Em depoimento a Pedro Henrique França para edição 16 – fevereiro de 2013

Carmen Mayrink Veiga usa cabeça confeccionada no Rio em baile de carnaval em Paris, 1965
Carmen Mayrink Veiga usa cabeça confeccionada no Rio em baile de carnaval em Paris, 1965

Confetes, serpentinas e alaôs nunca foram muito minha praia. O que eu mais gostava no carnaval, na verdade, era de me fantasiar. E minhas fantasias eram uma festa à parte, feitas pelo meu amigo e estilista Guilherme Guimarães. Gostava de ousar, com muita transparência e pernas de fora. Era um escândalo – e dava o que falar, porque, naquela época, as mulheres, geralmente, só usavam um adereço no cabelo e olhe lá. Entre 1972 e o início dos anos 90, morava em Paris. Mas, durante este período, passei alguns carnavais no País, sempre no Rio de Janeiro.

Carmen (à dir.) no baile Coutume, em 1982, na casa noturna parisiense Chez Régine
Carmen (à dir.) no baile Coutume, em 1982, na casa noturna parisiense Chez Régine

Nas duas vezes em que fomos ao baile de gala do Teatro Municipal, idealizado por Clóvis Bornay, ficamos no camarote, observando de cima aquela turma espremida no salão. Era um deslumbre, uma festa das mais lindas – e olha que fui em muitas. Uma vez, minha querida amiga São Schlumberger veio de Paris ao Rio para passar o carnaval. Ela era mulher de Pierre Schlumberger, magnata considerado uma das dez maiores fortunas do petróleo, moravam em um hotel particulier espetacular na Rive Gauche, em Paris. Era 1968 ou 1969.Antes de irmos ao baile, fizemos um jantar em casa. Sempre gostei de fazer jantares. Uma das que apareciam costumeiramente era a Danuza Leão, que num deles até se vestiu com cartola e casaca.

São Schlumberger e eu vestimos Guilherme Guimarães. Sou amiga dele há mais de 40 anos e ele desenhou fantasias para mim nas duas vezes em que fui ao Municipal e também quando estive no baile do Zeca Marques, no Copacabana Palace. A mais bela foi um maiô vermelho, todo de paetês, com detalhes transparentes, com um turbante de plumas que iam até o chão, que usei ao lado de São. Numa outra vez, Guilherme se inspirou nas calçadas de Copacabana e desenhou um maiô impressionante, de paetês pretos e brancos, também com uma cascata de plumas. Esse eu usei quando voltei ao Municipal, em 1983, com a princesa Ira von Furstenberg.

Na vez em que estive no baile do Copa, também me fantasiei. Naquela noite, o jantar foi na casa da Regina Marcondes Ferraz, que morava no Chopin, vizinho ao hotel. No salão, porém, quem reinava, normalmente, com as fantasias mais bonitas, eram os homens. Lembro-me de que tinha uma passarela que ia até o palco, para as pessoas desfilarem seus looks.

Ao lado da princesa Ira de Furstenberg, no carnaval do Rio, em 1988
Ao lado da princesa Ira de Furstenberg, no carnaval do Rio, em 1988

Sabe outra coisa que adorava daquela época? Lança-perfume. Não era para cheirar, nada disso. Gostava porque lembrava gardênia, que é meu perfume favorito. Era um barato aquilo. Meu trauma, por outro lado, eram os confetes. Morria de medo! Você, de repente, soltava uma risada e vinha um engraçadinho jogar confete na sua boca. Era terrível.

Nos salões do Municipal e do Copa, nunca vi brigas nem confusões. Eram outros tempos. O carnaval era muito mais divertido e leve do que se tornou  hoje. Não me lembro de ver ninguém estatelado no chão por drogas ou bebida. O máximo que você via era alguém com uns uísques a mais na cabeça. Tenho boas lembranças dos poucos episódios carnavalescos que vivi. Gostava das marchinhas. Não tinha esse oba-oba, essas batucadas, nada disso. Aliás, música brasileira, para o meu gosto, acabou. Gostava daquelas coisas maravilhosas da pré-bossa nova. Depois disso, as canções perderam a letra e o sentido, com exceção de uma outra, como as de minha Amiga Maysa Matarazzo.

Algumas vezes também subia a serra em direção a Petrópolis, para me hospedar na casa de minha amiga Fernanda Colagrossi. Lá, não tinha carnaval propriamente dito, mas era um programa ótimo. Mesmo ‘exilados’ das marchinhas, o encontro tinha direito a um pouquinho de oba-oba, com adereços em alusão à época.A gente brincava muito, montava arranjos na cabeça. Era um grupo grande, seis a oito casais, entre eles Alberto e Beatriz Monteiro de Carvalho e o embaixador de Portugal, Manoel, com Joana Fragoso.Acordávamos tarde, íamos para a piscina, fazíamos churrasco no caramanchão, jogávamos cartas. À noite, todo mundo se vestia um pouco carnavalesco. Era champanhe full time, além de uísque e caipirinhas. Era a casa mais divertida e animada de Petrópolis.

Com vestido Pierre Cardin para a lista das mais bonitas do Brasil, em 1965;
Com vestido Pierre Cardin para a lista das mais bonitas do Brasil, em 1965;

Lembro-me também de quando fui à Sapucaí, a convite do Antonio Gallotti, presidente da Light, na época. Minha regra máxima da vida é e sempre foi o conforto e, por isso, foi lindo ver os desfiles do camarote, bem instalada. Não naquelas frisas, naquele calor. Nessa ocasião, houve um jantar oferecido ao empresário Henry Ford no próprio camarote. Lembro-me do buffet – com champanhe, caviar e um batalhão de garçons. Aliás, a vinda de figuras importantes, como Ford, o estilista americano Halston e a musa do Valentino, Charlene Shorto, é algo que, infelizmente, acabou. Hoje, ou são os meninos Casiraghi ou ninguém. Era um outro mundo, que não existe mais. Para mim, carnaval, agora, só em fotos. Quem viu, viu.