Foto: Divulgação

Quem disse que é preciso ter muitas décadas vividas para fazer a diferença? Prova disso é a surfista baiana Catarina Lorenzo, que, aos 12 anos, tem feito a sua voz ecoar mundo afora. E como a educação se faz em várias frentes, inclusive nas questões ambientais, essa foi a praia escolhida por Catarina.

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Ao lado da ativista sueca Greta Thunberg, ela denunciou o Brasil e outros quatro países (Alemanha, Argentina, França e Turquia) ao Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças por causa do aumento eminente da poluição. Em sua cidade natal, Salvador, Catarina também tem se mostrado firme quando se coloca contra projetos de avenidas que cortam áreas de matas nativas, canalização de rios e o aumento do esgoto sem tratamento jogado diretamente no mar.

“Os adultos conseguiram criar o problema, e pelo visto poucos estão do nosso lado, então já que eles não vão fazer nada, nós queremos atuar para não sofrer as consequências no futuro, porque queremos ter um futuro. Eles tiveram o futuro deles, nós queremos ter o nosso próprio. São as crianças que não vão poder tomar banho de rio, não vão poder tomar banho de mar, vão ter dificuldade para respirar, vão perder as suas casas, não vão ter água porque as chuvas vão diminuir, não vão poder plantar e colher as suas próprias comidas. Esse futuro depende da educação, entre elas, a ambiental”, disse durante a conferência da ONU.

Catarina é personagem da coluna semanal “Mulheres que Inspiram”. Leia a entrevista na íntegra:

Como você entrou no ativismo ambiental?

Desde bem pequena meus pais me ensinaram que temos que cuidar do meio ambiente. Ajudei-os a lutarem pela criação do parque do Vale Encantado, em Salvador, uma floresta de mata Atlântica. Também participei da luta contra a canalização dos rios, dos protestos para não deixar canalizar o rio Jaguaribe, mas não conseguirmos ganhar essa briga… O rio foi canalizado. Fiz várias limpezas na praia com a minha professora de surfe, que é bióloga, mestre em Ecologia e tem uma associação de surfe e de ecologia em Stella Maris, na praia onde treino. Ela organiza os campeonatos (faturei o meu primeiro título aos oito anos, quando fui campeã da categoria sub 12), além de aprender sobre vegetação nativa, cuidados com as tartarugas marinhas e até compostagem. Meu pai é biólogo e surfista e minha mãe é veterinária. Ao lado deles faço trabalhos ambientais e sigo evoluindo em meus conhecimentos.

Quais são as suas preocupações para o futuro?

Para o futuro me preocupo se teremos oportunidades e experiências parecidas com as que os nossos pais tiveram. Claro que já existem limitações sobre tais experiências, um bom exemplo é tomar banho de rio, o que hoje é quase impossível, já que muitos rios nas grandes cidades estão canalizados ou poluídos. O que me preocupa é que ainda temos florestas, temos alguns rios não poluídos e ainda podemos nadar e usufruir do oceano. Mas com a velocidade de destruição e de impacto negativo que estamos causando ao meio ambiente receio que essas ações não poderão mais ser feitas. Também vejo o clima incerto, afetando o mundo todo de diferentes maneiras. Pessoas perdendo as suas casas, o mar invadindo a terra e as ilhas, doenças novas surgindo e milhões de outras consequências criadas por conta da crise climática… Também temo pelos seres vivos, animais e plantas. Mas os humanos não enxergam isso, eles só sugam e tiram materiais da natureza e em vez de retribuir o favor a ela, eles só causam impacto negativo.

Como enxerga esse momento de pandemia?

Esse é o momento para repensarmos os nossos atos e começarmos a refletir e entender que isso é um alerta. Nós já estamos sofrendo o impacto dos nossos próprios atos. Essa pandemia está causando muita tristeza, mas acredito que isso é uma lição. O planeta estava precisando de um descanso – ele estava no limite. É importante dizer que somos egoístas, sempre olhando apenas para os nossos umbigos. Precisamos focar no entorno, no coletivo.

Conte-nos como aconteceu o seu contato com a Greta.

Eu a conheci durante uma conferência sobre mudanças climáticas, realizada pela ONU. Gostei muito dela. A Greta é inteligente e uma grande inspiração para mim e outros jovens. Falamos de algumas alternativas para auxiliar o meio ambiente e como conter os avanços da destruição do planeta.

Como você descreve a política ambiental brasileira?

Na minha opinião, a política ambiental brasileira poderia melhorar. Acredito que o meio ambiente é a solução para muitos problemas, e sei que o Brasil deveria cuidar mais dessa riqueza que temos. O meio ambiente tem que estar em primeiro lugar na lista de importância de qualquer país. Não podemos deixar que criem leis que coloquem a natureza em risco. Temos que criar leis para proteger a vida, e criar um país mais sustentável.

Se pudesse mudar alguma coisa, o que seria?

Acabaria com as mudanças climáticas, com o desmatamento… Porém, entre todas as escolhas, eu mudaria a consciência das pessoas e como elas são conscientizadas. Faria um tipo de ensino em que dessem atenção a temas como educação ambiental e educação sobre sustentabilidade.

Quem são os seus exemplos na atualidade?

Valorizo pequenas atitudes. Então, respeito os catadores de lixo e vários empreendedores que fazem a diferença. E, claro, os meus pais são os meus maiores exemplos.