Foto: reprodução
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Por Antonia Pellegrino

Dois mil e quinze: o ano em que as estruturas machistas da sociedade brasileira começaram a tremer diante do coro furioso de vozes agudas.Vozes e corpos unidos em praças, gritando contra o retrocesso de direitos adquiridos. Protestando contra boçais que se acham capazes de legislar sobre o corpo de mulheres para quem eles têm de reaprender a dar “bom dia”.

Porque é disso que se trata: reaprender o mais elementar. Não se nasce mulher, torna-se. E estamos todas nós, ou boa parte de nós, lutando para nos tornarmos mulheres mais potentes, menos submissas, mais inconformadas.

Inconformadas com os nossos próprios privilégios, conscientes deles e usando a força que um lugar social de fala hegemônica dá àquela que dele usufrui. Sou empoderada o suficiente para ser menos feminista por mim, e mais pelas mulheres pobres, negras, nordestinas, suburbanas, faveladas, gordas, putas, aborteiras.

Porque o feminismo é também sobre sororidade. E por isso soam tão bobas e marqueteiras as moças que, em busca de likes e popularidade no clube do bolinha, preferem se aliar aos caras na defesa do velho direito masculino de secar o nosso shortinho. Só é capaz de defender isso quem não precisa andar diariamente de metrô e ser encoxada, quem não mora em áreas onde há risco de estupro depois das oito da noite, quem não tem empatia com o fato de que a cada onze segundos uma mulher é espancada. O feminismo é menos sobre mim, mulher branca, empoderada, classe média-alta intelectualizada, ou seja, um homem social, e mais sobre uma abertura às mulheres cujas vidas estão em risco.

Se eu for espancada pelo meu marido, tenho a espinha ereta o suficiente para, mesmo machucada, ir a uma delegacia sem medo.Tenho conta bancária para contratar um bom advogado e meter-lhe um processo.Tenho segurança para, se for assediada no trabalho, me demitir ou lidar com o assédio de forma a até me beneficiar dele. E, se eu quiser abortar, eu aborto em segurança, como já fiz.

A minha vida não está em risco, embora eu note, sinta, sofra e seja machista. O machismo é atávico, é uma estrutura social transmitida por gerações até aqui. Até eu e você e todas nós. Até agora. Até o momento em que algo trincou. E tornou-se hora de constatar essa herança e dizer “prefiro não”. Hora de abrir mão do lisonjeiro “gostosa” ouvido na feira, para limitarmos o limite, redefinirmos o que é normal. O momento é de lançar luz sobre os nosso machismos mais primitivos e os mais escamoteados. O momento é de autorreflexão, de abertura à fala de muitas e escuta para outros. Para que tanto mulheres como homens possam perceber que papel desempenham na manutenção ou na erosão dessa estrutura opressora em disputa.

E se para isso seremos obrigadas a fechar a cara e chutar a porta, não se choquem. Nenhum movimento instituinte que deseja ser instituído deu um passo com palavras doces e sorrisos. Se a violência do assédio pode ser tolerada tantos séculos no núcleo da sociedade brasileira, isto é, a casa, por que essa mesma sociedade não pode segurar a onda diante de mulheres ferozes na luta por seus direitos?

Direito de que as mulheres negras lutem contra o extermínio da juventude negra. Dos 30 mil jovens assassinados no País, 77% são negros e estão sendo mortos nas favelas, em uma rotina de extermínio praticamente diária, rotulada como danos colaterais de uma guerra às drogas que mais se parece a uma forma de controle de natalidade tardio.

Direito da mulher legislar sobre seu próprio corpo. Os cinco milhões e meio de homens que não registraram seus filhos no Brasil tiveram direito de abortar a própria paternidade. E por que não pode a mulher? Muitas das pessoas que defendem o direito à vida de um feto repetem que “bandido bom é bandido morto”. Ou seja, são capazes de flertar descaradamente com a pena de morte, de não reconhecer o direito à vida de alguém que pode ter sido levado ao crime por causas que remontam ao abandono paterno, alguém que cometeu crime, mas não necessariamente é criminoso. Esse bandido morto muitas vezes é preto e pobre e não só não nos importamos que ele morra, como torcemos para isso. O menino maculado pelo mundo pode morrer, mas o inocente feto não. É preciso tratar o aborto como o que é: problema de saúde pública. E, para isso, possivelmente é preciso que mais mulheres sejam eleitas em todo o País, para cargos executivos e legislativos.

E para encerrar uma lista que poderia ser um pergaminho, é preciso que seja reconhecido socialmente o direito da mulher de não viver uma vida tradicional, isto é, de não casar e ter filhos. E parar de encará-la como alguém para quem está faltando algo. Ou como a seca mal-amada. Ou como a coitada que ficou pra titia. Filho é uma opção, como são tantas outras. Filho e marido não devem ser constituidores fundamentais de identidade. Pobre da mulher que depende dos outros, e não de si mesma, para ser quem é. A nova mulher é aquela que sabe que lugar de mulher é onde ela quiser.