Foto: Arquivo pessoal

Casada com o produtor Jaime Brito há 11 anos, com quem trabalha diretamente na Fórmula 1, Mariana Becker, 49 anos, é uma mulher que não para. O melhor adjetivo para ela é: curiosa, e bota curiosidade nisso. Incansável, está aí uma mulher que gosta de conhecer coisas novas, e experimentá-las. Sim, porque ela se arrisca em fazer como prática os esportes que admira.

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Nome forte no jornalismo esportivo, Mariana começou a carreira escrevendo sobre coisas que vivia, à época, o surf. A ideia era a de escrever sobre suas experiências e relatá-las para as outras pessoas. Deu certo, e ela passou a produzir textos e vídeos com periodicidade. Embora já na profissão, ela cursou a faculdade de jornalismo no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre. Há 11 anos fora do Brasil – atualmente vive em Mônaco -, Mariana é aquele rosto feminino que se mistura a tantos masculinos que vemos nas corridas de Fórmula 1 aos domingos. Na TV Globo há 25 anos, ela passou por quase todo os esportes, e foi parar na F1 também por sua curiosidade em aprender sobre o assunto. Mas não é só isso, ela cavalga, já foi piloto de rally, se aventura em vários esportes, deu aula de defesa pessoal, viajou o mundo e é uma grande amante dos animais. Aliás, um de seus projetos para o futuro é fazer um documentário sobre bichos. Ah, ela também escreveu um livro de crônicas onde conta suas aventuras ao redor do globo, sim, ela já viajou e muito. Só para o Japão foi 12 vezes.

Muito além de ser só uma jornalista que ama esportes, Mariana é uma grande contadora de histórias, e tem muitas em seu currículo. Leia a seguir entrevista que a poliglota – ela fala cinco idiomas – fez com a Bazaar via Zoom direto da Itália.

Foto: Arquivo pessoal

Como é trabalhar com seu marido?

É bom porque a gente se vê bastante, mas é ruim porque mistura muito o trabalho com o pessoal. Mas eu consegui estabelecer um limite. Nas viagens, por exemplo, ficamos em quartos separados, porque eu tenho minhas coisas para fazer, e ele também. A nossa rotina com o jornalistas de TV na Fórmula 1 é superestressante. Acontecia que a gente terminava de trabalhar e voltava para o hotel e continuava na mesma vibe de tensão, falávamos o que funcionou, o que tinha de ser mudado. Íamos tomar banho e continuava naquela tensão. Então para mim era mais tranquilo o fato de termos dois quartos. Chegamos no hotel, nos despedimos e vamos cada uma para seu quarto, depois jantamos, ficamos juntos e depois vamos dormir. Porque eu posso até não comer direito, mas preciso ter minhas horas de sono para estar a mil no dia seguinte. Eu vou estar ao vivo, não posso estar sonolenta, nem com olheiras.

Quantos idiomas você fala?

Cinco. Espanhol, italiano, francês, inglês e português.

É que recentemente você deu um show de línguas apresentado em várias delas e viralizou…

Eu acho que as pessoas prestaram mais atenção porque foi ao vivo, mas eu sempre gravo em outras línguas e faço as entrevistas também, porque as pessoas se revelam mais quando falamos o idioma delas.

E como vocês têm passado a pandemia?

A pandemia foi meio complicada, porque a pegamos em trânsito. Quando começou a história da Covid-19 não sabíamos direito a gravidade. Fomos para a Austrália, porque é a primeira corrida da temporada, e quando chegamos lá, lendo as coisas, vimos que foi se disseminando e, aí, um dos caras da McLaren pegou, e eles tiveram a coragem, porque tem que ter muita coragem naquele lugar onde cada minuto vale milhões, de dizer que não iam correr. Depois a organização nos reuniu e declarou que não haveria grande prêmio.

Nós íamos voltar para Mônaco, mas como já estava muito forte a contaminação na Itália, na França, decidimos ficar na Suíça, e foi bom, porque ficamos nas montanhas, em um local muito tranquilo. Fora que na Suíça tem mais hospitais e se a coisa pegasse estaríamos mais bem protegidos. E tirando a F1, eu gosto de ficar mais isolada. Eu ia andar nas montanhas, via as vacas, as flores e depois voltava para casa. E dentro de casa as coisas são mais complicadas, as relações se intensificam, as crises acontecem, aquela comilança louca (risos).

Foto: Arquivo pessoal

Você gosta de cozinhar? 

