Igor Zahir - Uma ode aos vinhos do Chile
Foto: Divulgação

Por Igor Zahir

No clássico do cinema “Casablanca” (1942), um dos diálogos mais inesquecíveis e românticos de todos os tempos é protagonizado pelo casal Ilsa (Ingrid Bergman) e Rick (Humphrey Bogart), quando eles soltam a frase: “Nós sempre teremos Paris”.

Se formos pensar no mundo dos vinhos, mais especificamente na América Latina, é inevitável traçar o trocadilho dessa frase pensando no Chile, historicamente na vanguarda em se tratando da vitivinicultura, como bem lembrou o comunicador Didú Russo em seu blog: “Foi o primeiro a fazer desafios às cegas (Desafio de Berlin), elevando consideravelmente os preços dos ícones chilenos que se equiparavam aos Grand Cru de Bordeaux, e hoje um Viñedo Chadwick custa R$ 5 mil! Pioneiro com um Guia de Vinhos de prestígio, o Descorchados, que hoje engloba além de Chile, Argentina, Brasil e Uruguai. Foi pioneiro em criar o MOVI Movimento dos Vinhateiros Independentes (2009) que conseguiu uma cadeira na Câmara Federal do Vinho para defender seus interesses, lição que o Brasil deveria ter aprendido”, escreve Didú, enumerando algumas das proezas dos nossos vizinhos.

“Foi também pioneiro em criar o VIGNO vingadores de Carignan (2011), que se tornou uma autêntica D.O. e que se expande agora para outras regiões com outras castas. É o país da América do Sul com maior número de produtores biodinâmicos, como Antiyal, Emiliana, Rukumila, Odfjel, Caliboro, Casa Lapostolle, Matetic, Tipaume, Seña, Neyen Ritual. Pioneiro em enoturismo. Teve em 1996 o primeiro circuito turístico do vinho criado por 12 vinícolas de Colchagua. Hoje perto de Santiago se visita Concha y Toro, Santa Rita, Santa Carolina, Cousiño Macul, tudo com excelente estrutura”.

Igor Zahir - Uma ode aos vinhos do Chile
Foto: Divulgação

E foi com essa expertise e a segurança de quem sabe o que está fazendo, que aconteceu a 3ª edição do Wines of Chile On the Road, dessa vez no formato 100% digital, nos últimos dias 3 e 4 de agosto. Muito mais do que uma apresentação virtual, o que aconteceu foi uma verdadeira maratona de vinhos: a organização do evento enviou para diversos especialistas uma caixa com vinhos de 24 marcas diferentes, para serem degustados ao vivo, enquanto os enólogos e produtores das vinícolas davam aulas completas sobre a bebida em questão. Durante a tarde, com ares de feira virtual voltada para compradores, os temas variaram entre “Vinhos para Consumidores Exploradores”, “Vinhos de Verão”, “Vinhos Premiados” e “Tintos Clássicos do Chile”, enquanto à noite, de maneira mais aprofundada, as masterclasses para formadores de opinião destrinchavam assuntos como “Passado e Futuro do vinho chileno”, “Vinhos de Costa”, “Novas Fronteiras do Vinho” e os “Clássicos de Qualidade do país”.

O que esperar

Igor Zahir - Uma ode aos vinhos do Chile
Foto: Divulgação

Um dos pontos-fortes do evento foram as “previsões” de mercado, com os profissionais enumerando o que vem por aí, como a questão dos sulfitos abordada pela jornalista Suzana Barelli, uma das principais especialistas em vinhos do país, em suas redes sociais:

“A questão principal é adicioná-lo ou não para evitar a oxidação do vinho. O papa da biodinâmica Josko Gravner, por exemplo, já disse, em passagem pelo Brasil, ser impossível elaborar um vinho que possa viajar (ou seja, sair da vinícola e chegar até a casa do consumidor) sem sulfitos. Mas há produtores, aliás, cada vez mais produtores, que defendem o vinho sem sulfito. Gosto muito de provar vinhos sem sulfitos. Em geral, eles têm as notas aromáticas mais evidentes. Não quer dizer que eu goste de todos os vinhos sem sulfito – às vezes, eu acho que não usá-lo, em algumas vinícolas, é mais uma questão de marketing do que de filosofia. Durante a primeira degustação do Wines of Chile On the Road, provei Salvaje, o tinto sem sulfito da vinícola Emiliana, elaborado com syrah e roussanne do vale de Casablanca. Gostei do vinho e, principalmente, da fala do enólogo, que em breve deve lançar novos rótulos também sem sulfito. Vale lembrar que durante a fermentação, sulfitos são produzidos naturalmente, em quantidades pequenas. Ou seja, todo vinho tem sulfito. O problema é o sulfito adicionado, que acaba por encobrir algumas notas aromáticas do vinho. E, principalmente, quando este sulfito é adicionado em abundância como uma forma preventiva do produtor de adicioná-lo para evitar qualquer contaminação e oxidação da bebida. Há outras maneiras, menos agressivas à bebida, de evitar este problema”.

Além disso, no site do Wines of Chile On the Road foi disponibilizado um e-book oficial com vários detalhes e gráficos sobre o mercado, desses manuais didáticos que valem a pena ter em casa, com artigos da própria Suzana e de Arthur Azevedo, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS).

Dupla de peso!

Igor Zahir - Uma ode aos vinhos do Chile
Foto: Divulgação

Outro destaque ficou a cargo da mediação do Wines of Chile On the Road. Os apresentadores, Jéssica Marinzeck e Diego Arrebola, são dois dos melhores sommeliers do Brasil, e além da credibilidade em se tratando de vinhos, se mostraram seguros e afiados como comunicadores. Obviamente, para eles são ossos do ofício: Jéssica, gerente de Experiências e Brand Ambassador da Evino – maior e-commerce de vinhos da América Latina -, foi indicada pelas instituições inglesas WSET e IWSC como um dos 50 nomes para o futuro do mundo do vinho e, em 2021, como top 6 do Prêmio Emerging Wine Talent. Durante a pandemia, suas lives eram praticamente conteúdo obrigatório para quem quer entender do assunto, e ela estende a experiência com seu jeito divertido também nos vídeos que grava para o canal da Evino.

Já Diego é tricampeão Brasileiro de Sommellerie, certificado pela ASI, além de AIS (Itálica) e CMS (EUA). No seu Instagram, vale a pena ficar de olho nos vídeos “Diego News”, com todo o noticiário envolvendo o mundo dos vinhos, e “Que Vinho é Esse?”, com aulas sobre os rótulos que ele disponibiliza para os seguidores adivinharem.

No fim das contas, o Wines of Chile On the Road deixou aquele gostinho de quero mais para o próximo ano. Ou, como dizia no início deste texto, fica aquela sensação de que, se tratando de vinhos e da América Latina, nós sempre teremos o Chile.

@igorzahir_somm é sommelier e colaborador da Bazaar.