Mulheres que Inspiram: chef Margot Janse quer erradicar a fome de crianças na África do Sul

Em recente passagem pelo Maní, em São Paulo, a aclamada holandesa fala de sua batalha

by redação bazaar
Foto: Ilana Lichtenstein

Foto: Ilana Lichtenstein

Por Beatriz Marques

O caminho era sempre o mesmo nas manhãs da chef holandesa Margot Janse. Bastava pegar uma estrada e, no fim, virar à esquerda para chegar ao estrelado restaurante Tasting Room, do hotel Le Quartier Français, na pequena Franschhoek, uma das cidades mais gastronômicas da África do Sul. Mas, quando decidiu alterar o percurso, não imaginou que também mudaria sua trajetória profissional e pessoal. Assim que virou à direita no final da estrada, viu uma township, as chamadas áreas pobres habitadas por negros no país, e encontrou um cenário devastador.

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“Era muito angustiante ver a miséria e não fazer nada”, conta Margot, que esteve em São Paulo em outubro para cozinhar, ao lado de Helena Rizzo, no projeto Segundas no Maní. Esse foi o gatilho para que a chef fundasse, em 2009, o Isabelo Charity, projeto voltado para alimentar crianças carentes em escolas públicas da região. “Afinal, nenhuma criança consegue aprender de estômago vazio.”

Com a chegada do Isabelo (que significa “compartilhar é cuidar” em xhosa, uma das línguas oficiais da África do Sul), Margot começou a ter uma vida “dupla” durante muitos anos: praticava alta-gastronomia no Le Quartier Français – para o qual trabalhou entre os anos 1995 e 2017, e seu Tasting Room ficou na lista do World’s 50 Best Restaurants por 12 anos consecutivos – e preparava muffins nutritivos para crianças de uma creche local.

Para tal tarefa, contava com a ajuda dos hóspedes do hotel, que eram convidados para uma aula de cozinha. “Eu queria conectar os turistas com a realidade do país e dar possibilidade para eles retribuírem algo à comunidade”, explica. A primeira fornada resultou 70 bolinhos, número que só aumentou graças ao interesse dos hóspedes pelo trabalho social.

Com o tempo, doações e mais doações chegaram e encorparam o projeto. No último jantar para arrecadar fundos, em fevereiro de 2019, em Bruxelas, Margot reuniu 25 chefs de peso, como o francês Alain Passard e o peruano Virgilio Martínez, e abasteceu o cofre do Isabelo com 1 milhão de rands (cerca de R$ 278 mil).

Hoje, o número de crianças atendidas pelo projeto é surpreendente: são 1.500 que recebem café da manhã e lanche diariamente em cinco escolas de Franschhoek (incluindo o muffin, claro). Mas não foram somente as crianças impactadas com o Isabelo. Margot Janse foi a maior delas. A forma de se relacionar com a comida mudou completamente a vida da chef.

No Tasting Room, ela ousou ao usar ingredientes típicos da África do Sul, em uma época em que os restaurantes só valorizavam o que vinha do exterior – o chá honeybush, a carne seca biltong e a erva buchu são alguns exemplos que Margot usava e trouxe na mala para o jantar no Maní. Mas, depois do Isabelo, a chef passou a mostrar, por meio dos pratos, a realidade de sua comunidade. “Meu menu degustação começava com um pão de milho servido em uma lata de sardinhas, para lembrar aos clientes que, a poucos quilômetros do hotel, muitas famílias só teriam isso para jantar.”

Hoje, aos 50 anos, Margot sabe como foi difícil sua chegada ao continente africano, em 1989, quando presenciou o fim do apartheid e teve de lutar para provar seu potencial na cozinha, já que é autodidata e mulher. E sua batalha, hoje exclusivamente para o Isabelo, parece não ter fim. “É uma obrigação do cozinheiro ter responsabilidade social. Se não tiver essa preocupação, está trabalhando para quê? Só para criar pratos bonitos e fazer dinheiro? Em países como Brasil e África do Sul, acho inaceitável”, sentencia.

Agora, Margot sonha montar um centro para receber doações de alimentos de restaurantes e hotéis de Franschhoek. “Sei que, se nós cozinheiros nos organizarmos, faremos a diferença.”

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