Foto: Vicente de Paulo

Por Carolina Camargo

Durante a primavera em Nova York, dois frondosos vasos de plumbago adornam a entrada da townhouse do estilista brasileiro Antonio Haslauer, em Murray Hill. De origem tropical, a planta tem flores de um azul quase elétrico, raro de se ver na cidade. “Vira uma atração! Todo mundo para e faz fotos na frente de casa”, conta. Foi assim que os produtores do filme “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” (2018), estrelado por Joaquin Phoenix, se interessaram em utilizar o endereço como uma das locações do longa.

Na biblioteca, cerâmicas chinesas e plantas secas guardadas da festa de encerramento da ópera Akhnaten – Foto: Vicente de Paulo

Construção de 1910

A casa, construída em 1910, e que divide há 10 anos com seu companheiro, o arquiteto e historiador Russell Piccione, abriga uma série de preciosidades. O lar reflete o espírito globetrotter do casal, que se conheceu em 1992. Cada mobiliário, obra de arte ou objeto conta uma história.“As coisas passam por um crivo comum, foram sendo escolhidas juntas. É uma casa com curadoria, que, aos poucos, foi adquirindo personalidade com uma interferência multicultural”, diz Antonio.

Cortina indiana e chandelier Tommi Parzinger (1950) – Foto: Vicente de Paulo

Viagens

As peças vêm de viagens, garimpos em feiras, mercados de pulgas e, especialmente, leilões. É o caso da porta francesa de madeira do século 18, colocada em um dos corredores como se fosse um quadro, ou do pedestal chinês do século 18, que suporta o vaso holandês Delft Cashmere, de 1690, na cozinha. “Já trouxe cada coisa no avião”, ri Haslauer, apontando para a mesa de pedra brasileira assinada pela gaúcha Simone Coste.

Foto: Vicente de Paulo

Obras

Aliás, não faltam referências ao Brasil, como as peças dos Irmãos Campana, esculturas de JoaquimTenreiro, Sônia Ebling e Bruno Jorge e luminárias de Maurício Arruda. “Os clientes do Russell já sabem dessa ligação com o Brasil. Nos Estados Unidos, os móveis brasileiros dos anos 1950 e 1960, o chamado Brazilian midcentury, têm prestígio e são muito procurados”, afirma.


Desenhos de Gio Ponti, esculturas Fita, de Joaquim Tenreiro, e banqueta Joseph Hoffman – Foto: Vicente de Paulo

Festas e jantares

O casal adora receber para jantares e festas. “O espaço que mais gostamos é a cozinha. Russell é um ótimo chef”, fala Haslauer. “Nunca me esqueço de uma festa para comemorar o encerramento da ópera Akhnaten. Estavam Deus e todo mundo aqui – Philip Glass, Marina Abramovic, Michael Stipe”, comenta Vicente de Paulo, amigo da dupla há mais de 20 anos, e responsável pelas fotos deste ensaio.

Cadeiras Zig Zag dos irmãos Campana e aparador de madeira (1830) – Foto: Vicente de Paulo

Diplomacia

Nascido no Rio de Janeiro, Haslauer foi para a França cursar Literatura no final dos anos 1980. Tinha planos de ser diplomata e, na volta, decidiu fazer uma escala em Nova York para “calibrar” seu inglês. O que seriam três meses viraram 30 anos.“Eu era um estudante sem grana em Paris. Comprava minhas roupas em lojas de segunda mão. As únicas peças que apareciam eram as militares e as austríacas, como a jaqueta loden. Assim que cheguei aos Estados Unidos, fui para uma festa e o pessoal me achou super na moda. Saí de lá com uma proposta de trabalho”, relembra.

Pintura Rhexia (2011), de Paul Morrison, e quadro da freira Corita Kent – Foto: Vicente de Paulo

Literatura

Não era qualquer trabalho, mas um posto de vendedor na lendária Charivari, da 57th St. Da família Weiser, a rede de lojas trouxe roupas avantgarde para o Upper West Side e ajudou a revolucionar a moda na época, trabalhando com o inovador conceito de curadoria e apresentando novos talentos da Europa.“Imagine Jean Paul Gaultier, Giorgio Armani, Dries van Noten, Dolce & Gabbana – todos em início de carreira. Madonna e Sade eram clientes.O Bill Cunningham, fotógrafo do The New York Times, ficava na esquina clicando os fashionistas”, conta.

Tela de Francis Jennings e paravento dos Campana – Foto: Vicente de Paulo

Moda

Dois anos mais tarde, Haslauer recebeu um convite para implementar a operação do estilista italiano Romeo Gigli na cidade. Em seguida, fez o lançamento internacional da Forum. Em 2008, ao abrir sua consultoria, trabalhou com inúmeras grifes, além de projetos especiais com Cecilia Dean, da Visionaire, uma de suas melhores amigas até hoje.

Antonio Haslauer na entrada da townhouse – Foto: Vicente de Paulo

Tecidos vintage

Em 2018, lançou sua marca, a Ampersand Heart. “Quis incorporar a ideia de ser sustentável e cultuar um produto refinado. Descobri uma maneira de fazer isso por meio de tecidos vintage de ótima qualidade. Marcas de luxo fazem projeções que acabam não correspondendo à produção. Descobri até rolos da década de 1960. Viajo e procuro. Já trabalho com tecelagens na Itália, Portugal, Havaí e Brasil”, explica.

Papel de parede da Bradbury & Bradbury, espelho inglês de 1830, banco americano dos anos 1950 e mesa de ametista da brasileira Simone Coste – Foto: Vicente de Paulo

Overexposure

Baseado no que encontra, Haslauer vai construindo coleções-cápsula que dialogam entre si e contam uma história. Para cada tecido, cria quatro modelos com 40 peças no máximo. Nos Estados Unidos, elas são vendidas em multimarcas como Edit, Joey Wölffer e Ikram. No Brasil, podem ser encontradas na Pinga, em São Paulo. “Neste período de overexposure, as pessoas querem um diálogo com exclusividade. Hoje, a mensagem, a história e o DNA do produto têm um valor maior do que a própria etiqueta. Os acontecimentos atuais mostram um movimento que está reformulando nossa relação com estética e consumo.”

Detalhe do banheiro – Foto: Vicente de Paulo