Mulheres que Inspiram: conheça Mônica Calazans, a primeira vacinada do Brasil
Foto: Getty Images

O último domingo (17.01) vai entrar para a história do Brasil e, junto com ele, o nome de uma mulher negra também ser gravado na memória da superação de uma das piores épocas enfrentadas pela humanidade: Mônica Calazans. A enfermeira do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, foi a primeira a ser vacinada contra o novo coronavírus no Brasil e emocionou milhares de brasileiros que esperavam ansiosamente pelo imunizante capaz de pôr fim ao isolamento social.

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Pouco depois da aprovação da Coronavac, vacina desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, para uso emergencial pela Anvisa, o Hospital das Clínicas de São Paulo iniciou a vacinação com a escolhida de honra. Com 54 anos, Mônica trabalha na UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Mesmo fazendo parte do grupo de risco – Mônica Calazans é obesa, hipertensa e diabética -, em maio, a enfermeira se inscreveu para trabalhar no Emílio Ribas, que, por causa da pandemia, havia abertos vagas no regime de CTD (Contrato por Tempo Determinado). Desde então, Mônica ia do bairro do Itaquera, na zona leste de São Paulo, até o Pacaembu para trabalhar na UTI, durante 12 horas em dias alternados, com leitos exclusivos para pacientes com Covid-19.

“Que a população acredite na vacina. Estou falando agora como mulher, brasileira, mulher negra, que acreditem na vacina. Vamos pensar no monte de vidas que nós perdemos, quantas famílias nós perdemos, quantos pais, mães, irmãos. Eu quase perdi um irmão também com Covid. E diante disso é que eu tomei coragem e participei da campanha da vacina”.

A trajetória de Mônica não encanta apenas por sua postura em frente a uma pandemia, mas por sua garra. Depois de trabalhar por 26 anos como auxiliar de enfermagem, voltou a estudar e se formou na faculdade de enfermagem aos 47 anos. Viúva, a profissional mora com o filho, de 30 anos, e concilia a vida profissional com a responsabilidade de cuidar da mãe de 72 anos.

Trabalhando na linha de frente, Mônica é a prova de que os cuidados básicos – como higienizar as mãos, usar máscara e manter o distanciamento, ações que ainda devem ser mantidas – funciona na luta contra o novo coronavírus. Vivendo esta realidade de perto, conseguiu preservar os dois familiares com quem tem contato direto e a si mesmo desta doença.

Em dezembro de 2020, a enfermeira foi homenageada pelo prêmio Notáveis CNN e, emocionada, compartilhou como é ser uma profissional na linha de frente. “Você segura a onda e tem que trabalhar. Você tem que segurar o seu psicológico. Na realidade, você não pode se abalar com tudo o que está acontecendo. Você tem que ser muito forte”, disse na época.

A importância da vacina e deste momento

Defensora do poder da ciência e da necessidade da vacina, Mônica foi voluntária na terceira fase de testes da CoronaVac e, na época, integrou o grupo que recebeu placebo. Em seu discurso após a vacinação, a enfermeira compartilhou que sofreu duras críticas na época de negacionistas.

“Fui muito criticada. Eu recebia piadinhas, memes, mas não dei sequer importância. Me falaram que eu era cobaia de uma pesquisa de vacina. Eu aprendi com uma pessoa no dia da vacinação que não sou cobaia e, sim, participante de pesquisa. E estou muito orgulhosa de tudo isso, porque meu nome está aí, no mundo inteiro: Mônica Calazans, 54 anos, negra, participante da pesquisa e primeira a ser vacinada”, disse em seu discurso à imprensa.

A imagem de uma mulher negra, que retomou os estudos em uma fase madura, trabalhadora na linha de frente auxiliando os afetados pela Covid-19 e com uma garra e esperança contagiantes emociona a todos que esperavam por esse dia há tanto tempo. Que Mônica seja exemplo para quem ainda não acredita na ciência, para quem sonha em avançar profissionalmente e para todos que deixaram de enxergar uma luz no fim do tunel. Como ela mesmo disse, a vacina fará finalmente o Brasil sair das trevas.