Marc Jacobs “Quando algo me inspira, normalmente provoca uma cadeia de imagens ou pensamentos ilógicos e, ao mesmo tempo, lógicos, impossível de explicar. É um processo tremendamente paradoxal – é qualquer coisa, menos linear. O que parecemuito lógico para mim, não é, necessariamente assim para os outros.”
Marc Jacobs “Quando algo me inspira, normalmente provoca uma cadeia de imagens ou pensamentos ilógicos e, ao mesmo tempo, lógicos, impossível de explicar. É um processo tremendamente paradoxal – é qualquer coisa, menos linear. O que parece
muito lógico para mim, não é, necessariamente assim para os outros.”

Por Charlotte Cowles

O artista Dustin Yellin corre por seu cavernoso estúdio no Brooklyn como um foguete, uma bola de energia com cabelos castanho-avermelhados e uma fila de assistentes lhe fazendo perguntas. Almoço? (Ele vai comer qualquer sanduíche.) Já ligou de volta para aquele cara? (Ah, ele vai ligar.) O armazém reformado no bairro de Red Hook é um espaço sem frescuras, com chão de concreto e uma equipe em camisas de flanela descansando nos sofás descombinados. Mais de uma dúzia de esculturas de vidro em várias etapas de construção está delicadamente organizada em mesas de ferro, como pacientes numa ala cirúrgica. Yellin é especialista em colagens retangulares, feitas de tinta acrílica e pequenas fotos (a maioria é retirada de livros velhos) coladas em múltiplas lâminas de vidro.As lâminas são, então, fundidas para criar uma imagem tridimensional suspensa, como um estereograma vivo. Em outro canto, um exército de esculturas concluídas: formas humanas em tamanho real e guardadas em blocos transparentes, como um cardume de peixes num aquário congelado.

Karl Lagerfeld “Nunca me perguntei sobre meu processo criativo. Apenas trabalho.”
Karl Lagerfeld “Nunca me perguntei sobre meu processo criativo. Apenas trabalho.”

Quando Yellin se joga em sua cadeira, piscando os olhos azuis por trás dos óculos de aro grosso, fica claro que ele não descansa há horas. A correria para terminar uma grande instalação para o New York City Ballet (inaugurada em janeiro no Lincoln Center), a recente publicação do livro Heavy Water, editado pela Rizzoli, e mais um TED Talk, que fará em Vancouver neste semestre, estão acostumando o artista a estar em cinco lugares diferentes ao mesmo tempo. E há ainda a Pioneer Works, sua instituição sem fins lucrativos situada num edifício vizinho, ainda maior, e que ele visita constantemente, como um pai ansioso.

Yellin fundou a Pioneer Works em 2011, mas sonha com ela desde que deixou o ensino médio no Colorado pelas ruas de Nova York. “Tinha essa visão maluca de um ambiente colaborativo – mais uma utopia –, em que meus amigos poderiam tocar música enquanto eu pintava e outra pessoa escrevia um poema. Sempre achei que ajuda ter pessoas criando ao seu redor. Faz com que você também queira criar.” Inspirado pelas comunidades artísticas, como as formadas na Cooper Union e na Black Mountain College, Yellin entrou em ação quando descobriu que o número 159 da Pioneer Street, uma antiga fábrica de armações de ferro construída no fim do século 19, estava sendo posta à venda em 2009. “Apaixonei-me por esse prédio como se fosse uma garota.” Ao longo de um período que ele chama de “uma série de acidentes” (na realidade, uma incrível arrecadação de fundos), Yellin conseguiu adquirir o lote e reformou-o, expondo seus pilares grossos de madeira e derrubando as janelas fechadas para criar um interior luminoso parecido com o de uma catedral. O projeto sofreu atrasos em 2012, quando o furacão Sandy inundou o térreo com metros de água do mar, mas ele nem se perturbou. “Foi uma das coisas mais surreais que já vi. Eu só pensava: ‘Isso é incrível! O oceano está na nossa casa!’.”

Diane von Furstenberg “Sou inspirada por todas as mulheres, pela natureza, pela arte... Sempre encontro inspiração quando viajo. Pode ser numa indiana trabalhando no campo com um sári laranjae mais elegante que qualquer princesa em um castelo. Ou algo na natureza, como a maneira com que a luz atravessa uma flor- de-cerejeira. O que quer que seja, tiro uma foto ou desenho e, então, faço acontecer.”
Diane von Furstenberg “Sou inspirada por todas as mulheres, pela natureza, pela arte… Sempre encontro inspiração quando viajo. Pode ser numa indiana trabalhando no campo com um sári laranja
e mais elegante que qualquer princesa em um castelo. Ou algo na natureza, como a maneira com que a luz atravessa uma flor- de-cerejeira. O que quer que seja, tiro uma foto ou desenho e, então, faço acontecer.”

Localizada em um pedaço tranquilo de prédios industriais próximos ao porto, a Pioneer Works agora está cheia de atividade. Sedia entre sete e dez residências por vez, misturando artistas de todos os tipos. Há um estúdio de gravações, que serve de sede para a Clocktower Radio, assim como um laboratório científico (atualmente ocupado por um grupo de neurocientistas e parte da Nanotranics Imaging) e salas de aula para workshops sobre tudo, de desenho a dança moderna, física e astronomia. “É sempre interdisciplinar”, diz Yellin sobre o programa de residência. “Nunca colocaríamos cinco pintores juntos.” A exposição no primeiro andar é gratuita e aberta ao público. “Tudo tem a ver com o processo de exposição”, explica.“As pessoas podem entrar na residência de qualquer um e ver as coisas serem feitas.”

Nicolas Ghesquière “Inspiro-me em heroínas. Mulheres modernas, multifacetadas e iconoclastas: Charlotte Gainsbourg, Jennifer Connelly, Catherine Deneuve.”
Nicolas Ghesquière “Inspiro-me em heroínas. Mulheres modernas, multifacetadas e iconoclastas: Charlotte Gainsbourg, Jennifer Connelly, Catherine Deneuve.”

 

A visão de Yellin não apenas ajudou a transformar Red Hook numa referência para a comunidade artística de Nova York, como angariou fãs no mundo da moda. Diane von Furstenberg ficou tão tocada com suas Psychogeographies, que encomendou uma escultura retratando seu icônico wrap dress. “É tão poderosa que a coloquei na entrada da exposição Jornada de um Vestido, em Los Angeles. Quando os visitantes entravam, era a primeira coisa que viam.”  No ano passado, ele colaborou com a estilista Misha Nonoo em estampas coloridas para sua coleção de verão 2015. “Dustin é muito esperto e consegue ver o quadro geral, seja com a Pioneer Works ou com seus próprios projetos artísticos”, fala Nonoo. “Ele não se autoclassifica. Acredita nessa simbiose incrível entre vários mundos criativos.”

Conforme a Pioneer Works amadurece e se torna uma instituição mais autossustentável (“mais como uma criança e menos como um bebê”, explica Yellin), ele anseia por experimentar com meios diferentes.“Não importa o que eu faça, nunca vou fazer mais do que um dedo daquilo que gostaria de fazer”, diz. “Tenho sonhos e visões suficientes para mais mil vidas.”