Magô Tonhon e Rapha da Cruz – Foto: Autumn Sonnichsen

Quando conversei com Magô Tonhon e Rapha da Cruz, arquitetas de beleza – como elas mesmas se denominam – responsáveis pela capa digital e editorial da Bazaar de outubro, com Cecília Gama, ganhadora do reality “Born to Fashion”, fiquei extremamente encantada e impactada com as palavras que ouvi. As duas mulheres trans encontraram na beleza e no trabalho coletivo uma forma de enfrentar um mercado disputado sem jamais abaixar suas bandeiras.

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Nas duas horas em que nos falamos, meus pensamentos rondavam entre a quantidade de informações disponíveis e como faria para condensar tudo em apenas um texto. Poucas linhas para a sabedoria das duas mulheres. A melhor forma seria deixá-las falar. Por isso, apresento Magô e Rapha da melhor forma que podiam conhecê-las: por Magô e Rapha.

Início da carreira

Magô: Nos conhecemos em 2015, quando trabalhamos na produção de uma conferência internacional que aconteceu em São Paulo. Nos aproximamos muito e convergimos nossos interesses todos muito entreados pelas nossas descobertas e pela nossa feitura de nós mesmas.

Rapha: Nos conhecemos em um lugar de troca de vivência. Quando passamos a ter uma amizade, percebemos que já nutriamos essa paixão por beleza em comum, já era um processo pessoal nosso presente em nossa vida em parte pelas questões de gênero, mas em grande parte pela pura beleza. Já era um processo de pesquisa que cada uma passava de forma separada, em seu mundo. Daí nos conhecemos e percebemos essa paixão mutua. Começamos a falar de produto, técnica, a descobrir coisas juntas através de pesquisa virtual, a investir e testar produtos juntas.

Magô: Nos tornamos oficialmente arquitetas da beleza quando ela se faz necessária. Houve uma demanda de um grupo de amigas artistas, todas trans e travestis, que queriam ajuda com a beleza. Desde sempre trabalhamos em dupla, porque quanto mais conhecemos o mercado, mais temos vontade de transformá-lo. Para nós, é necessário desindividualizar. As carreiras são todas pautas numa masculinidade branca e cisgênero e voltadas para o indivíduo, o particular. Nosso fazer profissional não tá descolado de um desejo de uma nova realidade, as transformações são precisas para que a gente caiba.

Rapha: A questão da parceria é muito inerente a nossa vivência. No início, a beleza não surgiu como uma profissão, mas como algo que dividíamos. Pelo fato de ter que estar juntas para nos sentirmos fortalecidas, as coisas passam a fazer sentido coletivamente. No início, as pesquisas partiam da gente, com a ajuda da internet, ela foi nosso grande alicerce.

Magô: Para nós, não deveriam haver processos profissionais descolados de aprendizagem, de adaptações, de revisões. Em 2017, já estávamos bem envoltas com nossos estudos, nos encontrávamos três vezes por semana para testar, maquiar, gravar. Então recebi um convite para compor o time de educadoras de um curso chamado Babadeira e oferecido a pessoas trans pela Casa 1. Quando fui chamada, disse que aceitaria, mas que também gostaria de sentar na cadeira de educanda. Já tinha o diploma de graduação em Arquitetura e Urbanismo pela UNESP e cursava mestrado de Filosofia na USP, mas não tinha nenhum comprovação de maquiagem. Foi um processo muito rico de aprendizagem e trocas. Ficamos durante mais três turmas e passei a integrar a coordenação, quando convidei a Rapha para também tirar a certificação.

Continuamos trabalhando com publicidade, cinema shows. Em 2019, fomos convidada pela Vicenta Perrota para assinar a beleza de um desfile histórico na Casa de Criadores, com mais de 100 pessoas trans e não-binárias na passarela. Em 20 dias, reunimos um time de 42 cabeleireiros e maquiadores e oferecemos um treinamento ético e político para estes profissionais que ofereceram seu trabalho de forma voluntária. Depois, fomos convidadas para compor o time de produtoras de conteúdo de beleza e para dar aulas na Escola Madre.

Rapha: Sempre que falamos da nossa experiência, trazemos de volta este desfile. É marcante porque uma pessoa trans conseguiu ocupar este espaço, levou a gente junto e tornou possível essa nossa ocupação que é algo muito notório. Isso só acontece por essa questão de coletividade. Esse desfile tem uma importância política muito enorme em nossa carreira e atuação.

“Born to Fashion”

Rapha: Estamos sempre conversando sobre como nossas ocupações se dão, as questões de gênero e políticas que envolvem tudo isso. Elas não passam batidas, são parte da nossa vivência. Acabamos de ganhar três momentos importantes no audiovisual em relação à identidade trans e travesti: a série “Pose”, o documentário “Disclosure” e o filme brasileiro “Bicha Travesti”. Nunca havia me sentido tão atravessada por uma produção que falasse da minha identidade e vivência. Quando falamos do reality, existe um olhar cisgênero que envolve a produção e puxa para este viés mais do que para o transgênero. Eu amo ver as meninas maravilhosas na tela, representando muito bem e falando coisas incríveis. Mas não vamos deixar de enxergar tudo o que há para ser enxergado ali.