Gosto muito. É uma coisa familiar, vem do meu pai, todos os meus irmãos cozinham. Eu, na verdade, passei a cozinhar mais quando vim para a Europa, porque eu estou [em Mônaco] numa região bastante agrária, bem na fronteira da Itália e da França, e tenho como comprar alimentos frescos, produtos primários maravilhosos.

 

Como a Mariana Becker se torna uma jornalista

Nunca foi um sonho, foi acontecendo bem naturalmente. Eu era surfista e gostava muito de viajar sozinha, eu tinha um pastor alemão que viajava comigo e garantia a minha segurança (risos). Eu tinha aquela coisa poética de ir atrás das ondas perfeitas. Eu ia para lugares lindos, surfava ondas incríveis, conhecia pessoas legais. Depois, quando eu chegava em casa, gostava de escrever sobre o dia. Então passei a ir a campeonatos de surf, mas não queria ficar lá só de gatinha, eu queria contar o que estava acontecendo ali. Comecei a fazer alguns boletins para uma rádio do sul e passei a escrever também. Como tinha pouquíssimas meninas que surfavam, eu podia contar a história com experiência. Eu conheci a Andréa Lopes, que era um pouco mais nova que eu, e que foi a primeira surfista campeã do circuito feminino. Eu escrevi a matéria e vendi para a Folha de S.Paulo, eu tinha uns 17, 18 anos. Mas eu já escrevia para um jornal do Sul, de esportes radicais. Eu gostava de escrever sobre coisas que eu curtia e que as mulheres praticavam, como asa delta, por exemplo. Então foi muito natural, porque eu tinha curiosidade, escrevia sobre essas coisas e para pessoas que talvez tivessem o mesmo interesse que eu. Aí, na faculdade, eu achava que ia fazer jornal, depois rádio, até que um professor me disse: “Eu acho que você devia tentar TV”. Eu trabalhei na TV Bandeirantes, depois eu dei uma parada porque eu queria entender até onde eu podia ir quando se tratava da privacidade de uma pessoa. Fui estudar e pesquisar tudo o que podia. De uma forma geral eu não consigo me contentar com o pouco. Eu quero saber até o fim, eu quero “me” responder.

Eu sempre escrevi sobre esportes radicais, e naquela época havia uma certo preconceito com essas modalidades, o cara que era desse gênero esportivo era considerado um desocupado, e o jornalista que cobria essas áreas ainda não tinha chegado lá, entende?

Foto: Arquivo pessoal

E como que você entra para o jornalismo esportivo, especificamente o futebol?

Era para tudo, para falar a verdade, futebol, tênis, vôlei, basquete etc. Não que eu assistisse porque acompanhava, mas eu via porque sou brasileira. Agora eu não ia deixar de sair para ver um jogo, não chegava a esse ponto, mas tive que aprender tudo. O mesmo foi com a F1.

E no seu tempo de futebol você entrava nos vestiários e tal?

Sim, fazia tudo, O que eu ia fazer? Entra todo mundo e você fica do lado de fora? Tinha que fazer. Hoje ainda têm [barreiras], mas naquele tempo era mais inesperado que uma mulher entrasse no vestiário, era mais inesperado que uma mulher fizesse uma pergunta dura para um jogador, para um técnico, um dirigent

Antes de mim tiveram muitas mulheres bravas na profissão, que tiveram que ver os caras pelados e tal, na minha época eles colocavam uma toalhinha. Mas, claro, já fui fazer pergunta enquanto eles se trocavam.

E você chegou a sofrer algum tipo de assédio? 

Lá dentro, não, mas, fora, sim, nada muito grave. Teve assim o cara ser mais insistente, ou dar uma pegada [no corpo] que hoje em dia não daria para acontecer.  Mas eu dava um chega para lá e continuava, porque a curiosidade de fazer o meu trabalho era muito maior que esses problemas.

Foto: Arquivo pessoal

E preconceito?

Para te falar a verdade o preconceito mesmo era entre os coleguinhas, mesmo. Hoje em dia ainda existe, por incrível que pareça, mas é muito menos. Por exemplo, o que existe é que você dá uma informação e o cara desdenha, diz que é menor, que aquilo não é tão importante. Desconfia, tipo: “De onde você pegou isso”, sabe? Puxa, eu estou há 25 anos fazendo isso, obviamente que eu vou errar, mas não olha para mim como se eu tivesse começado ontem. E também a coisa de ficar testando o seu conhecimento, fazendo perguntas, e isso, e aquilo?

