Ingrid Barcelos – Foto: Divulgação

A participação feminina na ciência é (por incrível que pareça) um fato recente na história. Foi apenas na segunda metade do século 20 que as mulheres passaram a ter acesso à carreira científica e a cargos antes ocupados apenas por homens. Galgando representatividade, pouco a pouco, elas são referência para meninas que sonham com as bancadas dos laboratórios e estão mudando a cara da ciência no País. São talentos como Ingrid Barcelos, mineira que desafiou não apenas o sexismo de sua classe, como também a realidade humilde de sua família e a falta de representatividade negra na área – e hoje é uma das principais cientistas do ramo da física no Brasil.

Com sotaque mineiro firme e arrastado, uma fala tímida, porém certeira e concisa, e um brilho nos olhos contagiante ao narrar suas aventuras dentro do laboratório, Ingrid sempre se mostrou diferente dos colegas do ensino fundamental da escola pública que frequentou, na periferia de Belo Horizonte. “Amo estudar. Preferia interagir com livros a pessoas. Tive professoras incríveis que me mostraram o mundo dentro da sala de aula, principalmente as das matérias de Humanas”, conta, do centro de pesquisas em que trabalha em Campinas, no interior de São Paulo.

Primeira de sua família a conquistar o título de doutora, por mais de dez anos foi professora universitária, dando aulas de física e cálculo em cursos de engenharia, antes de ter a oportunidade de se jogar – de vez – no universo acadêmico e científico brasileiro. Aos 35 anos, Ingrid trabalha com nanociência no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Busca entender como é a dinâmica das partículas que não são vistas a olho nu em diferentes materiais, e como elas reagem a partir das interações a que são submetidas. “Com a ajuda de aparelhos, olho para materiais e vejo o porquê eles são legais e quais características bacanas eles têm.”

Essas características “bacanas” a que Ingrid se refere são de altíssimo valor. Elas dão origem a materiais sintetizados resultantes de soluções mais baratas e naturais, abundantes no País, e que não agridem o meio ambiente. O foco central de sua pesquisa, hoje voltada para a indústria cosmética, é a pedra-sabão. “Paro e penso, ao lado do meu grupo de pesquisa, onde posso aplicar materiais naturais e desenvolver o que chamamos de ‘tecnologia de baixo custo’, mais efetiva e acessível”, explica. “A nanotecnologia pode ser aplicada em qualquer coisa. Por exemplo, em um xampu, na forma como interage com um fio de cabelo.”

Essa busca incessante por respostas já lhe rendeu prêmios, como o mais recente, em 2021, em que foi uma das sete escolhidas do programa “Para Mulheres na Ciência”, da L’Oréal Brasil, em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências. É uma conquista e tanto e, para ela, tem um peso ainda maior: Ingrid é uma mulher preta e sem referências próximas em quem se espelhar. “Quando comecei, não tinha ninguém para dizer ‘eu posso e consigo.'” Ela completa: “Já fui dar palestras e meninas pretas pediram para tirar foto comigo. É essencial ter em quem se espelhar, e isso me conforta”, diz.

“Não sei dizer quantas vezes pensei em desistir por ter sido desestimulada por várias coisas: pelo ambiente, pelas pessoas e por mim mesma. É preciso acreditar em você. A educação mudou a minha vida e hoje entendo que devo contribuir de alguma forma.” Ingrid segue convicta de que, para deixar de ser exceção e se tornar regra, é preciso trabalhar com inclusão e pertencimento. “A partir do momento que tem mais de dez cientistas mulheres de diferentes raças dentro de um laboratório, nada mais é um evento. A piada de cunho racista e machista vai deixar de ser feita.”

O maior dos prêmios, para ela, é, sem dúvida, a mensagem implícita de que, sim, todas podem.