Magô: A meu ver, o reality tem coisas muito mais importantes para vislumbrar e tem vislumbrado. As onze vidas trans, contando com a presença de Alice Marconi, a única trans na bancada examinadora, estão servindo o tempo todo e agigantando a produção. Já havíamos cruzado profissionalmente com a maioria delas. Quando o reality começou, tive a ideia de criar um quadro de lives no meu Instagram para comentar, chamado “Born to Palpitar”, porque vi diante de mim uma produção com muito potencial, mas na minha opinião a produção e a edição poderiam ter se despido mais bravamente do seu olhar cisgênero para as nossas experiências. O que se produz quando o foco é nas nossas precariedades? Vamos jogar para cima, quero saber para onde elas vão levar sua carreira, suas influências. Quis oferecer uma narrativa que que se pergunta quais são as coisas que estão por traz dos discursos: o que as meninas estão oferecendo, qual foi o encaminhamento dado pela produção e qual a escolha da edição do que vai ao ar e como.

Rapha: Apoiei a Magô neste projeto, mas me preocupo como amiga que ela se preserve. Não de backlash ou coisas do gênero, mas preservar sua saúde e energia. E, neste caso, a Magô é extremamente apta a para conduzir este debate. Porque o reality passa na TV, mas a gente sabe que as polêmicas e os desdobramentos se dão na internet, onde tudo é muito polarizado. Um exemplo é o que aconteceu com Alexandre Herchcovitch. As meninas conduziram da melhor forma a situação e a edição levou ao ar de uma forma ótima, mas, mesmo assim, muitas pessoas cisgêneras levaram o debate para um ligar de polarização na internet, com apontamentos infundados e desnecessários.

Magô: A gente aproveita o programa e nomeia, qualifica que a edição está oferecendo. Porque os discursos estão cheios de mensagem. Você interpreta se você quiser e o nosso compromisso tem sido cada vez mais em pegar e interpretar, sem que isso simbolize um muro.

O trabalho

Magô: As pessoas trans têm esse traquejo de simplesmente entender que ela precisa entregar, que a cobrança é muito maior. Eu e a Rapha trabalhamos de uma maneira que saímos de casa sabendo o exato produto que vamos usar em cada momento da beleza pelo nome. Montamos um roteiro e tentamos ser o mais profissionais que podemos. Nossas trajetórias não nasceram com a nossa transição de gênero. Transicionei há cinco anos, mas não tenho cinco anos de idade.

Rapha: Este comprometimento com a excelência vem de algo pessoal. Sinto muito a necessidade de estar no controle para que tudo ocorra da forma que esperava. Sinto muito que nosso comprometimento com a excelência tem um atravessamento político também, porque quando estou ocupando um espaço, enquanto pessoa trans, essa oportunidade de profissionalismo é colocada mais em cheque. As pessoas trans não tem acesso a diversos mercados profissionais por duvidarem de sua capacidade, então sinto que com essa comprovação de excelência estou provando a necessidade e a possibilidade de pessoas trans nos espaços de trabalho.

A capa

Camisa e casaco Balmain, hot pants Intimissimi, meias Calzedonia e sapatos Prada – Foto: Cássia Tabatini, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Magô Tonhon e Rapha da Cruz com produtos Chanel Beauty, produção de moda de Maria Flores Levy e Larissa Romano, produção executiva de Bruno Uchôa, assistentes de fotografia Maria Marioto, João Victor Nascimento e Jonathas Santos da Silva, manicure Rose Luna e tratamento de imagem Victor Wagner

Rapha: Uma das coisas que mais me deixou feliz foi saber que num espaço onde era para ter uma pessoa trans, haviam três. É quase o milagre da multiplicação! Essa experiência para a Cecília foi mil vezes mais positiva, engrandecedora e acolhedora, porque é sobre coletividade e para a gente é necessário. A partir do momento em que a gente vive em uma sociedade heterocisnormativa, a nossa presença sempre vai ser atravessada de diversas formas e estar acompanhada é absurdamente distinto de estar sozinha ocupando um espaço.

Magô: Fiquei profundamente feliz com o convite. Fazemos reuniões incansáveis para criar um roteiro e pegar os produtos exatos que a gente vai precisar. Quando recebemos o briefing, de que as fotos seriam bem anos 1970 e 1980, tentamos sair do óbvio, porque não gostamos do óbvio. Escolhemos uma sombra azul, mas com uma aplicação distinta, por exemplo. Outro detalhe é a aplicação do blush, que muda da maquiagem com o olho azul para a beleza com a boca vinho, variando entre uma forma sutil e a aplicação de blush cartão, mas sempre bem esfumado.

Rapha: Decidimos criar mais de uma beleza porque foram 17 looks incríveis produzidos, muito distintos e quisemos acompanhar a criatividade que a Cássia (a fotógrafa) teve com a iluminação. Nestes momentos, a comunicação é muito importante para tudo fluir bem e isso sempre marca a gente, porque em muitos ambientes isso falta.

Magô: As coisas precisam ter sentido para gente. Em geral, não aceitamos trabalho em que somos apenas uma pecinha para executar o que as pessoas querem. Acho que a ideia de trabalho coletivo é o antídoto para muitas coisas que estamos vivendo hoje, inclusive politicamente.

A beleza

Magô: Gosto de dizer que beleza é o contrário de feiura. Não é apenas a decisão de como vai ser a pele ou a cor do batom. Beleza para gente é o reflexo das lentes que você utiliza para ler o mundo. Portanto é um instrumento de poder e controle. É, foi e ainda será o reflexo da norma. Quando pensamos que a identidade trans e travesti foi considerada doença no Brasil durante 30 anos e há apenas um ano fomos retiradas dos manuais de doeças psiquiátricas, quer dizer que ser trans não é ser bonito. O que tentamos dizer é que estamos aqui e esse é o nosso leque, essas são as lentes que a gente escolheu para visualizar o mundo.