Chef Celinha Miranda Della Colletta – Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Ovacionada de pé ao ser condecorada na Academia de Culinária da França, em 2016, a chef Celinha Miranda Della Colletta passou o resto da noite recebendo com espanto os cumprimentos de todos os presentes. Naquela hora ela ainda não sabia, mas era a primeira mulher a entrar para a instituição centenária. Seu feito era tão inusitado que por três vezes naquele evento disseram que ela estava no lugar errado.

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Devido a emoção do momento, Celinha demorou mais de um ano para entender o que havia acontecido naquela noite. O primeiro homem a lhe abordar disse que a plateia era para o outro lado. Em seguida, a secretária da academia disse mais uma vez que ela estava no espaço errado. E, por fim, o próprio presidente da instituição, chef Fabrice Prochasson, tentou lhe dizer que ali não era o seu lugar. Mas aquele era sim o lugar de Celinha, esse e tantos outros que ela já conquistou.

Nascida no interior de São Paulo, no município de Barra Bonita, a chef contou que embora nunca tivesse pensado em fazer culinária, sempre gostou de cozinhar. “Eu era daquelas que viajava com os amigos e ficava responsável pela cozinha, então sempre estava envolvida com gastronomia de alguma forma”, comenta. Mas a ideia de cursar algo nessa área era tão distante que, antes disso, Celinha chegou a se formar em letras e trabalhar como professora de inglês.

“Até que eu vi que as coisas não estavam mais dando certo na escola em que eu trabalhava. O Gustavo, que já era meu namorado, também não estava muito feliz com o que fazia e como os dois gostavam bastante de cozinhar pensamos: por que não fazer gastronomia?”, conta ela sobre a parceria com o, hoje marido, chef Gustavo Della Colletta.

Diferentemente dela, a paixão de Gustavo pela gastronomia surgiu mais tarde, talvez até junto com a paixão por Celinha. O marido só começou a se aventurar na culinária quando os dois foram morar juntos. A partir daí, viraram a dupla perfeita, tanto na vida quanto na cozinha. 

Foi então que o casal começou a procurar cursos na área, mas, para Celinha, fazer outra faculdade estava fora de cogitação e seu orçamento não bancava um curso fora do Brasil. “O interessante foi que meu sogro apoiou tanto a nossa ideia que topou pagar para a gente, e assim fomos parar na Le Cordon Bleu, em Paris”, relembra ela sobre a decisão tomada em 2005 que os levaram a um dos melhores cursos de gastronomia do mundo, na França.

Chef Celinha Miranda Della Colletta é formada pela Le Cordon Bleu – Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Nos meses que se seguiram, Celinha e Gustavo tiveram uma das experiências mais transformadoras de suas vidas. Isso não só pela escola de culinária em que estudavam, mas também pela própria aventura de ir para um país distante da família, dos amigos e de tudo que eles conheciam até então. “Isso acabou fortalecendo até a nossa relação, ficamos ainda mais parceiros.”

Depois de formados na famosa escola de culinária, ambos tiveram seus respectivos estágios. Celinha chegou inclusive a voltar à Le Cordon Bleu, para trabalhar com os chefs que lhe deram aula. Tudo isso durou pouco menos de dois anos, até que o casal decidiu abrir o próprio restaurante, bem na cozinha da casa deles.

“Acaba que a rotina de restaurante é muito cansativa, quando você está em casa só quer dormir. Tínhamos acabado de comprar um apartamento lá em Paris e um amigo disse para a gente fazer uma cozinha aberta, que desse para todo mundo ficar enquanto cozinhávamos. E durante a construção do apartamento tivemos essa ideia de começar a cozinhar em casa mesmo, não só para os amigos”, afirma. 

Assim surgiu o Chez Nous Chez Vous, que em uma tradução literal significa: minha casa sua casa. “Nós recebemos as pessoas no nosso apartamento, em grupos com mínimo de quatro e máximo de dez convidados, e deu super certo. Especialmente para os brasileiros, a gente recepcionou muitos brasileiros”, conta. Segunda ela isso se deu muito porque em Paris quase tudo fecha muito cedo, e seu restaurante era uma das poucas opções que ficavam até tarde.

A liberdade e a intimidade de se sentir em casa são grandes diferenciais do restaurante do casal. O problema é que tudo isso teve que ficar suspenso com a pandemia, receber as pessoas em casa não era mais uma opção. Com isso, eles decidiram voltar para o Brasil e passar uma temporada, momento que utilizaram para colocar o sonho da cachaça Alzira em prática.

“O projeto surgiu na mesa de almoço da família enquanto bebíamos cachaça. Eu e Gustavo já queríamos produzir alguma coisa orgânica e acaba que tanto a minha família quanto a dele gosta muito de cachaça. Então não dava para ser outra coisa”, comenta. O primeiro passo foi se especializar, eles fizeram alguns cursos de destilaria, incluindo um na Esalq em Piracicaba, e entraram de vez no mundo da cachaça.

Celinha Miranda Della Colletta foi a primeira mulher a entrar para a Academia de Culinária da França – Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal 

Porém, assim como o Chez Nous Chez Vous, o casal não queria produzir de qualquer jeito, então a segunda etapa foi entender o que eles queriam da destilaria e como eles gostariam que a Alzira fosse conhecida. “Nós visitamos vários alambiques para entender todo o processo de produção da bebida, e uma coisa que descobrimos nisso foi como nós não gostaríamos que nossa cachaça fosse vista”, afirma. 

Com um ambiente limpo, aconchegante e sustentável, a cachaça Alzira chega ao mercado em consonância com os princípios de Celinha, que também preza por um trabalho social além da produção da bebida. “Estamos em Torrinha, cidade do avô do Gu, que tem 10 mil habitantes. Não existe uma indústria ou algo que alimente o mercado aqui, então nós também estamos gerando emprego e renda para as pessoas.”

Outro aspecto social do trabalho de Celinha ganha forma no Instituto Ierê, ONG que ela administra com o marido em sua cidade natal, Barra Bonita. Atualmente, 14 crianças são auxiliadas pelo instituto que já funciona há cerca de três anos. “Nós utilizamos nossos recursos e contamos com alguns colaboradores, mas a ideia é que agora alguns fundos da destilaria também sejam direcionados a esse projeto”, explica ela sobre o desejo de que a Alzira seja mais do que uma mera cachaça. 

Com tantos projetos, Celinha conta com a ajuda de muita gente e faz questão de ressaltar isso. “Para começar, nós estamos trabalhando com nossos amigos mais próximos, como o Adriano Assis que é o CEO da destilaria. A ideia sempre foi que nós fôssemos embaixadores da cachaça pelo mundo, afinal ainda voltaremos a viajar e a cuidar do nosso restaurante em Paris assim que as coisas melhorarem”, afirma. Deixando clara a paixão por viagens que a move desde mais jovem, na época em que percorria o Brasil com os amigos, mas “agora o meu mochilão é com a Alzira”.

A chef ainda deu um conselho para quem está começando: acredite em você e no seu potencial. “Vai dar medo? Vai, mas vai com medo mesmo”, diz, entre risadas, o que costuma ouvir da psicóloga. 

“Desde pequena eu sou assim, vim de uma família muito humilde, se tivesse acreditado quando falaram que eu não daria certo talvez não estivesse aqui, mas sempre falei: eu vou dar certo. E é isso, a gente precisa acreditar na gente”, lembra. Celinha sabe que está abrindo novos caminhos com tudo que conquistou até aqui, e seu trabalho agora é ter certeza de que não será a única a percorrê-los.