As estantes do apartamento vão do teto ao chão. Repare como os quadros foram presos na madeira - Foto: Christian Maldonado
As estantes do apartamento vão do teto ao chão. Repare como os quadros foram presos na madeira – Foto: Christian Maldonado

Por Ana Avelar

Animais empalhados, coleção de corais, livros sobre falsificadores famosos, objetos arqueológicos, arte sua e de outros artistas – muitos deles jovens brasileiros e amigos – envoltos por uma paleta de cinzas que recobre paredes e móveis. O apartamento de Gustavo von Ha, em São Paulo é um gabinete de curiosidades que diz muito sobre a sua própria produção artística – curiosa, incômoda, provocadora, cutting edge.

Von Ha é um obcecado por objetos e imagens, por tudo aquilo que compõe nossa frenética vida contemporânea. Ele vive em um universo construído por uma colagem de coisas que coleta durante viagens intercontinentais, por causa das exposições realizadas do México ao Japão, às vezes, em um mesmo mês.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Uma estante de metal de dois andares abriga duas prateleiras de livros e uma com o bar em um canto da sala - Foto: Christian Maldonado
Uma estante de metal de dois andares abriga duas prateleiras de livros e uma com o bar em um canto da sala – Foto: Christian Maldonado

Essas coletas habitam seu apartamento para, em pouco ou muito tempo, incorporarem projetos artísticos, de filmes a instalações. Penetrar no espaço íntimo de Von Ha é como estar em sua obra, ser mais um personagem compondo esse universo paralelo onde a arte é a protagonista. O artista me recebe com uma taça bico-de-jaca roxa – vintage e não retrô – cheia de água com gás e gelo, porque o calor é intenso em São Paulo.

Conheci o artista quando organizei uma coletânea de textos críticos sobre o acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP. Fiquei impressionada com TokyoShow, um trailer que anunciava um filme inexistente. Resolvi escrever sobre o trabalho e, durante a entrevista com Von Ha, que me permitiu conhecer melhor seu processo artístico, profundo e rigoroso, pedi para acompanhar sua produção. Ele aceitou.

Gustavo Von Ha em frente a uma das suas estantes repletas de livros - Foto: Christian Maldonado
Gustavo Von Ha em frente a uma das suas estantes repletas de livros – Foto: Christian Maldonado

Enquanto ele vai buscar mais um maço de cigarros – fuma a mesma marca desde os 13 anos -, aproveito para dar uma olhada no projeto que está desenvolvendo, esculturas e objetos seriados, com estranhas escalas e impregnados de azul intenso e magenta. Von Ha desenvolveu essas cores com um químico para obter tonalidades específicas, impossíveis de serem encontradas em tintas comercializadas. São trabalhos inéditos, que devem integrar sua próxima individual e que tomam uma outra direção em relação às obras que mostrou na exposição no mesmo MAC/USP, em 2017.

Depois da finalização de cada projeto, ele costuma se retirar em seu ateliê, no interior de São Paulo, onde sua única companhia é o Basquiat, bernese que ganhou de uma crítica de arte norte-americana, uma amiga de infância. Da biblioteca abarrotada de livros (cerca de 5.000 títulos), me mostra o que está pesquisando para a próxima exposição.

Livros e outros objetos ocupam espaço em uma cristaleira - Foto: Christian Maldonado
Livros e outros objetos ocupam espaço em uma cristaleira – Foto: Christian Maldonado

Depois, vamos para a cozinha, onde ele gosta de ficar com os amigos numa mesa de apenas dois lugares. (Quando há muita gente nas festas, os convidados se amontoam entre a pia e a geladeira, enquanto ele faz todo o jantar sozinho, sem nunca aceitar a ajuda de ninguém).

Saímos da cozinha para olharmos de novo os objetos que estão surgindo, muitos deles frutos das coletas que o artista faz pelo mundo. Von Ha circula nas cidades, como circulam as imagens no nosso imaginário contemporâneo que o alimentam, e vislumbra espaços quase cenográficos que comentam a cultura brasileira da atualidade.

A regra de Gustavo Von Ha é misturar objetos que coleciona com seus mais de 5 mil livros - Foto: Christian Maldonado
A regra de Gustavo Von Ha é misturar objetos que coleciona com seus mais de 5 mil livros – Foto: Christian Maldonado

O resultado são instalações que parecem criar ambientes, um reflexo de nós mesmos e de nossos hábitos. A casa de Von Ha é um duplo dessas instalações, nos fazendo pensar sobre a coerência das ficções que ele produz e sobre como a cultura brasileira é também um delírio social.

Os livros foram empilhados na mesinha de centro, entre duas poltronas vintage - Foto: Christian Maldonado
Os livros foram empilhados na mesinha de centro, entre duas poltronas vintage – Foto: Christian Maldonado

Leia mais:
Casa montada por Karl Lagerfeld tem teto de ouro e custa R$ 44,1 mi
Três fugas urbanas para famílias cariocas