Foto: Rafael Monteiro

Grande nome do universo teen e estrela brasileira da Disney, Gabriella Di Grecco já fez dança na Broadway, estudou na American Academy of Dramatic Arts, é tecnóloga em ciências ambientais, com especialização no bioma do Pantanal, estudou Arte Samurai no Japão, com o mestre samurai Tetsuro Shimaguchi, treinador e coreógrafo do filme “Kill Bill”, e isso apenas para exemplificar um pouco do seu extenso currículo.

Gabi, como é chamada carinhosamente por seus fãs, é a brasileira coprotagonista da série argentina “Disney Bia”, uma das maiores audiências do Disney Channel, atualmente disponível no Disney Plus, e sucesso na Europa e América Latina. A produção foi a última vencedora do Meus Prêmios Nick, na categoria “Programa de TV”, teve sua trilha sonora indicada ao Prêmios Gardel (premiação mais importante da indústria fonográfica argentina), e foi nominada no Kids Choice Awards (México), na categoria Show Favorito. Gabriella teve, na série, a oportunidade de explorar, também, sua vertente como cantora, ultrapassando a marca expressiva de 5 milhões de reproduções únicas no Spotify de músicas interpretadas por ela. Já no Youtube, o clipe “Si Vuelvo a Nacer”, dueto com Isabela Souza, conta com mais de 7 milhões de visualizações, e o clipe de “En Tu Cara”, também com Isabela, foi lançado recentemente e já soma mais de 2 milhões acessos.

A artista, que tem também entre seus trabalhos os musicais “Cinza”, de Jay Vaquer, e “Vamp – O Musical”, dirigido por Jorge Fernando, além de passagem em três novelas no País, entre elas a protagonista Emilia na fase jovem de “Além do Tempo” (Globo), aproveita sua visibilidade para falar de assuntos importantes como representatividade e autoaceitação. Passando também por pautas que envolvem diretamente beleza, como o skin positivity e transição capilar!

Em conversa exclusiva com a Bazaar ela fala sobre tudo isso e muito mais.

1) Antes de tudo gostaria de saber como você enxerga sua trajetória até aqui e o que considera os pontos altos e baixos de tudo que viveu.

É engraçado porque, olhando pra trás, eu me sinto muito em paz com o caminho que percorri até chegar aqui. O que chamamos de “altos” e de “baixos” são etapas que, invariavelmente, formam (entre muitas coisas) as premissas que nos trazem até onde estamos. É louco porque é mais fácil fazer esse exercício, ter essa visão mais holística, quando olhamos para o passado e temos uma noção mais ampla do que é que estávamos vivendo e qual a contribuição que essa vivência deu no futuro. Quando estamos vivenciando a situação, esquecemos de aplicar essa mentalidade mais ampla, mais serena e até mais sábia, eu diria. Atualmente eu busco fazer esse exercício independente de onde eu me encontre na minha caminhada, seja um “alto” ou “baixo”. Em tempos de pandemia, quando o setor da arte ficou profundamente abalado, esse exercício foi extremamente útil para me manter focada no presente e criar, trabalhar e servir com o que eu tinha nesse momento. Hoje eu consigo ver que a minha trajetória me levou a buscar pela paz. Paz na mente, nas relações com as pessoas, nos serviços, na arte, em tudo. E espero poder levar isso durante a trajetória que tenho a percorrer nos anos que virão.

Foto: Rafael Monteiro

2) Autoestima, autoaceitação e autoconfiança são assuntos interligados. Como tentar não se cobrar tanto na era dos filtros. Matérias de publicações contam com o depoimento de médicos relatando um número cada vez maior de pessoas procurando cirurgias plásticas e levando como referência filtros de Snapchat e Instagram. O que pensa a respeito?

