Giovana Madalosso - Por que ler mulheres?
Bell Hooks – Foto: Divulgação

Por Giovana Madalosso

Nunca me esqueço da primeira entrevista que dei. Foi logo depois do lançamento do meu livro “A teta racional”. Num certo momento, o jornalista perguntou quais eram as minhas referências literárias. Citei sete escritores. Todos homens. Ouvindo minha própria voz, percebi o absurdo. Tive vontade de me esconder atrás da poltrona. Como era possível que, aos trinta e oito anos, eu tivesse lido e admirado tão poucas escritoras?

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Durante séculos, as mulheres foram excluídas do espaço da escrita, recebendo a primeira cotovelada ainda jovens. Para escrever, uma pessoa precisa acreditar que tenha algo válido a dizer. Só aí já escanteamos boa parte das vozes femininas, diminuídas por aquele que Virgínia Woolf chamava de “o eterno pedagogo”. O pulha sempre pronto para dizer a uma mulher: você deve pensar assim ou assado. Deveríamos mesmo ter pensado assado; eles no espeto e com uma maçã na boca, quem sabe assim não teriam nos tutoriado tanto.

As mulheres que sobreviveram impávidas com seus pensamentos e canetas em punho, encararam a próxima rasteira: casar, ter filhos e usar seu talento para escrever listas de compras. Sem autonomia financeira ou um espaço só seu, privilégios dos homens, escreviam quando e onde dava. Se logravam concluir alguma obra, lá vinha outro problema: ser publicada. Para conseguir, muitas passaram-se por homens. É o caso da maior escritora francesa de todos os tempos, Amandine Dupin, nascida no século 19, que assinava com o bigodudo codinome de George Sand. Ou da genial María Lejárraga, que assinou toda a sua extensa obra com o nome do marido, Gregório Martínez Sierra, porque, em suas palavras: “as ideias são mais efetivas se respaldadas por um homem”. Ou ainda Joanne Rowling que, em pleno século 21, optou por mascarar seu gênero com as iniciais J.K Rowling e, anos depois, assinou seus romances adultos como Robert Galbraith.

Se nomes femininos não tinham vez, quanto mais certas temáticas. Eu mesma penei para publicar o livro que cito no começo desse texto, recusado por diversas editoras com o argumento: quem vai se interessar por histórias de maternidade? Ora, no mínimo metade da humanidade, ou toda ela, já que ninguém nasce a salvo de uma gestação.

E mesmo com tantos e tão variados pontapés ao longo de todos os séculos as mulheres produziram muito. Mas ser divulgada, respeitada e premiada já é outra história. Dos 117 laureados com o Nobel de Literatura, apenas 16 são mulheres. Dos 37 membros da Academia Brasileira de Letras, apenas seis. E todas brancas.

Essa falta de espaço fez com que, historicamente, lêssemos menos mulheres. E qual o problema? Perdemos muito. Primeiro, deixamos de ler livros incríveis, muitas vezes escritos com a fúria e o frescor, tão benéficos para a produção artística, de quem precisa ser ouvida. Segundo, porque deixamos de acessar temas relegados que conversam com nossas questões, como maternidade e abuso, muitas vezes descritos por quem viveu essas experiências na pele, trazendo novas perspectivas para Emmas e Lolitas – perceba como a maioria das personagens femininas que conhecemos foram escritas por eles. E, terceiro, por um motivo que Simone de Beauvoir explica bem: “a representação do mundo, como o próprio mundo, é a operação dos homens; eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta”. É como se, desde sempre, estivéssemos vendo o mundo com um só olho, ainda que múltiplo. E isso até hoje, quando precisamos tanto de outros olhares, de visões que possam trazer novas respostas para um planeta soçobrando com a crise do capitalismo e do clima.

Nesse contexto, ler mulheres também é bancar mulheres e suas formas de pensar. E como já sofremos demais para deixar de ter prazer, vale relembrar que ler mulheres é uma delícia. Não à toa, de uns anos para cá, os clubes de leitura de livros escritos por elas vêm se multiplicando, inspirados pelo pioneiro Leia Mulheres. A onda também chegou nos clubes de assinatura, como o Amora, que entrega mensalmente um romance escrito por uma mulher na casa de seus assinantes, e nas livrarias, como a Gato sem rabo, que exibe estantes só com títulos assinados por autoras, com foco em latinas e africanas. A curadoria cai bem. Como já sabemos, é pra lá de vasto esse universo a ser descoberto.

Recomendo

Giovana Madalosso - Por que ler mulheres?
Fotos: Divulgação

1. “Com Armas Sonolentas”, Carola Saavedra (R$ 44)
2. “Sobre os Ossos dos Mortos”, Olga Tokarczuk (R$ 39)
3. “Tudo sobre o amor”, Bell Hooks (R$ 40)
4. “um útero é do tamanho…”, Angélica Freitas (R$ 29)

Giovana Madalosso é escritora, feminista climática e autora de “A teta racional”, “Tudo pode ser roubado”, “Suíte Tóquio” e “Altos e baixos”.