Eu não sou do tipo que guarda números de cabeça, eu pesquiso, mas sou do tipo de pessoa que vai dizer: “Hamilton está com um jeito estranho hoje, hein? Por que ele respondeu isso? Sabe, quando você começa a “sacar” o jeito da pessoas?

Essa é uma temporada atípica, com a pandemia, está mais difícil de fazer o seu trabalho?

Está sendo um inferno. Primeiro que no jornalismo de F1 você precisa saber quem é quem, porque é tudo muito velado, as técnicas, a tecnologia é muito escondida, as relações são escondidas. Então, quando é que você descobre as coisas? É naquele cafezinho, são nas conversinhas que você vai descobrindo as histórias, porque as pessoas não falam abertamente, ou seja, não é na entrevista, mas nos bastidores.

A outra questão é o fato de todo mundo estar de máscara, então o entrevistado não está vendo a sua expressão e muitas vezes não está entendendo direito o que você está falando, por causa da máscara. Aí você faz uma pergunta gritando, praticamente, porque está a dois metros da pessoa, e o entrevistado responde no mesmo tom, ou seja, não vai haver nenhum tipo de revelação dessa forma. Agora também passamos pouco tempo nos paddocks, então ficamos em uma região de bastante distância entre eles, e é preciso estar sempre gritando para chamar a atenção, “ô, fulano!” (risos).

Esses dias eu estava lá entrevistando uma pessoa e vi do outro lado do paddock o presidente da Mercedes falando com um guri que tinha acabado de ser campeão na Fórmula 3, e já dei uma informação, olha, não se surpreendam se o garoto tiver a carreira gerenciada por ele. Assim funciona. Ou seja, é um trabalho que ficou muito difícil.

Mas há um peculiaridade, porque quando começa o campeonato na Austrália, depois de todo o inverno, todo mundo se cumprimenta perguntando como foram as férias e tal. Agora, depois de todas as mortes e tudo o que vem acontecendo, quando nos encontramos na Áustria, era assim: “Oi, tudo bem, estamos vivos, que bom que você está aí!” Diminuiu muito o número de pessoas também, eram 8.000 pessoas trabalhando na F1, agora somos 2.000. Os pilotos, atrás da máscara, demonstram com os olhos a expressão de felicidade em te ver. Às vezes, até uns caras que nem te cumprimentavam estão acenando com a mão. Você via que estava todo mundo contente de ter passado por essa fase.

Foto: Arquivo pessoal

Você já chegou a pilotar um carro de F1?

De F1, não, mas eu pilotei carro de rally, eu fiz três anos o Rally dos Sertões cobrindo pela Globo. Saíamos de São Paulo, íamos até o Maranhão e depois Fortaleza, tudo pelo sertão, era uma doideira. E eu adorei, foi ali que o automobilismo se desvendou para mim. E naquele ano mesmo o Rubinho [Barrichello] ganhou o primeiro grande prêmio dele, que foi na Alemanha, e eu me peguei com os olhos marejados, emocionada mesmo.

Depois de 25 anos na Globo, e aos 49 anos de idade, a profissão ainda é um desafio para você?

É sempre, porque eu sempre acho que posso fazer muito melhor. E eu sempre tenho vontade de contar as histórias com mais sutileza, com mais especificidade, com mais penetração, que eu consiga alcançar mais as pessoas. O contar histórias para mim é um negócio que não acaba a graça. Agora, o que vai acontecer, para onde eu vou, só Deus sabe. Porque a Globo não renovou o contrato com a F1, então o que vai acontecer, o que vou fazer, eu não sei.  A F1 juntou tudo que eu mais gosto, que é viajar -embora odeie fazer mala -, esporte, contar histórias e a TV, que é o meu trabalho.

Eu comecei fazendo surf, depois por muito tempo eu fiz vela. Fiz uma viagem de 35 dias pela costa da Groelândia, velejando, filmando e contando a história para o “Esporte Espetacular”. Tem um milhão de histórias dessa viagem, vou te contar duas rápidas.

Foto: Arquivo pessoal

Uma delas é que nós pescamos bacalhau demais para comer, então deixamos secando com sal no deck do barco, e quando nos demos conta, um urso polar havia subido no barco atraído pelo cheiro do bacalhau. Já subi e filmei tudo, mas graças a Deus o urso se assustou com a gente e pulou de volta no mar, saiu nadando com aquela bundinha gorda peluda (risos).