Percebo que autoestima, autoaceitação e autoconfiança vêm do mesmo lugar: o autoconceito. O autoconceito passa por entender quem você realmente é. Quem você realmente é? O corpo? O seu trabalho? A sua reputação? O seu poder aquisitivo? Quem é você de verdade? É fácil se esquecer disso. Se distrair. E quando nos esquecemos disso, fazemos de tudo para preencher o vazio dessa pergunta não respondida, buscando no mundo a resposta através de um corpo x, ou de um cargo y, uma reputação z, um número w de dinheiro na conta… mas no fim da linha, todo mundo sabe que isso fica para trás, a insatisfação continua. Não adianta buscar uma aprovação do mundo. Tampouco estou dizendo que cuidar do corpo, ou ter ambição é algo ruim. Não se trata disso. A questão é mais profunda que essa: enquanto não buscarmos entender quem somos nós de verdade, ter um bom autoconceito sobre nós mesmos, qualquer busca por autoestima, autoaceitação e autoconfiança fica inconsistente. Em outras palavras, nenhum cirurgião plástico pode te deixar tão bonito quanto o sorriso sincero de uma criança. Nenhuma conta milionária pode te dar o prazer dormir com a consciência tranquila. Quando faço esse exercício de entrar em contato com quem eu realmente sou, é bem mais fácil se libertar não só da corrente da imagem, mas de todas as outras.

3) Você tem passado por um processo de transição capilar, ela começou na quarentena? Se sim, foi algo que você já tinha vontade e agora com a pausa nas gravações conseguiu colocar em prática? E ainda sobre o mesmo assunto, quando foi a decisão de começar o processo, qual a parte mais difícil do processo e, se existiu uma vontade de desistir, como você seguiu em frente na mudança? 

O assunto transição capilar era algo que me interessava havia alguns anos, mas não sonhava em fazer. Curtia o tema porque se aprende muito sobre cuidar do cabelo e achava curioso ver esse processo de quebra de paradigma. Era bonito de ver essa transformação mental.

A minha transição começou em março do ano passado, na quarentena. Ocorreu de forma muito natural, porque eu já estava em um processo de mudança em muitos sentidos. A pandemia mundial me fez parar e olhar para o que eu estava pensando antes, como eu estava levando a minha vida, a minha saúde, as minhas relações com as pessoas, o meu trabalho, minhas responsabilidades no mundo, entre muitas outras coisas. E isso, na verdade, foi um exercício de desapego muito grande. Nós temos muita dificuldade em soltar nossos pensamentos e abrir nossa mente para uma coisa nova. Estou feliz que estou conseguindo fazer essa mudança mental e a transição é bem emblemática nesse processo.

Falando no dia a dia da transição, acho que a parte mais difícil foi encontrar a técnica mais adequada pra modelar um fio que tem duas texturas. E são MUITAS! E é preciso ir tentando. Mas, como eu estava nesse processo de mudança para uma mentalidade mais em paz comigo mesma, cada tentativa era um aprendizado diferente. E se desse errado, aí eu improvisava com algum penteado, dava risada. A magia está em transformar o processo em algo gostoso. Agora, por exemplo, eu estou curtindo como ele está: com duas texturas, o fio longo… Estou conhecendo o meu cabelo. No fim da linha, estou me conhecendo. Outro dia, me olhei no espelho e lá estava o cabelo, com as suas texturas todas ali, e pensei: “Nossa, era disso que eu tinha medo?”. É um processo que toca em lugares muito profundos, mas pode ser um processo muito belo. É assim que eu tenho vivenciado isso e encorajo as pessoas que querem transicionar, que estão transicionando ou desistindo da transição a fazerem o mesmo. Se conheça. A beleza mora nesse ato.

4) Como você encara a responsabilidade e oportunidade de ter uma voz de alcance nas redes? Quais são as causas que te mobilizam, sensibilizam e também as que fazem seus olhos brilharem? 

