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Guto Requena: “Mudanças climáticas vão revolucionar o design”

Arquiteto fala de desperdício e novas formas de consumir arquitetura

by redação bazaar
Guto Requena - Foto: Divulgação

Guto Requena – Foto: Divulgação

Por Lucas Rechia

Imaginem um mundo onde as pessoas andem por grandes cidades, sem medo. Onde o espaço público é vivo, seguro e dinâmico. Um mundo em que a melhor representação humana acontece nas ruas, tecnologias aproximam e aquecem ainda mais as relações. Esse é o mundo projetado pelo estúdio de Guto Requena.

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Reunir arquitetura e design com tecnologia, interatividade, emoção, sentimento e pessoas em suas infinitas possibilidades é o trabalho do arquiteto, que Bazaar entrevista nesta segunda-feira (15.04). Leia na íntegra:

Há alguns anos que você defende a tecnologia como fator de aproximação do homem da natureza, explique como você vê a relação homem e tecnologia.
Quando surgiu o telefone, as pessoas achavam que você ia se encontrar menos com as pessoas – e é o contrário, as pessoas que você tende a ligar mais, são as pessoas que você tende a encontrar mais no espaço físico, no mundo presencial. Quando surgiu a internet, a mesma lógica, as pessoas ficaram com medo, achavam que não sairiam maisde casa. Só que, quanto mais a gente se desenvolve tecnologicamente, mais a gente se desloca pela cidade, pelo planeta, nunca o homem se deslocou tanto, e isso coincide com as novas tecnologias. Ao mesmo tempo, há uma retomada de voltar para a natureza, vimos um crescimento gigante de ecotrilhas e viagens para destinos offline.

My Heart Beats Like Yours - Foto: Divulgação

My Heart Beats Like Yours – Foto: Ana Mello

Você se posiciona como um arquiteto que foge do convencional e tem um posicionamento social forte. Como a arquitetura e o design estão relacionados com esse seu posicionamento?
Acho que design pode ser uma ferramenta importante de ativismo então gosto de pensar que eu sou um ativista da empatia. Falo isso nos meus projetos, especialmente nos últimos quatro anos, tentando construir experiências com o uso de tecnologias interativas, para estimular as pessoas a se olharem a ouvir o que a outra está pensando e conversar. Tem uma obra nova do Studio, localizada próximo ao escritório na praça da República, que é uma obra de design ativista, um híbrido de mobiliário urbano com escultura interativa, que as pessoas podem sentar e escutar depoiments, histórias de vários ativistas LGBT. A República foi onde, em 1978, o primeiro grupo de ativismo LGBT se reuniu, então a ideia foi construir uma obra que celebrasse esse marco.

Praça do Ciclista - Foto: Divulgação

Praça do Ciclista – Foto: Divulgação

Vocês estão desenvolvendo um projeto que trata da qualificação dos espaços públicos, que inclui a Praça do Ciclista, na avenida Paulista. Conta para a gente um pouco mais desse projeto.
A ideia é trazer mais mobiliário urbano, mais iluminação para a rua. Qualificar mais aquela praça com um grande banco, bebedouro, melhorar as hortas urbanas que já existem há dez anos, maquinário de auxílio ao ciclista… São várias alções

Love Project - Foto: Divulgação

Love Project – Foto: Divulgação

O que não se pode perder dos projetos do Studio?
O “Love Project” foi muito importante na minha carreira e a ideia por trás dele é mostrar como utilizar os dados emocionais que o corpo produz. Quando estamos apaixonados, nosso corpo produz dados, a mão treme, o coração dispara, a voz fica tremula e você pode até suar. Esse projeto coleta esses dados de biofeedback e o coloca em uma interface que imprime em 3D o resultado. Você pode então materializar uma história de amor, tornar tangível o intangível.

Você fala em suas palestras que somos a primeira geração de ciborgues. Explique um pouco mais sobre isso?
Vivemos esse momento da cultura ciborgue e somos a primeira geração de ciborgues por dois motivos. O corpo se tornando cada vez mais máquina, como a primeira geração protética da história, com perna mecânica, marca-passo e olho biônico, por exemplo.

Studio Guto Requena - Foto: Divulgação

Studio Guto Requena – Foto: Divulgação

Você defende que o design passa por um momento semelhante ao momento que a indústria da música passou recentemente. Qual o motivo?
Acho que uma das coisas que deve acontecer com o design é a crise climática. Estamos destruindo o planeta. Eu vivo uma crise enorme sobre design de produto, acho que a gente não precisa desenhar mais nada, e o que acredito que está acontecendo com a indústria em função dessa necessidade de desmaterializar, fazer menos coisas, é a revolução trazida pelas tecnologias digitais, como a impressão 3D. Então, o que pode acontecer são designers que, ao invés de vender o produto, vendem o arquivo. Você vai para um fablab, corta e faz você mesmo.

Como os designers e arquitetos brasileiros estão lidando com esse novo momento?
Eu estou interessado em pesquisar polímeros biodegradáveis. Meu sócio está viajando há dois anos pesquisando polímeros biodegradáveis, então vamos testar isso em breve também.

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