Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Por Igor Zahir

Poucas coisas são tão prazerosas quanto apreciar um bom vinho, em momentos simples (ou elaborados) que se tornam inesquecíveis. No entanto, há algumas dicas para aproveitar melhor as experiências, e existe uma turma mais rigorosa que, por impor essas sugestões como um rígido protocolo, assusta as pessoas mais leigas, que consequentemente acabam considerando o ritual de beber vinho algo difícil, complexo e inacessível. Dica: fuja dos membros dessa turma, conhecidos como enochatos.

Felizmente, muitos comunicadores estão empenhados em desmitificar o universo dos vinhos e facilitar o conhecimento, tanto para os iniciantes quanto entre outros profissionais. Destaque na nova geração, Alexandre Takei é um desses – como ele se descreve, um “educador em vinhos de jeans e camiseta”. Educador em vinhos com oito anos de experiência e mais de mil alunos formados entre treinamentos de brigada, cursos livres, graduação, pós graduação, cursos de sommelier e formações internacionais em vinhos, ele promove várias lives em seu perfil do Instagram, onde compartilha também alguns temas que sempre dividem opiniões e dão o que falar. Bazaar conversou com Takei e listou alguns desses assuntos abaixo:

Beber vinho no copo americano, pode?

Foto: Divulgação

“É evidente que o copo americano (ou de plástico ou o que for) não é o ideal e que se você tiver uma taça adequada à mão é melhor. Também é óbvio que uma taça de material de mais alta qualidade, como cristal, vai ser melhor do que uma de vidro grosso.

Mas existe um ponto que muita gente ignora: a gente bebe muito pouco vinho no Brasil! E o consumo é muito mal distribuído. A falta de uma taça não pode ser considerada um impeditivo se nós queremos virar um país bebedor de vinhos até porque, em países com tradição de consumo e cultura do vinho, como a Itália, bebe-se vinho em copos sem nenhum problema.

A discussão mais importante para nós no Brasil, hoje, é sobre “beber vinho” e não “beber na taça”. Essa necessidade de associar vinho a refinamento, além de contraproducente, é elitista e cafona. E me atrapalha muito na hora de explicar para as pessoas o porquê de uma taça adequada ser importante. Porque elas já associam isso ao pedantismo dos Enochatos”. 

Duração do vinho após aberto

“É bem relativo, mas uma coisa é certa: poucos vinhos vão estragar completamente de um dia para o outro. Pregar que o vinho deve ser jogado fora se sobrar é um preciosismo que não faz nenhum sentido num país onde se ganha um salário mínimo de R$ 1.100 e os vinhos mais baratos custam entre R$ 30 e R$ 50.

Cada vinho dura um tempo diferente a depender de sua estrutura. Vinhos mais jovens duram mais tempo, assim como os tintos ricos em taninos e pigmentos, os brancos com acidez mais alta e os vinhos mais concentrados em geral. Outro ponto relativo é a sensibilidade individual: tem pessoas mais sensíveis às mudanças do vinho, aos defeitos que vão surgindo com os dias. Isso também varia com o grau de treinamento do olfato de cada um. Em geral os vinhos duram de 2 a 5 dias, com alguma mudança mas num grau aceitável para o consumo da maioria das pessoas. Na dúvida, sempre prove. O melhor juiz é o paladar de quem vai beber”.

Gelo no vinho, polêmica à vista

“Eu acho engraçado quando alguém fala pra pessoa não colocar gelo porque o vinho vai ficar diluído se você colocar gelo. E sério que chegamos nesse nível de “winesplaining”, de explicar que colocar água num líquido vai aguar ele? Enfim, me parece óbvio que as pessoas que colocam gelo no vinho acham mais importante gelar ele mais rápido. E, acreditem, às vezes elas querem justamente diluir um vinho que acharam muito forte.

Tecnicamente é errado e o vinho vai perder qualidade segundo os parâmetros profissionais de análise. Mas o objetivo de beber vinho pra maioria das pessoas não é fazer análise técnica por si e sim ter uma experiência prazerosa. Se para alguém essa experiência vai ser melhor colocando gelo, é problema (ou não) dela. Uma vez alguém me disse que nunca deixaria um convidado colocar gelo num vinho servido por ela. Deus me livre ser convidado desta pessoa”.

E quem não curte vinho seco?

“Há duas fases naturais na trilha do bebedor de vinho aqui no Brasil. No início, a maioria tem aversão aos vinhos secos, pois nosso paladar é muito doce e normalmente aprendemos a beber vinhos com os suaves feitos com uvas de mesa. Logo em seguida, quando a pessoa começa a beber vinhos feitos com uvas viníferas, ela começa a gostar dos vinhos secos e passa a torcer o nariz para os vinhos doces.

Acho que os dois extremos devem ser trabalhados. Quem tem o paladar doce se beneficiaria muito de aprender a gostar dos secos (e sim, isso é um gosto adquirido), pois aí está a maior oferta de coisas interessantes a se provar. A estas pessoas, recomendo começar pelos meio secos, para uma transição suave. Por outro lado, não faz sentido algum deixar de lado os vinhos doces, pois existem exemplares maravilhosos, que são uma excelente companhia para sobremesas, como alguns vinhos fortificados, de colheita tardia ou espumantes da uva moscatel.

Quanto aos vinhos feitos com uvas de mesa, aqueles “de garrafão” com os quais aprendemos a beber vinho, normalmente suaves, são produtos que, goste você ou não, devem ser respeitados. São a porta de entrada do consumidor brasileiro para o mundo do vinho e uma parte fundamental da nossa história, cultura do vinho e também da indústria, economicamente. Eles podem não te agradar, mas sustentam muitas famílias de agricultores e trazem prazer à mesa de muita gente”.

@igorzahir_somm é sommelier e colunista da Bazaar