Foto: Jorge Bispo
Foto: Jorge Bispo

Você provavelmente já viu Ana Flávia Cavalcanti em algum momento na televisão. Depois de participar de “Além do Tempo”, “Malhação” e da série “Sob Pressão”, a atriz volta às teleninhas na novela “Amor de Mãe”, com a personagem Miriam, uma policial de personalidade forte. Mas o que nem todo mundo sabe é que Ana Flávia também usa a arte para criticar algumas esferas da sociedade.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

A carreira de Ana Flávia começou a dez anos, quando a atriz largou o curso de enfermagem para se tornar atriz. Formada pelo INDAC – Escola de Atores, ela decidiu passar algum tempo na França, onde estagiou no Théâtre du Soleil e na École Lecoq. Foi nesta época que Ana Flávia integrou o elenco de “Do Not Disturb”, de 2012, dirigido por Ivan Atall e que contava com a participação de Charlotte Gainsbourg, musa de Lars von Trier. “Tudo isso me possibilitou boas escolhas e um pensamento crítico em relação à carreira e personagens”, conta a atriz.

Ana Flávia Cavalcanti durante a performance "A Babá Quer Passear" - Foto: João Torres
Ana Flávia Cavalcanti durante a performance “A Babá Quer Passear” – Foto: João Torres

Mas Ana Flávia não usa apenas os filmes, séries e novelas para expressar suas opiniões sobre a sociedade atual. Por meio de performances artísticas feitas na rua, a atriz questiona como enxergamos e tratamos os prestadores de serviços domésticos. Foi depois de sonhar que era babá e que estava dentro de um carrinho de bebê gigante e rosa que Ana Flávia criou a obra “A Babá Quer Passear”.

“Essa imagem ficou na minha cabeça por dias, então decidi reproduzir esse sonho com o intuito de provocar a discussão sobre a invisibilidade da empregada doméstica no Brasil – afinal, a cena se repete quase diariamente: mulheres negras periféricas em situação de vulnerabilidade social e econômica atuantes no trabalho doméstico. E se os papéis fossem invertidos? Se a babá, agora, quisesse ser cuidada? E foi a partir daí que passei a fazer a performance em lugares públicos, para dar início a esse debate tão importante”, conta a atriz, que é filha de empregada doméstica.

A partir das experiências que vivenciou durante as apresentações, Ana Flávia criou o solo “Serviçal”. “Na apresentação, que inicia com o mesmo carrinho em cima do palco, peço para que alguém da plateia me tire da situação. Quando alguém se manifesta, convido pessoas negras do público a dividirem a cena comigo e compartilharem suas experiências. Foi uma forma que encontrei de ouvir mais e dar voz para outras pessoas que passam pela mesma situação, mostrando o que é ser trabalhador negro no Brasil”, explica.

Essa foi a forma encontrada por Ana Flávia para propor uma discussão sobre a condição do empregado doméstico no Brasil e as relações de trabalho relacionadas a população negra. “Mais do que uma mensagem para passar, é uma forma que encontro de lutar por mais direitos e igualdade social, dando visibilidade para essa questão. O público percebe muito rapidamente do que se trata e sinto que a provocação acontece, as pessoas contam suas histórias tanto como empregadas, quanto como contratantes. Os pontos que trago para análise são pertinentes dentro dessa luta por condições dignas de trabalho”, analisa.

Foto: Jorge Bispo
Foto: Jorge Bispo

Mais recentemente, Ana Flávia Cavalcanti produziu, dirigiu e atuou no curta “Rã”, criado ao lado de Julia Zakia. O filme é baseado em uma situação que a atriz vivenciou em sua infância e narra a história de uma mãe suas duas filhas, que tinham uma relação precária com a comida na periferia e consumiam itens vencidos, que eram vendidos em um mercadinho. Isso acontece até uma noite em que tudo muda, com a chegada de uma nova carga de alimentos fora do prazo de validade.

O curta já foi aceito em cinco grandes festivais de cinema: Panorama Internacional Coisa de Cinema 2019, de Salvador; Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul e Festuval Curta Cinema, do Rio de Janeiro; Festival de Cinema Goreé, no Senegal, e 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Neste último, Ana Flávia ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem.

“Acho importante e fico feliz com essa reposta de que o filme é desejado, de que os curadores estão pautando produções com narrativas afrocentradas. Um passo necessário na produção audiovisual brasileira. Me sinto feliz e bem confiante que esse tipo de alcance inspire outras mulheres negras e pobres a investirem em um sonho”, explica a atriz sobre a importância de participar de tantos festivais.

Foto: Jorge Bispo
Foto: Jorge Bispo

Ana Flávia Cavalcanti relembra que os avanços da representatividade da população negra no audiovisual ainda está muito distante dos números que representam a maior parte da população brasileira, de acordo com o último censo do IBGE. “Se pautarmos representatividade, essa conta deveria ser de 53% de toda a equipe técnica, artística e o elenco de pessoas negras”, explica.

Durante nossa entrevista, Ana Flávia me lembra que a sociedade frequentemente impõe uma responsabilidade surreal a atrizes e atores negros, de representar uma parcela que é muito maior e diversa do que a que enxergamos em produções da indústria do entretenimento. “Acho um pouco perigoso essa responsabilidade ‘maior’ por ser uma atriz negra, que fala em nome de todos os negros. Precisamos levar em consideração a massificação da população negra, esse tratamento que todos são iguais, sem guardar as particularidades de cada ser,  é um sintoma muito forte do racismo estrutural”, acrescenta.

“O ambiente artístico reflete o ambiente sociopolítico no qual estamos inseridos. Não muda porque é o teatro ou a televisão. Reproduzimos padrões adoecidos em todas as esferas da sociedade. O que acontece no meu caso – e no de alguns artistas que têm conquistado voz – é que as injustiças estão sendo denunciadas e isso é muito importante. Nossa presença transforma estruturalmente os espaços, porque, quando estamos nesses lugares, chegamos com tudo o que nos constituiu até aquele momento. Muita ancestralidade que vem junto para transformar o que já não é mais aceitável”, conclui.

Leia mais:
Mulheres que inspiram: a trajetória humanitária de Audrey Hepburn
Mulheres que inspiram: Karlie Kloss comanda projeto feminino de tecnologia
Mulheres que Inspiram: Angela Davis é ícone do feminismo negro