Foto: Arquivo Pessoal

O gosto pelas atividades sociais é herança dos pais, ambos médicos dedicados ao trabalho em áreas de vulnerabilidade. Mas, Leca, como Ana Letícia Nery prefere ser chamada, não acreditava que realmente cursaria medicina.

Antes de se aventurar pelo mundo como integrante da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), ela bem que prospectou a arquitetura. Para a nossa sorte, escolheu cuidar de pessoas. Formou-se pela Universidade de São Paulo, viajou para destinos como Líbano, Turquia, Irã, Índia, fez voluntariado em Uganda e participou de um projeto de pesquisa em Harvard, nos Estados Unidos.

Pronta para a ação, candidatou-se ao front. A missão de estreia pelo MSF foi em um campo de refugiados nas fronteiras entre o Sudão do Sul e a Etiópia. “Ali, eu entendi que o meu papel não era apenas o de salvar vidas, mas o de criar um espaço com menos desigualdade e mais acesso ao sistema de saúde”, diz.

Depois, ela partiu para a Líbia, país devastado por uma guerra civil que se estende desde 2011, ano da deposição do ditador Gaddafi. “Talvez este tenha sido o meu pior momento. A Líbia se transformou em um corredor de passagem para quem pretende sair clandestinamente do continente africano para o europeu. Então, o tráfico humano foi institucionalizado. Os centros de detenção são terríveis, há estupros, trabalhos escravo e infantil, aliciamento… Cenário desolador. O pior é ter consciência que são os países do lado de lá do Mediterrâneo que financiam essa barbárie.”

Quem imagina que ela parou por aí, se engana. Decidida a fazer a diferença, Letícia ainda esteve em zonas de guerra no Iêmen (por duas vezes) e no Iraque, fez pausa em Moçambique, após a destruição causada pelo ciclone Idai, e estendeu a sua jornada até a Nigéria e a Faixa de Gaza, na Palestina.

De volta ao Brasil, ela atua no ICESP (hospital público especializado no tratamento do câncer), em unidades básicas em comunidades carentes e está na coordenadoria do projeto de emergência Covid-19, focado em pessoas em situação de rua. “É preciso lutar pelo direito à dignidade e ao acesso à saúde. O SUS não pode ser deixado de lado, ele é uma estrutura essencial e necessária ao povo”, finaliza.