Mulheres que Inspiram: conheça Helena Saad, fundadora do coletivo Aparaitinga
Helena Saad e algumas mulheres que fazem parte do projeto Aparaiting – Foto: Divulgação/Angelo Pastorello

Durante uma viagem à São Luiz do Paraitinga, Helena Saad contou com a ajuda de duas mulheres para aprender a criar peças de crochê. Ao se deparar com o talento dessas artesãs e com o pouco conhecimento que a cidade oferecia para elas, percebeu ali uma oportunidade de dar liberdade e independência financeira para essas mulheres.

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Foi assim que nasceu a Aparaitinga, um coletivo de mulheres da zona rural de São Luiz do Paraitinga capaz de contar uma história de força e renovação a cada peça. “Hoje em dia, temos 22 artesãs locais à frente da confecção das peças”, conta a fundadora do projeto.

Na coluna Mulheres que Inspiram desta semana, conversamos com Helena sobre o projeto que possibilitou uma transformação financeira, de autoestima e de oportunidades para diversas mulheres. Leia o papo na íntegra abaixo:

Mulheres que Inspiram: conheça Helena Saad, fundadora do coletivo Aparaitinga
Helena Saad usando peça produzida pela Aparaitinga – Foto: Reprodução/Instagram/@aparaitinga

Como surgiu a ideia do projeto?

Conheço e praticamente moro em São Luiz do Paraitinga desde pequena, a cidade sempre me encantou muito e não é à toa que é um dos meus lugares favoritos no mundo. Em 2016, durante uma de minhas férias lá na fazenda, decidi que queria aprender crochê para fazer um top que pudesse usar no verão. Duas mulheres maravilhosas que trabalhavam em casa decidiram me ajudar e logo me apaixonei pela arte do crochê. Ao me deparar com tamanho talento e habilidade dessas artesãs e tão pouco reconhecimento e oportunidades que a cidade oferecia para elas, comecei a pensar em como poderia ajudar a mudar esse cenário, dar mais liberdade e independência financeira e até recuperar sua autoestima através do que elas faziam de melhor, com qualidade, apreço e amor. Nasceu, então, a Aparaitinga: um coletivo de mulheres da zona rural da cidade de São Luiz do Paraitinga capaz de transformar cada peça em um poder pessoal e contar uma história de força e renovação.

Como funciona a criação e confecção das peças?

Eu sou responsável por desenvolver os modelos. Costumo me inspirar muito nas viagens que fiz, nos lugares que visitei – sua arte, história e cultura – e eles como me marcaram. Sempre coloco desajeitadamente as ideias no papel e busco desenvolver com a artesã que tem o perfil da peça uma versão piloto. Depois, vejo como ela fica no corpo, se cumpriu minhas expectativas ou se necessita alterações no modelo ou cores. Assim que a peça é aprovada, ela passa a ser produzida por uma quantidade limitada de mulheres para que os modelos sigam o mesmo padrão, já que o crochê é uma produção artística e única de cada pessoa, umas com pontos mais largos e outras com pontos mais apertados.

Qual material é usado na confecção das peças? Quanto tempo uma peça demora para ser feita?

Todas as peças são feitas de maneira artesanal e com materiais de altíssima qualidade, que são oferecidos para as mulheres sem nenhum custo para que elas tenham a oportunidade de produzir da melhor forma todas as peças. O material usado na confecção das peças são lãs nacionais e importadas, exclusivas e de excelente procedência, como, por exemplo, a lã merino. Em relação ao tempo de produção de uma peça, por ser um trabalho a mão, a artesã demora entre 10 e 15 dias, dependendo da peça que será produzida, do estoque de materiais disponíveis e de sua demanda.

Mulheres que Inspiram: conheça Helena Saad, fundadora do coletivo Aparaitinga
Peça produzida pela Aparaitinga – Foto: Reprodução/Instagram/@aparaitinga

A indústria do fast fashion criou condições insustentáveis de trabalho e remunerações injustas. Pensando na questão financeira do projeto, qual porcentagem cada artesã leva pela venda de uma peça feita?

Bom, como o projeto surgiu com o intuito de promover a independência financeira dessas artesãs através da valorização de sua mão de obra, não acho justo ou coerente que eu precifique o trabalho alheio. A partir disso, estabelecemos um sistema no qual as mulheres recebem os materiais necessários e as demandas que a marca precisa. A própria artesã me passa o valor que ela acredita que seja o justo pela sua confecção. Depois de que a peça é produzida, pago o valor estipulado previamente pelo seu trabalho, fazendo com que eu corra o risco da venda e não elas.

Qual história te marcou mais durante a troca com essas mulheres? Quais transformações vocês enxergam na vida delas?

São muitas! Uma que me emocionou muito foi quando uma de nossas artesãs, quando teve sua primeira renda, foi na mercearia da Sebastiana (outra integrante do projeto) e comprou doces e salgadinhos para dar para os seus filhos. Ela contou que foi a primeira vez que gastou seu próprio dinheiro com os filhos, porque antes só o marido conseguia.

Para mim, que acompanho elas de perto desde o começo, é muito gratificante ver as transformações em suas vidas. Ver elas se sentindo mais úteis, entendendo que são capazes de conquistar o que desejam, recebendo seu próprio dinheiro sem depender de ninguém através do reconhecimento e valorização do seu trabalho, tudo isso mudou a cabeça dessas mulheres e o jeito que elas se enxergam e isso me traz muita alegria. Hoje, vejo que elas têm sonhos e perspectivas, conseguem colocar Internet dentro de casa, estão fazendo cursos para se profissionalizar ainda mais e até construindo seus lares, se tornando cada vez mais, donas de si.

Mulheres que Inspiram: conheça Helena Saad, fundadora do coletivo Aparaitinga
Helena Saad – Foto: Divulgação/Angelo Pastorello

O handmade tem aparecido nas passarelas de grandes grifes. Vocês identificam uma maior valorização e busca pelas peças artesanais?

Sim, com certeza! O surgimento do conceito de slow fashion dentro do mundo da moda, como uma alternativa mais sustentável e consciente tem se disseminado cada vez mais e, portanto, as buscas por marcas que atendem esse estilo de produção têm aumentado. Essas mudanças de hábitos de consumo têm levado os clientes a priorizar as produções locais, de pequena escala, que valorizam a mão de obra e recursos locais e entendem que o preço do produto final incorpora desde os custos sociais até a exclusividade e arte de cada peça.

Isso nasceu de maneira orgânica pra nós. Buscamos pelo conforto e justa valorização de quem produziu. Acho que por isso foi natural.

Quais são os planos para o futuro?

Expandir cada vez mais a marca e fazer com que tanto os produtos como as histórias que eles contam sejam cada vez mais reconhecidos. A longo prazo, meu maior objetivo e sonho é internacionalizar a Aparaitinga e conseguir apresentar a marca para alguma Fashion Week, levando São Luiz do Paraitinga, um lugar tão especial, e sua arte para o mundo.