Foto: Divulgação
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Raras vezes, programas de humor são protagonizados ou roteirizados por mulheres – que, muitas vezes, também são alvo de piadas misóginas. Na contramão desta tendência, o Comedy Central lança o “A Culpa é da Carlota”, programa inspirado em “A Culpa é do Cabral” e que é a primeira mesa-redonda de humor integrada apenas por mulheres, entre elas, Cris Wersom.

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Atriz de formação, Cris acredita que o humor teve papel importante na sua vida desde muito nova. “A comédia foi um antibullying natural. Desde pequena, não me encaixava muito na escola e em outros lugares, até que descobri que era engraçada e que as pessoas olhavam para mim e me aceitavam, então foi como uma arma para chamar a atenção, já que não era a gatinha ou a melhor aluna”, lembra.

Mas Cris Wersom só percebeu que poderia tornar a comédia sua profissão depois que já estava dentro da Escola de Arte Dramática da USP, em São Paulo. Junto com Marianna Armellini, Renata Augusto e Sheila Friedhofe, formaram o grupo “As Olívias” e, logo depois de sua primeira peça, em 2005, o burburinho logo tornou as comediantes reconhecidas no meio. O grupo chegou a viajar com teatro, além de ter uma websérie e um programa no Multishow.

“Eu tinha 27 anos. Demorei para decidir que queria fazer teatro. Não acreditava que dava para ser atriz, achava que as pessoas nasciam artistas. Não sabia que era uma construção, que se você estudasse e se esforçasse, podia se tornar uma atriz, uma comediante”, conta Cris

A decisão de se tornar artista fez sentido para os amigos, mas demorou para ser aceita pela família. “Minha família ficou horrorizada, principalmente quando larguei um emprego no banco para entrar na EAD. Depois, obviamente, que deu muito errado e só quando finalmente apareci na TV, parece que tomaram uma pílula de esquecimento. ‘Sabia que ela era uma excelente atriz e que ia dar certo’. Mas sei que a família tem isso de se preocupar, hoje todo mundo é fã”, lembra.

Foto: Reprodução/Instagram/@comedycentral
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Além de atriz, Cris também é roteirista e irá comandar as conversas de “A Culpa é da Carlota”, que reúne comediantes de diferentes lugares do país: além da paulistana, Arianna Nutt, de Alagoas; Bruna Louise, do Paraná; Carol Zoccoli, do Mato Grosso, e Dadá Coelho, do Piauí, completam o elenco.

A comediante esteve presente na criação de “A Culpa é do Cabral” desde o início – por fazer parte do time de roteiristas – e conta que, a princípio, o programa não seria integrado apenas por humoristas homens, mas, por uma questão de agenda, acabou tendo este perfil. Foi então que surgiu a ideia de usar o mesmo modelo para criar uma versão feminina. “Gravar a temporada foi uma experiência muito deliciosa, para além da comédia, foi muito amorosa, ver a mulherada unida para fazer dar certo. Acho que isso vai transparecer na tela”, conta a roteirista que também escreve para o lançamento.

“Sempre digo que sou uma atriz que escrevo. Sempre gostei muito de escrever, fui uma leitora voraz, mas, assim como artista, achava que você nascia escritor. É impressionante como ensinam a gente a temer o sucesso. Não sei se é algo com a mulher, da sociedade, mas eu tinha medo, achava que era algo que algumas pessoas faziam. Foi também com ‘As Olívias’ que despertei essa vontade. Na vontade, comecei a escrever para ter mais trabalho e criar o que queria fazer. Mas fui sendo chamada para escrever para outras pessoas e, hoje em dia, vejo como a minha escrita me ajuda como atriz e vice-versa”, explica.

Foto: Divulgação
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Cris Wersom sabe como o universo da comédia pode ser cruel com as mulheres, mas acredita que ter iniciado nessa área dentro de um grupo totalmente feminino, a blindou de algumas experiências negativas. “Fomos bem recebidas pelos meninos, porque se encantavam por sermos um grupo feminino falando sobre esse universo. Então nunca senti muito isso, também porque não fiz stand-up, que é um lugar mais masculino”, reflete.

“Mas eu sinto, sim, que tem uma coisa externa. Quando é [feito por] homem, ninguém fala que é homem. Quando é mulher, já falam ‘Mas ela é bonita, não deve fazer comédia bem’ ou ‘Ah, mas mulher não é engraçada’ ou ‘Se é engraçada deve ser uma vagabunda’. Sempre tem um jeito de diminuir a comediante mulher. Vejo muito isso, mas também vejo que isso está mudando rapidamente. Acho que o fato de terem mulheres escrevendo, a narrativa feminina está mudando. Agora somos mulheres que escrevem sobre mulheres”, analisa.

Para o futuro, Cris promete algumas surpresas sobre projetos que ainda não pode revelar, além da próxima temporada da série “Homens”, para a qual também escreve.

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