Por Patricia Carta, com videoimagem Arthur Marques

Quando fechamos a edição de abril da Bazaar, já o fizemos em sistema de home office. Vivemos, como todos, um verdadeiro caos – não por acaso, o tema da edição. Definido antes da explosão da Covid-19, afinal, o mundo já dava sinais, há bastante tempo, que estávamos acelerados em demasia.

Se a ideia aqui é apontar algumas das mudanças que a moda sofreu nos últimos tempos, arrisco citar que o fast fashion, nos anos 2000, foi um divisor de águas. Ele foi impulsionado pelas redes sociais por meio do surgimento de blogueiras, que passaram a disseminar informações instantâneas – antes compartilhadas em primeira mão apenas por um círculo de especialistas.

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Não só a mídia tradicional teve de se reinventar, como toda a cadeia produtiva se viu obrigada a acelerar seu processo de manufatura para competir com a massificação de produtos semelhantes e mais baratos lançados até mesmo antes de os originais chegarem aos pontos de venda. O fast fashion serviu de gatilho para lançamentos-cápsula por parte das grifes e do crescimento cada vez maior de collabs, a fim de surpreender e manter o engajamento de suas consumidoras.

A explosão de plataformas de e-commerce, em meados dos anos 2000, também mudou a percepção do mercado, que, em um primeiro momento, temeu ser responsável pelo fim dos pontos físicos de venda. Finalmente percebeu-se que a venda casada seria o melhor caminho a se traçar. Para isso, humanizar a venda digital passou a ser apontada como a estratégia mais eficiente por empresas que já estão mais bem estruturadas neste canal. Assim como transformar o ponto de venda em um ambiente de socialização, entretenimento e experiências é um dos objetivos do varejo mais antenado com as tendências.

O que temos hoje, portanto, é o entendimento de que todos os canais se tornaram produtores de conteúdo, incluindo o consumidor como um agente nesse processo. Diante da profusão de possibilidades e formas diversas para engajar o público, ter uma proposta clara é o que engaja uma marca. No atual contexto, a mídia especializada e crível ganha um significado maior pela capacidade de validar e agregar valor a ações pinçadas nesse caldeirão. Dados cada vez mais precisos sobre os consumidores são a bússola para atingir, na mosca, as expectativas do público pretendido. Um dos meios mais eficientes para tal é a associação de títulos como Bazaar, influencers e marcas conscientes.

Vide a Hering, que, no mês de março, se associou à Bazaar para lançar campanha que propõe acabar com o termo sexista tomara-que-caia e substituí-lo por blusa sem alça. A capa, protagonizada por Mariana Ximenes, e a campanha viralizaram em todos os canais Brasil adentro e foram tema de infindáveis discussões ao longo do Mês da Mulher. Isso sinaliza que marcas precisam, mais do que nunca, ter propósito.

E, afinal, o que as pessoas querem consumir é uma ideia, mais do que uma peça de roupa. Nosso papel enquanto veículo é ajudar na construção desse storytelling. Nunca fez tanto sentido pensarmos, juntos, como construir um futuro mais viável e, para isso, consciente. Com fronteiras criadas por questões sanitárias, abre-se a possibilidade de valorizarmos mais o produto nacional, pensarmos em como posicioná-lo melhor. Enaltecermos e investirmos no nosso artesanato e qualificarmos a nossa mão de obra. Abre-se uma oportunidade para repensarmos os processos da cadeia como um todo!

Digitalizados na marra e humanizados por necessidade, uma das maiores lições que a pandemia trouxe neste momento disruptivo foi a capacidade de nos adaptarmos às mudanças. Não à toa, resiliência é a palavra que não quer calar. Importante que não só agora, em momento pandêmico, mas no futuro, que ainda se desenha, sigamos com o mantra #juntossomosmaisfortes.

*Este texto foi publicado no Report da Ecoera sobre moda, beleza e design pós-pandemia