por Ana Ribeiro

Ela se formou em direito, fez pós-graduação, passou no exame da OAB e tinha – assim parecia – uma promissora carreira de advogada pela frente. Mas a voz da menininha que passava batom e brincava de se enrolar nos lençóis en­quanto as duas irmãs adolescentes se arrumavam para sair soava dentro dela como a nota de descontentamento. “Percebi que resolver problema não era o que eu queria fazer da minha vida.”

Em busca de atividade mais leve e criativa, decidiu se dedicar à moda, que sempre a interessara. Os pais ficaram alarmadíssimos. “Como assim ‘tu vai’ desistir de ser advo­gada para virar costureira?”, reclamaram eles com o sotaque gaúcho. “Sorte que deu tudo muito certo rapidamente. Logo em seguida, eles ficaram bastante orgulhosos.”

Juliana Sanmartin Ribeiro/ Styling: Rafaella Spiniellafotos - Foto: Vinicius Postiglione
Juliana Sanmartin Ribeiro/ Styling: Rafaella Spiniellafotos – Foto: Vinicius Postiglione

Juliana começou a carreira de estilista com cautela, instalando seu negócio em uma sala pequena. Já de início sabia que o caminho seria produzir peças de couro de qua­lidade superior, e que tivessem o seu DNA. “Sempre quis fazer roupas que as pessoas reconhecessem como criação minha.” Isso aconteceu logo de cara, com a calça de pí­ton, ainda um clássico, e a “bolsa de matelassê da Chanel” da marca que leva seu nome.

Foto: Vinicius Postiglione
Foto: Vinicius Postiglione

Hoje, seis anos depois do lançamento, a Juliana Sanmartin e sua segunda linha, SANM, ocupam escritório de 600 m² no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, a 15 mi­nutos da casa de Juliana. “É uma área bem urbana, mas muito arborizada. Tenho o privi­légio de olhar para o verde e ouvir o tempo todo o barulho das caturritas (maritacas).”

Foto: Vinicius Postiglione
Foto: Vinicius Postiglione

Seu time é quase todo feminino. Dos 20 funcionários, apenas três são homens. Ela fez questão de criar um ambiente de trabalho com liberdade, música, área de descan­so. “O clima é muito feliz, de muita brincadeira. Amo estar ali, sou bem realizada com o que construí para mim. Se tiver de trabalhar 10 horas seguidas, não é sacrificante. Isso faz toda a diferença.” As peças que assina são vendidas em 80 multimarcas pelo Brasil.

No ano passado, nasceu Rafaela. Aos 11 meses, a “gordinha muito linda” por quem Juliana está perdidamente apaixonada tem um quarto só para ela no escritório da mamãe. A bebê já foi para a praia várias vezes – o marido, o advogado Rafael Diehl, é surfista, e eles têm uma casa em Torres, no litoral gaúcho. Mas Juliana não vê a hora de levá-la para Aspen. “Ela vai ser uma daquelas criancinhas que a gente vê no YouTube com a roupinha de esqui”, antecipa.

Os pais de Juliana seguem orgulhosos, mas sua mãe até hoje não entendeu a perio­dicidade das coleções. “Como assim o inverno nem começou e tu já está falando no verão 2019?” Juliana ri. “Quem trabalha com moda vive com a cabeça no futuro.”