram. É gerir equipes online, digitalizar processos operacionais e fidalizar clientes que compram online. Saber as suas métricas é essencial. Você precisa saber o custo de aquisição de clientes, a origem de tráfego e vendas, as taxas de conversão e taxa de ‘recompra’ – as empresas que mais crescem são as que retém clientes”, adverte Raphael Lassance, da empresa Growth Team.

Para Fernando Guglielmetti, da C&A, o grande diferencial da rede nesta pandemia foi pensar em uma estratégia mais efetiva de omnichanel. “Pegamos as lojas fechadas e transformamos em centro de distribuição para entregar os pedidos do e-commerce, já que elas estam fechadas”, exemplifica.

Outra aposta essencial foi aumentar o sortimento de produtos no site de vendas. “A C&A virou um market place, hoje quase 200 empresas vendem seus produtos em nosso site. Com isso, aumentamos muito os produtos ofertados aos clientes”.

O market place, por sinal, é visto por Felipe Dellacqua, da VTEX, como uma questão de sobrevivência para muitas marcas. “Do ponto de vista do seller, de quem vende no market place, é muito vantajoso. Pelo tráfego de pessoas e pela experiência de navegabilidade, entre outros fatores”, complementa Guglielmetti.

Sustentabilidade Pós-Covid
André Carvalhal

Não há dúvidas de que o mundo da moda não será o mesmo pós-pandemia, mas, segundo André Carvalhal, isso é um resultado de um movimento que já vinha acontecendo há anos.

“Durante muito tempo acreditamos que só havia um jeito de fazer moda. Mas o movimento que impulsiona sustentabilidade e responsabilidade foi impulsionado pelo público e as mídias. Precisamos entender que nossos modelos são cíclicos e que só podemos iniciar outro quando aceitamos o fim do anterior. A crise atual tem muito a ver com o fato de não aceitarmos o fim de algumas lógicas”, disse.

Para o especialista no assunto, muitas pessoas passaram a entender que a sustentabilidade é o único caminho. “Não vai haver apenas um tipo de comportamento do consumidor daqui para frente. Para entender o momento pós-pandemia, é preciso entender o que está acontecendo agora”, finaliza.

Protagonismos do presente
Flávia Durante (Pop Plus), Izabelle Palma, Paloma Botelho, Vicenta Perrotta e Jackson Araujo (Trama Afetiva)

Para falar sobre protagonismo, Jackson Araújo, que mediava a mesa, iniciou falando sobre diversos exemplos de personalidades que se manifestaram contra a falta de representatividade na moda, incluindo o trabalho de Rihanna à frente de Fenty Beauty. “Representatividade é sinônimo de crescimento sustentável para qualquer marca”, acrescentou.

Izabelle Palma foi a primeira convidada a falar e compartilhou sua experiência como representante das pessoas com deficiência física no mundo da moda. “A pessoa com deficiência e a sem deficiência estão aprendendo a se relacionar uma com a outra. Temos uma oportunidade de ser protagonista como nunca antes”, afirma.

“Com o trabalho da Pop Pluz, feira de roupa plus size que acontece em São Paulo, pudemos fazer um movimento de dentro para fora: mesmo sem ser da produção da moda, insatisfeitas com o que víamos, nos movimentamos e criamos nossas marcas e eventos, começando a dar uma movimentada no mercado”, acrescentou Flávia Duarte sobre a busca da mulher gorda por seu protagonismo.

“O vestir-se bem para as pessoas negras é mais do que um XXX, é uma armadura para as violências racistas que sofremos diariamente”, analisa Paloma Botelho sobre a importância da moda nas discussões raciais. “Moda é primeiro política, expressão, comunicação e só por último roupa.”

“A estética é um processo de potência e a moda carrega esse peso. Uma roupa que você compra num fast fashion já vem carregada deste processo de estereótipo. Estamos construindo um protagonismo individual, um processo de autoconhecimento e autonomia e uma estética que traga reflexões para mudanças efetivas”, acrescenta a estilista Vicenta Perrota.