Anna veste top Viviana Uchitel e saia Marisa Ribeiro - Foto: Mariana Maltoni
Anna veste top Viviana Uchitel e saia Marisa Ribeiro – Foto: Mariana Maltoni

Por Carol Sganzerla, com set design de Tissy Brauen e styling de Giovana Refatti

No ano passado, a cineasta paulistana cruzou o Atlântico oito vezes. Em todas elas, para apresentar seu longa-metragem de sucesso Que Horas ela Volta?, que alcançou a marca de 502 mil espectadores no Brasil, e foi eleito pelo público o melhor filme do Festival de Berlim de 2015, indicado para a corrida pelo Oscar estrangeiro de 2016 (feito que não acontecia desde 1985, com a A Hora da Estrela, de Suzana Amaral) e vendido para 30 países. Em fevereiro, lá foi Anna, novamente, a caminho da capital alemã. Dessa vez, para exibir, na Mostra Panorama, outra cria sua: Mãe só há uma, seu novo filme, com Matheus Nachtergaele no elenco. A história narra a saga de um menino que descobre ter sido roubado na maternidade. O ponto de partida, conta ela, foi a história verídica de Pedrinho, caso que ficou famoso em todo o País no começo dos anos 2000, quando, aos 17 anos, revelou- se ter sido sequestrado na maternidade, ainda recém-nascido, e criado por outra família que não a biológica. “Sempre fui fascinada pela história da Vilma [a mãe que sequestra] e do Pedrinho. Mas todo mundo só falava dela e eu queria entender a ótica dele: como foi trocar de família? Como segue a vida, quem é você, como passa a confiar nas pessoas?”.

Na volta de Berlim, teve as exibições aplaudidas (“no meio e no fim”) e já acertou a comercialização do longa para dez países. Anna estava na expectativa de saber como a produção seria recebida. “É um filme mais imperfeito, jovial, mais provocativo, câmera na mão. Tem uma narrativa menos clássica, completamente diferente, tem coisas que acontecem e você não vê”, pondera. Apesar do iminente sucesso, a diretora ainda digere a repercussão e as descobertas que surgiram junto com o sucesso de Que Horas ela Volta?. “Sempre fiz cinema e não sentia o machismo. Mas meus filmes atingiam marcas de 50 mil, 70 mil espectadores, não ameaçavam ninguém. Na hora que ganhei festivais, vendi para 30 países, cade a minha cadeira? Tive de abrir meu espaço com o cotovelo”, diz. Um episódio que ocorreu em um debate em Recife, após a exibição do longa, foi o estopim para Anna começar a se posicionar. Os cineastas Cláudio Assis e Lírio Ferreira, visivelmente embriagados, interrompiam suas falas, entre outras atitudes sexistas. “Não me importei com eles, mas quis deixar clara a dificuldade de o homem em ver a mulher em papel de protagonismo. O homem, muito mais que a mulher, acha importante ser importante. A gente se contenta em estar bem, ter o filho bem, comer bem, dormir bem. O homem inventou essa arrogância, um delírio de um poder construído.”

Um ano se passou desde o lançamento do longa e a cineasta não recebeu nenhum convite para dirigir série ou programa de TV. “Se eu fosse um homem, de seus 30 anos, todas as televisões estariam atrás de mim”, acredita ela, que contempla no currículo as produções É Proibido Fumar (2009), O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), Durval Discos (2002) e o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, exibido na TV Cultura nos anos 1980, do qual era roteirista.

Passado o furacão, Anna já tem o roteiro dos seus próximos meses traçado. Com o dinheiro que o filme rendeu “vai comprar seu silêncio”. Vai dar um tempo no trabalho. Passar temporadas na casa que mantém em Paraty. Vai ficar perto dos filhos (José, 21 anos, e Joaquim, 15). Vai ao médico. Voltar a fazer exercícios. Descansar. Dormir. Não fazer nada. Não pensar em nada. Ficar em silêncio, sem hora para voltar.

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