A outra é que estávamos eu e a Maristela Collucci, que era a fotógrafa da expedição, quando paramos em um povoado. Lá a gente ouvia o inuíte, que é a língua dos esquimós, e o de vez em quando um dinamarquês, e olhe lá. Então as minha cinco línguas não funcionavam para nada. E aí, estávamos andando, quando escutamos: “Fala português?” Olhamos para trás e era uma guria esquimó, e eu disse: “Eu falo português, mas você fala português? E ela disse que fizera um intercâmbio em Canoas (RS), no Brasil. Ela, como uma esquimó gaúcha disse: Você é gaúcha”? Ao que respondi que sim. “Trouxe chimarrão?”, perguntou (risos). Mas eu não tinha. Acabou que fomos (eu, Maristela e o comandante do barco, Betão) jantar na casa dela, e como você sabe lá não se planta nada, é frio demais, eles nos ofereceram tudo o que tinham, e tudo o que havia era proteína, baleia, gordura de baleia, boi-almiscarado.  Aí o Betão disse que não ia comer, porque havia coisas cruas, e eu disse: ah, vai comer, sim”. E ele comeu. Antes de irmos embora, o pai da esquimó ainda me deu um pedaço de fígado de foca recém-caçada, e eu comi. Disso eu sinto muita saudade, do inesperado, de ir para essas viagens.

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Você tem medo que a idade atrapalhe sua carreira em algum momento?  

Ah, eu acho que sim, né? Acho que infelizmente isso ainda é uma realidade. Nada me foi dito diretamente, mas eu ouvi piadas, tipo o cara que é meu colega, da minha idade, dizer: “Quando eu era pequeno eu já via você na TV”. Essas coisas. Aí você meio que entende o recado. Mas eu não posso fazer nada senão envelhecer e continuar ligada no mundo. Eu tento fazer tudo na minha vida da maneira mais natural possível. Eu não vou fazer um monte de plásticas porque eu moro em Mônaco e sei como as pessoas ficam quando estão cheias de intervenções cirúrgicas. Pode ser até que eu faça uma coisinha ou outra, mas é uma guerra que eu não vou travar.

A outra coisa que eu posso fazer é continuar ligada no mundo, o que para mim é muito natural também porque sou uma pessoa curiosa.

Você pratica esportes atualmente?

Infelizmente, não, como eu fazia ou como gostaria. Porque eu viajo muito e fica muito difícil fazer qualquer coisa com frequência. E eu não gosto de fazer academia, não gosto de ficar fechada. Eu fiz artes marciais, que é algo que eu gosto muito e até cheguei a dar aulas de defesa pessoal para mulheres. Mas também é uma coisa que demanda frequência. Então, hoje em dia, eu subo na montanha, vou nadar no mar.

E você tem um ritual e beleza, tira a maquiagem, passa creme essas coisas?

Não, mas eu gostaria muito de fazer (risos). Eu tento, cada vez que eu vou ao dermatologista as pessoas me convencem, a moça que vende o creme me convence, eu acredito, mas eu faço dois dias e daí já me dá preguiça. Sou inconstante com isso.

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Você pensa em voltar para Brasil, em algum momento?

Agora não. Mas penso, em algum momento, sim. Eu acho a cultura do Brasil riquíssima, eu não vejo essa diversidade em nenhum dos lugares por onde passei. Mas agora ainda não é o momento, embora eu sinta muita saudade dos meus pais.

Você escreveu um livro? 

Escrevi, mas ainda não mandei para a editora. É um livro de crônicas, de todas essas minhas andanças. Mas não tem nome ainda. Preciso acabar de revisar, mas gostaria de lançar no fim deste ano.

E quais são seus próximo projetos, você tem? 

Não. Eu posso te dizer coisas que eu gostaria de fazer, mas eu não tenho um projeto ainda. Gostaria de passar um período sabático com uma produtora de documentários de bichos.

Você gosta de animais, tem? 

Eu adoro, mas, no momento, eu só adoto os das outras pessoas. Eu sempre tive três cachorros, eram sempre três, eu monto a cavalo, gosto muito. Leio muito sobre etologia, comportamento animal. Então eu gostaria de fazer um grande documentário em uma produtora bacana que pode bancar um trabalho de meses, uma ano, porque minhas matérias são pequenas. Queria ver como é trabalhar com uma equipe grande, como se faz um roteiro, essas coisas, produção, edição, a história do começo ao fim. Gostaria também de ter um espaço para entrevistar pessoas que eu acho interessantes. O que já estou conseguindo fazer um pouco no meu Instagram, mas queria algo maior.