Helena Vieira – Foto: Gui Gomes

Por Helena Vieira

Como escrever sobre gordofobia para uma revista de moda? Essa foi a primeira questão que me ocorreu quando fui convidada para escrever esta coluna. Considerei muitas abordagens possíveis, das mais tímidas às mais intensas, das mais teóricas às mais íntimas, das mais didáticas às mais complexas. Poderia ter escolhido outro tema, claro, mas os desafios me empolgam sempre mais.

Há, no interior desta pergunta e também deste texto uma tensão inelutável, afinal, não tem sido a indústria da moda, sua estética, discurso e aparatos os núcleos produtores da ditadura da magreza? Certamente.

Contudo, e é deste lugar que parto: escrever aqui, com este meu corpo que é trans e também gordo, ou seja, um daqueles corpos que parecem não caber em lugar nenhum significa deslocar, visibilizar, e possibilitar transformações. Afinal, não serão justamente os interessados em moda, os que fabricam roupas, opiniões e tendências que me lerão?

Opto por escrever em primeira pessoa e tentar, revisitando acontecimentos ao longo da minha vida e também as leituras e estudos nos campos da Teoria Queer, Gênero, sexualidade e corporalidades que tenho feito.

O corpo gordo, emagrecimento e a revelação

A primeira vez que ouvi a palavra emagrecer eu já nem mesmo me lembro. Ela parece ter estado sempre colada em mim, uma sombra ou um órgão a mais. Emagrecer é uma obrigação das pessoas gordas e a não concretização disso tem efeitos trágicos – é o que nos dizem – efeitos  como ser ainda mais gorda.

Na natação, onde estive para emagrecer e não para nadar, aprendi também o que significava ser gorda. Lembro que no vestiário eu coloquei uma touquinha, que puxava meu cabelo e tive que por uma sunga. Um dos meninos – talvez mais de um, já não lembro bem – comentou que eu tinha peitos. Peitos era algo que eu não deveria ter, já que, na época, o mundo me via como um menino.

Neste sentido o corpo gordo é sempre alvo da correção pública, da interpelação social das normas corporais e também de gênero. É comum, na experiência gorda, todo um conjunto de prescrições de regimes de emagrecimento, que vão dos milagrosos chás, coquetéis, até simpatias místicas e anfetaminas clandestinas.

Como saber quando alguém precisa emagrecer? É uma pergunta muito difícil, que tem algumas respostas possíveis. A primeira delas, e talvez a mais verdadeira é que você precisa emagrecer quando o seu corpo não cabe. Como assim? Quando as pessoas começam a estranhar suas medidas. Ou seja, quando você destoa do que é considerado bonito ou aceitável, quando seu corpo é socialmente percebido como não normativo, não magro. A única parte, em nós gordos que não destoaria seria o rosto, não? Afinal, dizem sempre que gordas têm o rosto “tão bonito”.

Destoar, neste caso, significa dizer que o corpo passa a ser marcado com o estigma da gordura. Costumo pensar que nos tornamos gordas quando se impõe sobre nós as primeiras formas de coerção, seja através da ridicularização, seja através da exclusão ativa ou da correção por meio de regimes e tantas e muito criativas práticas de emagrecimento.

A construção social do corpo gordo: correção, violência e patologia

Destaco que as formas de correção corporal que mencionei não se apresentam como tal, como instrumentos de normatização corporal. Estes dispositivos sociais e discursivos elipsam que a diferença entre magreza e obesidade é social e culturalmente construída, que não é uma categoria universal e nem mesmo natural.

Um breve e descompromissado olhar sobre as representações corporais de outras épocas nos permitem ver que a “idealidade” corporal se transforma ao longo da história, seja no corpo da Vênus de Willindorf ou nas curvas do “Nascimento da Vênus”,  de Sandro Boticceli. Nesta transformação, transformam-se também os limites corporais que separam o magro do gordo. Vale destacar que a obesidade é uma invenção da modernidade.

Como então o caráter sócio-histórico da categoria “ gorda” é apagado? Inventa-se  uma relação aritmética e proporcional entre sua altura e seu peso, tudo com números matemáticos para ficar parecendo exato, a esse cálculo deram o nome de IMC e o resultado dele é uma escala que vai de “abaixo do peso, passando pelo peso normal, o sobrepeso e a obesidade mórbida”. O filósofo e médico francês Georges Canguillem, em seu brilhante livro “O Normal e o Patológico” explicará que as categorias patológicas são justamente criadas por meio de uma operação aritmética que converte prevalência em natureza.

