Foto à distância: Karla Brights

É a força da lua e o chamado para sua ascendência que guiam a trajetória de Juliana Luna. Tanto de vida quanto de carreira. Tão plural quanto as fases do satélite que simboliza feminilidade, fertilidade e renovação, a carioca Luna – sim, este seu nome é de batismo e como gosta de ser chamada – também é formada em dança.

Atualmente em Nova York, onde mora há 11 anos entre idas e vindas -, ela ministra o Aluna Method, curso em que promove, por meio de conceitos científicos e filosóficos iorubá, a busca pela ancestralidade, conexão e bem-estar.

Além dele, está lançando, ao lado de Erika Rose Santoro, um workshop online de quatro semanas, o Moonifestation. “É um programa que funciona como um acelerador espiritual, no qual ensinamos conceitos e práticas que auxiliam no processo de autodesenvolvimento. Tudo com base na sabedoria ancestral do continente africano”, explica ela, residente por um ano no More Art Institute, onde desenvolve sua pesquisa de arte pública com impacto social.

Jornada

A jornada para descobrir qual era seu papel no mundo começou aos 17 anos, quando decidiu raspar o cabelo comprido e alisado. “Foi um despertar muito bonito para a minha ancestralidade, senti uma outra dimensão de liberdade, passei a ter autoestima”, conta ela, hoje com 34.

Tão logo os cabelos começaram a crescer ao estilo de Angela Davis – Luna não sabia quem era a filósofa e ativista naquela época -, mais forte se sentia. Por causa do visual, não conseguiu emprego em lojas como as amigas e logo tomou consciência de que não queria se enquadrar no sistema.

Mostrou seu potencial em trabalhos diversos, como fiscal de trailer de cinema e tradutora em eventos – é fluente em inglês, espanhol e italiano -, e foi hostess do bar do Copacabana Palace, onde ganhou respeito dos colegas por ser a primeira mulher negra a ter contato direto com os hóspedes. “Os negros que trabalhavam no hotel, até então, estavam empregados nos bastidores, como eletricistas e camareiras”, conta.

Violência doméstica

Em 2009, foi morar em Nova York com o então namorado e depois marido, um homem negro norte-americano, para continuar os estudos na dança. Após dois anos, o corpo começou a dar sinais físicos dos abusos psicológicos que sofria no relacionamento.

Luna sentiu os efeitos do emocional abalado: baixa imunidade, dores nas costas e infecções eram constantes na rotina dela. “Eu parecia um zumbi e a gerente do restaurante em que eu trabalhava queria me demitir porque eu estava atrapalhando o fluxo. Contei o que estava acontecendo em casa, ela entendeu e me colocou em um horário mais tranquilo. Então, fui ao médico, comecei a me cuidar fazendo ioga, criei um plano de ação seguro e saí de casa”, relembra.

Por causa de sua história pessoal, a forma que encontrou para se curar foi estar a serviço de mulheres que também sofreram violência doméstica, dando aulas de dança em uma ONG de apoio a mulheres imigrantes. “Foi assim que comecei a investigar o feminino, porque, infelizmente, a mulher ainda é muito oprimida pelo sistema patriarcal. Mas por meio do meu trabalho, eu pretendo mudar essa realidade”, diz.

Após a separação, passou o feriado de Thanksgiving na casa de um amigo nigeriano, em Boston, e lá provou um turbante pela primeira vez. Ficou fascinada com a força e o simbolismo do adereço. Começou a produzir o acessório para ela própria mas, por causa da demanda inesperada, abriu uma marca.

Nelson Mandela

No entanto, a grande conexão de Luna com sua ancestralidade aconteceu em 2013, quando foi convidada por um dos integrantes da família de Nelson Mandela para passar as comemorações dos 95 anos do ex-presidente na casa deles, na África do Sul. Ficou dois meses convivendo com o clã e teve a oportunidade de conhecer Barack Obama, que foi até lá homenagear o maior símbolo pela igualdade racial.

A caminho dessa inesquecível experiência em Johannesburgo, Luna olhou para o céu pela janela do avião. “A lua estava cheia, enorme, e eu chorava como criança vendo-a tão pertinho. Algo me dizia que a aquela viagem mudaria minha vida.”