Bruna Quirino – Foto: Reprodução/Instagram/@brunaquirino20

Por Janaína Silva*

A ética platônica busca fundamento no belo e no bom como formas ideais de refletir a vida, e, segundo Platão, o belo é a forma pela qual o bem se manifesta.

O trabalho de Bruna Quirino era ajudar pessoas a explorarem a própria beleza. Bruna liderava seu negócio de vendas de apliques orgânicos para cabelo que agregava milhares de seguidores(as) que buscavam referências para expressão da própria beleza e toda essa força foi ceifada na madrugada de segunda-feira (06.09).

Bruna Quirino – Foto: Reprodução/Instagram/@brunaquirino20

É com grande tristeza que vemos a história de Bruna Quirino ser interrompida e mais uma mulher preta encontrar as estatísticas consternantes do feminicídio no Brasil.

Segundo os dados do Ipea, em média, 66% dos assassinatos de mulheres no Brasil são de mulheres negras. Isso quer dizer que para cada mulher não negra assassinada, quase duas mulheres negras têm suas vidas terminadas pela violência.

Bruna Quirino – Foto: Reprodução/Instagram/@brunaquirino20

Entre 2009 e 2019 o número de mulheres assassinadas diminuiu em todo o Brasil, segundo o atlas da violência do Ipea. Entretanto, é consternante concluir que esses índices otimistas não se aplicam às mulheres negras: a mortalidade de mulheres negras era de 48% superior à de não negras em 2009. 10 anos depois, esse índice subiu para 66%.

Esses dados nos fazem relembrar Sueli Carneiro, que indaga as origens dessa disparidade: a histórica subalternidade, desigualdades sociais, falta de recursos e reforços de estereótipos relacionados à mulher negra a colocam em situação de extrema vulnerabilidade.

Bruna Quirino – Foto: Reprodução/Instagram/@brunaquirino20

Bruna Quirino ousou subverter essa teoria, criando o seu empreendimento, sentindo a graça de sorrir e expandindo seus serviços para sua comunidade. Quando vemos uma mulher como Bruna cruzar o Rio da Vida, perdemos uma força pulsante de uma mulher preta que não poupou esforços para produzir o melhor de sua vida.

Diante de tantas tragédias contra mulheres pretas, é inevitável se questionar: por que a força e a autonomia de uma mulher preta de sorrir ainda perturba a sanha cega de um homem? Seria esse homem parte do grupo de seres que emaranham sua identidade em uma estrutura ilusória, porém violenta, de domínio?

Bruna Quirino – Foto: Reprodução/Instagram/@brunaquirino20

A estrutura de domínio do homem sobre a mulher é sutil e constantemente reforçada pelos sons mais baixos de uma sociedade doente machista, que ainda fornece insumos para uma crença falsa de controle sobre os corpos de mulheres pretas.

A morte de uma mulher preta não só nos entristece por ser parte de uma doença social. Quando perdemos uma mulher como Bruna, perdemos uma potência do bem e do belo.

Nossos mais profundos sentimentos à filha e aos parentes e amigos de Bruna Quirino.

*Janaína Silva é advogada internacional e gerente de projetos. Fluente em quatro idiomas e especializada em propriedade intelectual da arte, ela tambem tem larga experiência em direito empresarial, tendo trabalhado em grandes operações de fusões e aquisições internacionais. Janaína fez mestrado na França, pela Universidade Sorbonne/Avignon e nutre diversos interesses, sobretudo, em temas de direitos humanos.