Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

Diretamente da pacata Aiuruoca, que fica na borda sul do estado de Minas Gerais, vem a mulher de 35 anos que tirou o véu interiorano aos 15 anos e seguiu o sonho de ser uma atriz de sucesso na calorosa Rio de Janeiro. Isis Nable Valverde conquistou o Brasil e os brasileiros com talento versátil, brilho e beleza cativantes.

Isis Valverde, como é conhecida, recebeu criação feminista, que ajudou a construir a mulher que é hoje, a exemplo da força da avó materna que catapultou da fama de ser divorciada à prefeita ovacionada por toda uma cidade. Isis já modelou e ganhou o horário nobre. Deu vida a muitas forças femininas: da mocinha à vilã, da rica à pobre, da cantora à enfermeira.

A próxima é poderosa e à frente do seu tempo: interpretará a socialite Ângela Diniz, com quem já divide raízes mineiras. A atriz saiu de um estilo comum ao mais alto panteão fashionista por aqui. Foi de novelas a séries, de filmes a shows. É mãe do pequeno Rael, de três anos. Enfrentou depressão pós-parto e hoje, plena, se entende em qualquer papel, na tela e fora dela. Leia a seguir a entrevista:

Isis Valverde usa jaqueta Puma e botas Gloria Coelho – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

No mês da mulher, qual a melhor definição da mulher dos anos 2022 para você?

Transgressora. É uma palavra que define muito bem, que resume tudo.

E você se sente transgressora no quê? Como você se vê dentro dessa definição?

Como muita coisa: uma menina do interior que saiu e enfrentou seus sonhos. Não deixei e não consegui que me colocassem em uma caixa. Transgredi minha própria família, que não acreditou que poderia me tornar atriz. Acreditei, segui em frente e banquei. Levei porrada, também. Ser transgressora diante de todas as regras, imposições e rótulos. E isso tudo dói! Não é fácil, não é simples. É solitário.

Isis Valverde usa look total Hope – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

Você perdeu seu pai e seu sogro recentemente e disse em uma entrevista que teve uma criação que considera feminista. Como foi sua vida em família?

Foi maravilhosa. Minha família era muito unida, principalmente por conta da minha avó, que foi minha primeira referência feminista. Era costureira, tinha quatro filhos. Decidiu se separar, o que era “proibido” na época. Não podia, né? Estamos falando de muito tempo atrás. Foi a primeira mulher separada na minha cidade. Mas, depois, deu a volta por cima e virou prefeita, por vários mandatos seguidos. Se tornou uma pessoa amada, em níveis gigantescos: quando faleceu, o enterro dela parecia uma romaria. Não era uma pessoa comum, nunca foi. Vendo aquela imagem forte, construí algo dentro de mim sobre força feminina. Ela me educou dentro dos moldes da época. Mandava eu fechar a perna quando me sentava, mas ela não fechava! Usava terno azul. Aquilo ficou na minha cabeça. Até me emociono, falando.

E sua experiência materna, como tem sido?

Acho delicado falar disso porque muitas pessoas tratam a maternidade como algo estável e estático. Fui descobrindo ao longo da minha gravidez e ao longo do meu maternar, depois que meu filho nasceu, que existe uma singularidade em cada maternidade. Cada mãe tem seu modo. Já começo dizendo: não se espelhe em mim e nem acho que o que você sente é errado, mediante ao o que sinto. O que vou dizer aqui é uma experiência única, de uma mulher mãe, trabalhadora, que erra também, e que tenta dar o seu melhor. Acho que meu filho é uma caixa de surpresas. No início, fiquei muito assustada com a maternidade, com aquela criança que dependia de mim, que não olhava na minha cara e só mamava, chorava e gritava. Não sabia o que fazer. Eu não percebia o afeto dele porque criança muito pequena não tem muita reação. Até o dia que ele riu para mim. No dia que entrei em casa… (Isis pausa a fala e seus olhos enchem de lágrimas). No dia que entrei em casa, olhei para ele na escada e falei: “Oi, filho” e ele sorriu de volta. Tinha uns 4, 5 meses. Ele olhou para mim e entendi que ele me reconheceu como a mãe dele. Ali, foi a hora que entendi o que é ser mãe. É muito louco: a cada dia, ele me ensina alguma coisa, me dá uma aula. Não vejo, hoje, a minha vida sem meu filho.

Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

Em uma entrevista recente, você disse que enfrentou uma depressão pós-parto depois do nascimento do Rael. Como lidou com isso e como se salvou?