O adjetivo mórbida qualifica o termo obesidade, no último nível da escala do IMC, indicando tratar-se de condição patológica e doentia, que anuncia a morte e a invalidez.  É uma palavra horrível, que é cultivada no imaginário social através  do cinema, de documentários, de notícias de pessoas que não andam mais e estão desesperadas. As representações sociais do corpo gordo criam, promovem e reforçam estigmas que resultam em precarização, auto-ódio, exclusão e violência contra pessoas gordas.

O estigma que marca o corpo, a vida e a trajetória de pessoas gordas é parte do sistema de opressão que, seguindo a filósofa e ativista antigordofobia Magdalena Piñeyro configura a gordofobia. É importante compreendermos a forma como a estigmatização é um processo de violência e exclusão. O sociólogo Erving Goffman definirá de forma resumida o estigma como sendo “a condição do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena”, de acordo com o autor a produção social e histórica de uma identidade estigmatizada fará com que estes sujeitos sejam vítimas de descrédito, desreconhecimento, exclusão e tantas outras formas de violência.
 

Gordofobia – Um sistema de opressão

A compreensão da gordofobia como um sistema de opressão é fundamental aqui, uma vez que é isso que a distingue, por exemplo, da simples ofensa ou zoação, neste caso, ainda segundo a Magdalena Piñeyro em seu livro “Stop Gordofobia”, o sistema gordofóbico se estrutura na aliança de três dispositivos: o estético, o médico e o moral, aos quais ela chama de “tripartite gordofóbica”.

As noções de beleza, tanto masculina quanto feminina passam, em nosso tempo, por um apelo incessante por magreza. Neste sentido, a opressão estética em torno das pessoas gordas põe em movimento a indústria da magreza e uma economia em torno da beleza que será sempre magra.  Essa é uma percepção fundamental pois revela que a gordofobia estrutura também um conjunto de relações econômicas, de gênero e também reprodutivas. Afinal, não somos nós, mulheres, que mais sofremos com tais imposições?

Quanto ao discurso médico é também relevante que observemos a construção de uma economia política da correção, que vai desde as academias de musculação até as cirurgias, medicamentos e afins. A busca do corpo saudável promove a ilusão de que gordura é sempre doença e magreza é sempre saúde. Há um imenso ônus social atrelado à existência associada à patologia, ou como diria a Susan Sontag, a doença é um passaporte para outro país, o do descrédito, da falta de autonomia e da desumanização, fenômeno que reduz o sujeito ao seu marcador social da diferença, ao seu estigma, dessa forma uma pessoa gorda viverá sempre em função de sua gordura e fenômenos correlatos.

O aspecto moral do discurso gordofóbico diz respeito à culpabilidade. Diferentemente da calvície ou de outras características socialmente desvalorizadas, a obesidade, a gordura têm, na pessoa gorda, aquele que engorda porque quer, que é preguiçoso, descuidado, imprestável, glutão, esfomeado. Ser gordo ou gorda se apresentará, socialmente, como culpa e por isso nenhum perdão será oferecido.

Por outras corporalidades – Não ao corpo único

O corpo gordo é um dado da existência. Com este texto pretendo contribuir para a construção de outras práticas corporais que permitam o reconhecimento dos corpos gordos como legítimos e dignos de viver. Quem precisa dizer a uma pessoa gorda que ela deve emagrecer? Ninguém. Escrevo aqui na Harper’s Bazaar Brasil imaginando que vocês que me leem possam se engajar nisso, em novas práticas corporais, que promovam o autocuidado e o amor próprio, e não o auto-ódio. Que a beleza não seja um grilhão e a saúde motor do adoecimento. Nas próximas colunas abordarei ainda outros temas sobre gênero e corpo. Nos veremos ainda muitas vezes por aqui.

Helena Vieira é pesquisadora, transfeminista e escritora. Estudou Gestão de Políticas Públicas na USP. Foi colunista da Revista Fórum e contribuiu com diversos meios de comunicação como “Revista Galileu”, “Cadernos Globo”, “Revista Cult” e “Blog Agora É que São Elas”, da Folha de São Paulo. Foi consultora na novela “A Força do Querer”, da Rede Globo. Recentemente, foi coautora dos livros “História do Movimento LGBT”, organizado por Renan Quinalha e James Green; ” Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Holanda; “Tem Saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil”, organizado por Rosana Pinheiro Machado e ” Ninguém Solta a Mão de Ninguém: Um manifesto de resistência”, da editora Clarabóia. Dramaturga, fez parte do projeto premiado pela Focus Foundation na categoria Artes Cenicas”, da Brazil Diversity, em Londres, com a peça ” Ofélia, The Fat Transexual”. Desenvolveu, junto ao Laboratório de Criação do Porto Iracema das Artes, pesquisa dramatúrgica intitulada “Onde Estavam as Travestis Durante a Ditadura?”. Atualmente é assessora para a Cultura da Diversidade na Escola de Arte e Cultura Porto Iracema das Artes no Ceará.