Foto: Arquivo Pessoal

Muito antes de Cabral atracar as suas naus por aqui, Pindorama – rebatizada de Brasil pelos colonizadores – era terra de pelo menos 3 milhões de indígenas. Hoje, as estatísticas apontam que esta população não ultrapassa dos 810 mil.

Com o encolhimento da cultura nativa, em 1979, nasceu a Associação Nacional Indigenista (Anaí), sediada na capital da Bahia, com a meta de promover e respeitar a autonomia educacional, política e econômica dos povos indígenas, assim como constituir alianças para a recuperação das terras e pelo usufruto exclusivo dos bens naturais nelas existentes.

Diretora da ONG, Ana Paula Ferreira de Lima é engajada na educação de meninas indígenas e autora do projeto que mereceu o acolhimento da Rede Gulmakai, liderado por Malala, a garota paquistanesa que sofreu um atentado por frequentar a escola – o que é proibido pelas leis do Talibã.

Ela é personagem da coluna semanal “Mulheres que Inspiram”. Leia a entrevista na íntegra:

Quais são os desafios da educação nos dias de hoje?

Muitos são os desafios para a educação nos dias de hoje, falando especificamente sobre a pandemia, a Covid-19 só veio escancarar as dificuldades e as barreiras que o Brasil enfrenta na área. Não tem formação adequada para os professores, salários baixos, contextos muitas vezes desafiadores para profissionais da educação conseguirem trabalhar. Fica muito complicado tentar fazer um plano de aula adequado durante a pandemia, grande parte dos alunos de escola pública não tem acesso a uma internet de boa qualidade a equipamentos que permitam que o aluno tenha um bom desempenho por meio do ensino a distância.

Como você vê esse período de estudo online, antecipado pela pandemia?

Vejo o grande fosso digital que existe no Brasil e a desigualdade e a exclusão tecnológica que esse período vem demostrando para a sociedade brasileira. Professores e alunos completamente despreparados para lidar com essa situação.

O Brasil está preparado para a revolução 4.0? Quais são os maiores desafios para a educação no futuro?

Não, o Brasil não está preparado para a revolução 4.0. Acredito que um grande desafio é conseguir aprovar o novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) para garantir recursos mais justos para a educação básica. Sem financiamento adequado para a educação é impossível pensar em melhorias.

Como democratizar o acesso à educação?

Garantindo uma educação pública, segura e de qualidade para a população brasileira que está em idade escolar.

Quais são os desafios dos educadores?

São inúmeros, a começar pelos baixos salários, falta de motivação para trabalhar, ausência de um plano de carreira, desmoralização perante a sociedade brasileira, falta de estrutura nas escolas, sobrecarga de trabalho. Falta de perspectivas de melhoras para as próximas décadas.

O que tem de bom na educação brasileira? E o que pode ser melhorado?

O que é bom é que a escola pode ser acessada pelas pessoas que precisam do ensino publico para se educarem no Brasil, para ter uma formação técnica ou universitária. Muita coisa pode ser melhorada, como a base salarial dos professores, a infraestrutura das escolas, o acesso à internet e aos computadores, bibliotecas mais equipadas, quadras esportivas, laboratório de ciências, etc.

O atual governo criou diversos percalços na educação. Como você vê essas ações na prática?

Vejo que as próximas gerações irão sofrer com profissionais com má formação em diversas áreas do conhecimento ou até mesmo a ausência de alguns profissionais, ausência ou baixo incentivo a pesquisa em diversos campos. Sofreremos, com certeza, um imenso impacto profissional, cultural e científico.

Quem são os educadores que inspiram nos dias de hoje?

Todos os educares me inspiram, pois estar na sala de aula nos dias de hoje é realmente um grande feito para esses profissionais.

Qual seria a sua ideia para melhorar a educação brasileira?

Garantir o financiamento adequado para a educação básica, garantir salários justos para os profissionais, investir em estrutura, garantir um bom acesso às escolas, com transporte de qualidade, investir nas escolas do campo, em tecnologia e na qualificação dos professores.

Se você pudesse indicar, quem seria o seu ministro da educação?

Nenhuma pessoa séria e competente aceitaria um cargo de ministro da educação nesse atual governo.