Antes eu via isso de uma forma que me gerava ansiedade, me sentia pressionada. Depois passei a ficar mais em paz com isso. Mas precisei olhar para isso de forma muito sincera para ter essa tranquilidade. Nessa sinceridade, eu percebi que tenho na minha mão uma excelente ferramenta para trazer alguma coisa boa para as pessoas. Nisso, a causa que me toca e me sensibiliza são as próprias pessoas e o que todas nós temos em comum: insatisfações, alegrias, frustrações, culpas, faltas, defesas, euforias, felicidades etc. Percebi que minha melhor forma de trazer alguma coisa boa para as pessoas é falar sobre como lidamos com a vida, com as coisas, com as pessoas… E buscar levar algum aprendizado que tive e também aprender com as pessoas que interagem comigo.

Percebo que, quando eu me coloco em um lugar de aprendiz compartilhando coisas de forma amorosa, humana e disponível, é possível falar sobre qualquer tema de forma que todos tenham a ganhar com isso. É isso que eu tenho buscado e é isso que tem funcionado de uma forma muito bonita entre as pessoas que me seguem. Tem pessoas de diversas idades, de muitos países, diferentes classes sociais, diferentes etnias, orientação sexual, identidade de gênero, entre muitas outras coisas. E a nossa convivência é a prova de que é possível conversar sobre tudo com todos de forma sincera, amorosa, inteligente, sábia e feliz quando o foco é crescer junto, quando o foco é no que temos em comum: a nossa humanidade.

Foto: Rafael Monteiro

 5) Você já teve algum período em que não se sentia pertencente ou encaixando no mundo? Se sim, poderia dividir a experiência visto que transtornos como ansiedade têm sido cada vez mais comuns em tempos de pandemia? Aliás, você acha que esse mundo rápido das redes sociais nos deixou mais ansiosos ou acredita que a diferença é que apenas agora estamos falando mais sobre? 

Esse “algum período” é toda a minha vida, no caso! Hahahaha! Passei 30 anos me sentindo assim. E creio que essa sensação de que “tem algo errado/estranho” é algo que já passou pela mente e pelo coração de todo mundo em algum momento da vida. No meu caso, especificamente, isso sempre me deixou inquieta. Tanto que decidi ser atriz por isso. Via no ato de emprestar o meu corpo para outra vida (por meio dos personagens), uma forma didática de entender o porquê de o mundo ser assim, o porquê de as pessoas serem como são, e, de fato, encontrei muitas respostas para esse “desencaixe”. Entretanto, também busquei na terapia essas respostas e encontrei muitíssimas. Atualmente, tenho buscado essas respostas por meio de uma abordagem existencial, e isso tem me ajudado muito mais do que imaginei. Com todas essas buscas, posso dizer que já me sinto muito melhor e mais quite com o mundo e com as coisas como elas são, e isso não tem deixado mais espaço pra ansiedade acontecer.

Sobre a ansiedade, penso que ocorrem as duas coisas: o mundo está mais acelerado e isso contribui para casos de ansiedade, mas ao mesmo tempo se tem muito mais informação e menos tabu sobre esse tema. Quando converso com pessoas mais velhas, elas relatam que hoje elas identificam como ansiedade alguns eventos passados que antes não tinham nome.

De qualquer forma, a ansiedade é uma sensação/ocorrência legítima, não temos que ter medo ou vergonha de falar sobre esse tema porque é inerente à nossa condição humana e pode ocorrer com qualquer pessoa. Por outro lado, é um sintoma de que algo está desajustado. Então é preciso cuidar disso, seja lá qual for o desajuste, seja ele de ordem física, química, mental, psicológica, existencial… qualquer ordem. É muito importante se cuidar.

6) Quais seus sonhos pessoais e para o mundo? Como vê sua carreira daqui a 10 anos? 

Meu sonho pessoal é poder entregar algo que preencha o coração das pessoas e as façam refletir um pouco mais, se amarem um pouco mais, e amar mais o que/quem está ao redor delas. A arte e a comunicação são as ferramentas que encontrei para isso. Então espero conseguir entregar tudo isso cada vez mais e com mais qualidade para a vida das pessoas.

