Dona Onete – Foto: Arquivo Pessoal

Dona Onete tem um carisma que contagia, uma luz própria que se deixa transpassar até mesmo por telefone. Cheia de histórias, a cantora e compositora de 81 anos culpa a lua, o sol e a água por moldar seu humor ao espelho de seu Pará – há quem diga que é um povo energizado.

“Agora é ruim porque a gente só sabe falar beijando, abraçando”, conta ela, que passa a quarentena ao lado da família, dividindo-se entre Mosqueiro (distante 75 km da capital) e Belém. Está louca para voltar aos palcos. Para esse ano, tinha shows agendados (incluindo turnê fora do Brasil, em festivais da Europa). Mas ela nunca teve pressa.

Conhecida como “rainha do carimbó” e influenciada pelos boleros românticos, o trabalho na música só chegou na terceira idade, depois de se aposentar como professora, nos idos de 2000 – antes, chegou a ser secretária de Cultura de Igarapé-Miri.

Chamada de deusa, rainha e princesa, humildade tem de sobra. “Vou levando, achando graça, não sou nada. Sou uma aposentada que faz parte dessa história da cultura. Não sou catedrática.” Ouviu a vida toda para largar as aulas de História. “Por que ainda vai dar aula, ganhar uma mixaria?”, recorda.

Antes, foi desencorajada pelo primeiro marido. Mas sentia que precisava cumprir a missão como mestra para sacolejar em outra profissão. “Se desse certo, tudo bem. Se não, não ia chorar. E deu”, comemora.

Depois de seis meses refletindo, às vezes chorando, chegou a hora de colocar a mão na massa. Está produzindo dois álbuns: um só de boleros e o outro que chama de ritmo maluco, recordação dos tempos de criança, no interior.

Passada a pandemia, quer repetir o sucesso da “garça namoradeira”, como canta em “No Meio do Pitiú”, sucesso do qual tinha medo antes de estourar por causa do termo que se refere ao forte odor de maresia. “Agora vou mostrar o que é bagaceira”, diz.

É a celebração daquela “ladainha” (ou superexposição) que vem depois de beber muito. “Se alguém tomou muito açaí, vai dormir. Se bebeu cachaça, vai voltar à noite. Ali nunca para, é uma bomba-relógio”, diz ela sobre a região do mercado Ver-o-Peso, em Belém. “Já joguei um trechinho na internet e bombou”, conta, dizendo que precisa de auxílio com a tecnologia.

“Não quero entrar (na web) porque perco toda a minha identidade. Meu dicionário é outro. É muito caboclo, apesar de falar o português correto”, gaba-se.

Para uma vida mais longeva, acredita na preservação da natureza e alerta sobre os riscos do consumo de álcool, valendo-se da experiência de quem perdeu amigos para a bebida. Também tem um recado: se tiver uma pontinha de terreno, plante o próprio alimento para uma alimentação mais saudável.

Se um sonho antigo era ver os bisnetos, hoje eles já estão criados. Agora, tem vontade de fazer seu próprio museu em Mosqueiro para guardar suas coisas. Se a pressa é a inimiga da perfeição, para Dona Onete, calma é um bom conselho – e sua aliada, sempre.