A minha sorte foi que estudei psicologia e filosofia particular durante uns nove anos. Estudei muito sobre depressão, borderline e mente humana. Tenho que estudar porque sou atriz. Trabalho com isso e sempre construo personagens por meio da psique delas. Notei que eu chorava por tudo. Me sentia triste e estranha o tempo todo. Tinha algo errado. Não me reconhecia. Liguei para minha médica e expliquei tudo que estava acontecendo. Era tristeza pura e não sou isso: sou uma pessoa feliz, positiva, para cima, falante. Logo, ela diagnosticou e me indicou remédios fitoterápicos, feitos com raiz de casca de árvore, para aumentar a minha serotonina. Tomei por dois meses e já fiquei ótima. Fui para terapia para me entender e entender meu momento de vida. Nunca rejeitei ou tive raiva do meu filho. Estava na angústia pós-parto e melhorei. Por isso, sempre gosto de falar sobre o tema porque não estamos aqui para julgar, mas, sim, para ajudar. Compartilhar experiências e falar sobre nós.

Body Fendi, protetor de seio em formato de estrela e calcinha Hope, colar Cartier, meias Trifil e sapatos Christian Dior – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

Ainda é um tabu enorme esse tema, né? A mãe não pode passar por depressão, ou ter raiva do filho, ou ter uma profissão que não possa ficar 24 horas com o filho. Aliás, ninguém pode. Para você, foi difícil essa questão de ficar com ele?

Eu trouxe o Rael para o set. Andava com ele para cima e para baixo. Amamentei ele até seis meses, sem nada extra. Tive esse presente. Voltei a trabalhar real, com aquela loucura de gravações de segunda a sábado, quando ele tinha dez meses. Estava louca para voltar a trabalhar, mas entendi todo o processo. A minha primeira viagem pós-parto, durou uma semana e chorei direto, sem parar. Quando voltei, ele demorou uma semana para voltar a mamar no peito. Ficou ofendido (risos). É escorpiano com ascendente em Áries. Já viu, né?

Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

Falando de trabalho agora, como foi que você deu os primeiros passos na vida de artista?

Fui para Belo Horizonte modelar, tentar a vida de modelo. Com 16 anos, a minha mãe descobriu que eu estava ganhando um dinheiro. Me ligou e disse que eu mesma ia pagar minhas contas. Não fiquei quieta, né? Falei que era menor de idade e que ela estava me fazendo trabalhar. Fiz toda uma cena! (risos). Ela nem quis saber e desligou o telefone na minha cara. Modelei até os 19 anos. Me mudei para o Rio de Janeiro, trabalhei muito lá também. Saí na contracapa da Capricho, anúncio para o jornal O Globo. Meu pai queria que eu fizesse faculdade de medicina e falei que não, que já havia decidido que faria graduação em cinema em paralelo com artes cênicas no Tablado. Ele me deu um ano para começar a me sustentar sozinha. Foi aí que comecei, tinha 17 anos e não parei mais.

Tricô Gloria Coelho, saia Mach & Mach na CJ Mares, colar e anel Cartier e sapatos Gucci – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

Você sempre teve personagens que exploraram a feminilidade em diversos vieses como a ingenuidade misturada à sensualidade, em Ritinha de “A Força do Querer”, a Suellen dissimulada em “Avenida Brasil”, Betina, que sofreu um abuso, em “Amor de Mãe”. O que elas te ensinaram e o que você evoluiu como Isis com elas?

Sempre evoluo alguma coisa, sem dúvida. Necessariamente, não sei te falar o que cada uma me deu exatamente, mas, por exemplo, Betina me ensinou a lidar com solidão, que é uma dificuldade que tinha até pouco tempo atrás. Depois que meu pai partiu (ele morreu no início das gravações da novela “Amor de Mãe”), me identifiquei com ela: era muito sozinha. Cuidava da mãe, não tinha pai, apanhava do marido. Era uma guerreira. Sou filha única e sempre caminhei um pouco só. Sempre tive amigos e tenho sorte de ter sempre pessoas que topam estar do meu lado, mas não são aquelas que dão tudo de mão beijada. Como filha única, sempre fui muito protegida e, na hora que meu pai morreu, foi um baque muito grande. Calhou de Betina ser uma personagem muito forte e ela me deu força. Ela veio junto comigo nessa. Coincidiu tudo. Tiveram cenas que minha vida real potencializou – e muito! – a emoção ali. Já Sereia, de “O Canto da Sereia”, me ensinou que posso cantar e me tirou o medo de me expor. Subi em um trio elétrico para mil pessoas ao vivo e o povo gritava por bis. Foi uma vivência de cantora de verdade. A Ana do Véu, de “Sinhá Moça”, foi a primeira personagem que fiz. Saí de casa com 16 anos e transgredi aquela caixa interiorana, aquele lugar e a mim mesma, porque quebrei crenças próprias. Ana, então, usava um véu obrigada pela mãe e ela mesma o arrancou. Vivemos coisas que as personagens nos ajudam.

Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

Seu último papel na televisão foi a enfermeira Betina, de “Amor de Mãe”. A trama já enfrentou reflexo da pandemia com a paralisação das gravações. Como foi todo esse processo com essa personagem?

Foi bem pesado. Mil protocolos, aquela coisa toda. O pânico de alguém testar positivo. A volta sem abraços foi muito difícil. Somos atores, é tudo muito físico. Gravamos com distâncias entre nós e cheguei a pensar que as cenas ficariam prejudicadas com essa falta de proximidade. A Globo sempre foi muito rígida, muito correta, muito certinha e, por isso, conseguimos chegar no fim dessas gravações. Todo o cuidado foi necessário, mas cortou tudo, né? Tiveram que modificar a história. Doeu em todo mundo.

Sutiã Hope, calça Puma, colar, anéis e pulseiras Tiffany & Co – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

Doeu demais, em todos! Aproveitando que você falou da sereia, “O Canto da Sereia” voltou ao canal Viva agora. Como é olhar para um trabalho que já passou? Como fica sua autocrítica?

A mesma sensação que a gente sente quando faz aniversário: passou, não tem como voltar atrás (risos). É lindo de ver, claro. Mas, não gosto muito de ficar vendo com detalhes porque sou muito crítica. Sou muito perfeccionista. O que acho legal de reviver é que participei muito dessa série. Os diretores, que são grandes gênios da teledramaturgia, deram abertura para eu propor coisas. Sempre me deixavam muito livre para criar. Foi muito mágico ver um trabalho que, tão jovem, participei tão ativamente.

Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

Você já está escalada para voltar para TV? Pode nos contar sobre?

Temos alguns projetos caminhando ainda. O que posso contar é que vou viver a Pantera Diniz, a Ângela Diniz, e estou muito empolgada. É muito bem feito o podcast “Praia dos Ossos”, né? Ela é de Minas Gerais, assim como eu. Já tem uma história legal disso: Nelson Motta mandou uma mensagem muito engraçada, falando sobre ela. Me mandou assim: “Li sobre o seu papel. Eu conhecia ela. Que mulher ela era. Se você quiser, um dia, sentar e conversar, estou aqui”. É óbvio que vou bater na porta dele. Vou atrás, tenho que ouvir as pessoas. E ele continuou: “Ela era um acontecimento”. Era muito fora da curva, para a época dela: livre, desamarrada. Era uma pantera!

Look total Christian Dior e colar Cartier – Foto: Bob Wolfenson, com direção criativa de Thiago Batista, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Daniel Hernandez, tratamento de imagem do Studio Bruno rezende e agradecimento especial para a Ketel One Botanical

Depois de conquistar o Brasil e os brasileiros, você pensa em tentar seguir uma carreira internacional como atriz?

Tentar é uma palavra muito solta. Já tenho uma carreira estruturada e quero seguir nela. Obviamente, se pintar um convite e uma oportunidade de trabalhar fora, bem estruturada, estou super aberta. Quero muito atuar em outra língua. Isso é muito bacana. A própria Globo já vem fazendo isso com séries em inglês. Sempre tive esse desejo de expandir e que bom que, com essa globalização cinematográfica, principalmente com os streamings, nossas produções e possibilidades aumentaram. Estávamos no auge dessa expansão e do entendimento desta nova modalidade quando veio a pandemia. Tudo parou, congelou. Dois anos nisso tudo já. Me peguei pensando hoje nisso: acordei às 5 da manhã e fiquei olhando para o teto e me dando conta de quanto tempo da nossa vida que tivemos que paralisar para poder deixar passar uma história. Foi muito bom para algumas coisas, as pessoas tiveram que repensar. Umas mudaram de profissão, de casa, sei lá!

Isis Valverde usa look total Burberry – Foto: Ace Amir, com edição executiva de Filipa Bleck, styling de Rafael Linares, cabelo de Darine Sengseevong e maquiagem de Nicole Chew

E você teve algum pensamento neste sentido? De querer mudar algo?

Pensei que eu queria trabalhar, rodar novela, filme, série. Tudo! Estava doida, precisava atuar. Foi nessa hora que caí no Tiktok. Me divirto, é palhaçada. Mas tudo parado, de fato. Vários projetos incríveis e tudo estacionado. Que loucura tudo isso que vivemos, né? Agora, com a vacina, é hora de botar o pé no acelerador e correr atrás do nosso. Ir em busca do que a gente acredita para fazer a roda girar!