Meu sonho para o mundo, de verdade, é que ele opte pela paz. Vivemos em um mundo no qual as prioridades são outras. O foco não é a paz. Desde a forma como cumprimentamos o cobrador de ônibus, negociamos um contrato, comemos o almoço ou ajudamos uma pessoa na rua… O nosso foco está em muitas outras coisas, dificilmente está na paz. É louco pensar nisso porque paz é algo que todos querem (ou pelo menos a maioria). Espero que a gente se dê conta disso logo.

7) Como você cuida do seu corpo e mente? Aqui também entram as dicas de beleza que merecem ser compartilhadas, inclusive caseiras, produtos que usa, atividades físicas… Você sempre gostou de se exercitar? Se não, como faz para driblar a preguiça e manter a constância? 

Eu penso que nós somos um sistema. O corpo não está separado da mente. Entretanto, pelo menos para mim, tudo começa na mente. Se eu estou com a mente sã, é mais fácil fazer escolhas conscientes para manter o corpo são. E da mesma forma que você alimenta o corpo, você alimenta a mente. Tudo que você come, as relações que você tem, o conteúdo que você consome… Tudo isso alimenta o seu ser. Para cuidar da minha mente, eu pratico meditação todos os dias, consumo conteúdo sobre esse tema todos os dias e isso me leva a praticar em um estado muito consciente todos os dias. Com base nisso, é mais tranquilo fazer escolhas conscientes sobre tudo, o que como, que exercício eu vou fazer, que trabalho preciso executar etc. Quando você está consciente e focado, se a preguiça de fazer um exercício vem, você consegue olhar pra ela de forma isenta e realista, sem se culpar. Aí você toma a escolha consciente de fazer o exercício agora ou depois.

A melhor dica de beleza que eu posso dar é grátis e acessível: medite. Pode ser 1 minuto, 5, 10, 20, 30 minutos por dia… O que seja. Mas é muito importante conhecer a nossa mente. Se conhecer. Com base nisso fica bem mais fácil ter foco nos afazeres, ter resiliência diante de situações complicadas e mais compaixão nas relações.

8) O que na sua visão é considerado ser belo? 

O belo está no que realmente somos, na nossa essência. Infelizmente, o mundo faz um excelente trabalho nos fazendo esquecer disso. Entretanto, uma forma fácil de se lembrar dessa beleza que existe em nós e ver a inocência das crianças e dos animais.

9) Como vê a mudança de postura e de ideais de perfeição até mesmo em empresas como a Disney, que vem ampliando seus perfis de princesas? 

Eu percebo que o mundo está passando por um momento que nos faz olhar para mais coisas além da forma. E eu vejo isso com olhos positivos. Estamos nos dando conta de que a aparência, em si mesma, não tem consistência, não se sustenta no longo prazo sem estofo. As ideias (e o teor delas), a criatividade, o conteúdo, tem ganhado mais espaço nas redes sociais, na mídia, nos meios de comunicação etc. É natural que o entretenimento siga o mesmo curso, dando mais espaço para a diversidade e para ideias mais inovadoras.

Foto: Rafael Monteiro

10) Por fim, sabemos que o pantanal e o meio ambiente não vivem momento fácil no nosso País. Como alguém que se formou tecnóloga em ciências ambientais, especializada no bioma do Pantanal, como você, vê tudo que temos vivido?  

Vejo que são “humanos fazendo humanices”. Quando você tem a oportunidade de estudar a natureza a fundo e viver nela de forma imersiva (como foi o meu caso nas ciências ambientais), você percebe que existe uma ordem universal na natureza: a colaboração. Todos os seres da natureza nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem, de forma que esse ciclo ajuda outros animais, as plantas, o solo etc. Não tem desperdício. Tudo ocorre de forma confortável para todo o ecossistema. Na Natureza, só existe uma exceção: os humanos. No pensamento humano se crê que a natureza deve ser explorada, deve servir-nos. Isso vai na total contramão da essência da natureza, que existe há muitíssimo mais tempo que nós, humanos. Enquanto nos virmos separados da natureza, mais estamos colaborando para viver sem ela, só que não vivemos sem ela. Já ela vive perfeitamente sem nós.