Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara
Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara

Por Ana Ribeiro

Djamila Ribeiro tinha o desejo na vida de ser fotografada por Bob Wolfenson. “Joguei essa ideia para o universo”, conta ela. “Acredito nisso completamente. Sou do candomblé, confio muito nos orixás, cultuo, peço.” Jogar a ideia para o universo pode, quem sabe?, ter tido certa influência no rumo dos fatos.

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Por outro lado, Djamila fez sua parte. Se tornou uma filósofa de respeito, uma escritora de sucesso, uma das vozes mais importantes na discussão do racismo e do feminismo, especialmente do feminismo negro, no Brasil. Por isso tudo, enquanto ela aguardava o universo conspirar para que sua ideia se concretizasse, o fotógrafo também contava com o dia em que Djamila fosse tema de um de seus retratos. “Para mim, é uma realização”, festeja Djamila. “Olha como ela é linda”, exclama Bob, admirando a imagem que acabou de produzir.

De fato, Djamila é um mulherão. Tem 1,80m de altura, 39 anos, uma filha de 14, Thulane, rosto forte e suave ao mesmo tempo, e um jeito simples de falar de coisas complexas que fascina quem a escuta. Ela ri do apelido que sua militância descomplicada lhe rendeu, “filósofa pop”, mas ele lhe cai como luva.

Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara
Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara

Tanto é que todas as peças de roupa que Djamila usou neste ensaio fotográfico foram cedidas pela Prada. O flerte da filósofa com a grife italiana começou bem antes disso. Em setembro, a Prada convidou Djamila para ir a Milão e assistir, da primeira fila, ao desfile verão 2020. “Foi incrível, gostei de sair um pouco do meu universo para conhecer esse mundo mais de perto. E não é só moda, a Prada hoje é uma combinação de fatores que vão além. A Miuccia Prada é PhD em Ciência Política”, diz ela. “Vi o desfile, no dia seguinte uma exposição de arte, visitei a Fondazione Prada, foi uma agenda combinada.”

Já nessa viagem, tudo o que Djamila vestiu, dos pés à cabeça, era da label. “Nunca ouvi tantos elogios”, conta ela, que é bastante atuante nas redes sociais e tem quase 500 mil seguidores no Instagram. Elogios vêm, mas os ataques também são frequentes. “Sendo uma mulher negra, as pessoas acham que o tempo todo eu tenho de me explicar. Antes de me questionarem sobre o que eu estava fazendo, lançando livro em Paris ou assistindo a desfile de moda em Milão, melhor darem uma olhada na minha história”, desabafa ela, que fez faculdade de Filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e, depois, mestrado em Filosofia Política na mesma instituição.

Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara
Foto: Bob Wolfenson, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi, cabelo de Virginia Alves, maquiagem de Beatriz Alves e agradecimento para Soraya Chara

Foi, ainda, secretária-adjunta de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo durante a gestão de Fernando Haddad e acaba de lançar seu terceiro livro, “Pequeno Manual Antirracista” (Companhia das Letras). O estilo profissional de Djamila é de chegar chegando, e de conquistar todos os espaços possíveis. Peço para ela descrever seu estilo pessoal. “Não tenho um estilo muito definido: gosto muito de estampas africanas, gosto do pretinho básico, gosto de combinar looks. Tenho um vestido todo dourado, não tenho o menor pudor de repetir roupa e não quero mais ter muita coisa”, explica. “Quando mais jovem, não saía de casa sem maquiagem e sem salto alto. Agora, estou mais tranquila com o meu corpo, menos preocupada com o que as pessoas vão pensar. Tem dia em que estou com vontade de me montar, e aí eu me monto, me produzo toda.”

Uma coisa de que gosta muito é maquiagem. Mas ela conta que só agora, “na fase adulta”, consegue encontrar produtos para o seu tom de pele no Brasil. “As marcas nacionais desconsideravam que nós, mulheres negras, somos várias. A base que serve para mim não servirá para a atriz Lupita Nyong’o, nem para a Taís Araújo, e nem para a Camila Pitanga. Sofri muito até ter, no Brasil, maquiagem que fosse feita para a gente. Finalmente, não preciso mais esperar alguém viajar e trazer de fora um pó ou uma base para mim.”

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