Beatriz Fragelli – Foto: Divulgação

Jornalista formada, Beatriz Fragelli sempre teve afinidade com a moda – mas nada que a ligasse ao consumo desenfreado; para ela, roupa de verdade é aquela que sobrevive ao tempo com qualidade e autenticidade.

Porém, o flerte fashion só aconteceu após o nascimento do seu primeiro filho, quando a repórter começou a enxergar outros horizontes. Uma temporada em Londres alavancou os estudos em alta-costura e alfaiataria, e consolidou o ateliê de vestidos de noivas, que fez sucesso por uma década. Depois disso, ela deu contornos à grife própria, com foco em mulheres com mais de 50 anos, e já se lança na aventura de tramar a coleção de estreia no segmento de luminárias.

Entre tantas empreitadas, Bibi nunca deixou de lado a vontade de atuar no campo da solidariedade. “Sempre amei dormir no frio. Mas todo inverno era a mesma história: enquanto eu curtia a minha cama quentinha, não parava de pensar nas pessoas dormindo nas calçadas. Então, vinha à memória uma cena horrível – policiais atacando moradores em situação de rua com água, e depois confiscando cobertores, colchões e barracas.”

Da necessidade de acolher o próximo, a estilista idealizou um saco de dormir impermeável e capaz de proteger das intempéries. “Escolhi o mesmo náilon preto que havia usado no trench-coat que fiz para encarar o outono britânico. Assim que tive a ideia, liguei para a Patrícia Curti, que trabalha em ações sociais. Ela gostou do projeto e disse que me ajudaria com a distribuição. Sugeriu apenas que trocasse o zíper pelo velcro, para que a peça pudesse ser aberta ou fechada rapidamente. Também alertou sobre o constante furto de pertences que os vulneráveis estavam sujeitos durante o sono – o que me fez criar um bolso secreto para guardar mochila e documentos, e que serve como travesseiro”, explica.

O item, batizado de “casulo”, ainda pode ser configurado para abrigar um casal. “Apresentei o modelo nas redes sociais, no dia 16 de abril de 2021. Precisava arrecadar dinheiro para a compra do material e para o pagamento justo das costureiras. Em menos de uma hora fui procurada pelos jornalistas Claire Castellano e Renato Levi e, junto com Patrícia Curti, formamos o ‘Casulo Pra Rua‘. As doações começaram a pipocar e chamei a Yvone Furtado, outra amiga engajada, para afinar o conceito (devidamente registrado no Creative Commons permitindo o seu uso não comercial).”

Até agora, 2.429 doadores contribuíram para a fabricação de 2 mil casulos. “Mas temos outros 2 mil em produção”, conta Bibi.