Fotos: Arquivos Pessoais

Por André Aloi e João Victor Marques

Dividir para conquistar. A estratégia política adotada por Júlio César, na Roma Antiga, e lembrada por Maquiavel em “A Arte da Guerra”, é um clássico: grupos unidos são uma ameaça a quem pretende dominar. A tática, no entanto, parece ter perdido todo o sentido, ao menos no ativismo negro. Enquanto uns dividem, outros somam.

Unir para conquistar tem sido a regra de combate para pleitear espaços, unificar vozes e disseminar a igualdade – social, econômica, racial. Não é preciso dizer muito a esse respeito. Basta ver. “Todos sabem como se tratam os pretos”, lembram os versos de Caetano Veloso.

Bazaar elencou cinco mulheres para simbolizar um grupo que, contrariando as estatísticas da pobreza e das diferenças sociais, chegou lá. Elas alcançaram posições de destaque naquilo que se propõem a fazer e hoje tentam encurtar o caminho para outros tantos pretos que buscam reconhecimento. Fazem desse suporte, aliás, o seu ofício.

É o caso de Christiane Silva Pinto, gerente de marketing no Google e fundadora do comitê AfroGooglers, que abre espaço para lideranças pretas.

Marta Carvalho, à frente do projeto Iyabá, que traz os “majoritariamente excluídos” para o centro da cena.

A médica Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil que, com longo histórico no ativismo, luta pela garantia do acesso à saúde de mulheres pretas. Direito básico e inegociável.

Ou Itala Herta, fundadora da Diver.SSA (especializada em acolhimento estratégico para mulheres) e cofundadora da Vale do Dendê, primeira aceleradora de negócios do Nordeste com foco em diversidade, que acolhe projetos de jovens pretos e os ajuda a sair do papel.

E a “modativista” Carol Barreto, designer que emprega 90% de modelos pretas e plantou a semente de novas linhas de pesquisas para o campo da moda. São vencedoras que não se isolam em suas posições. Unem, sem jamais deixar de lutar.

Marta Carvalho

Foto: Arquivo Pessoal

“Precisei aprender a ser artista para depois ser produtora cultural”, explica Marta Carvalho, que atua como curadora há pelo menos 30 anos. Ela é incansável. Esteve à frente de um grande festival de música em Brasília, trabalha como producer em uma agência nova-iorquina com filial em São Paulo, participa este mês do júri que define os contemplados pelo edital Natura Musical e comanda o projeto Iyabá, ao lado de Raiany Fernandes e Michelle Serra.

Na comunidade – prefere não chamar de coletivo -, que dialoga e reposiciona mulheres não-brancas na arte e na cultura, reorienta meninas vindas da periferia. O núcleo atua como facilitador de conteúdos, reunindo profissionais de publicidade, do audiovisual, da música e das artes cênicas, além de psicólogas.

“A partir disso, a gente trabalha os eixos de presença, potência e também processos de gestão, de planejamento e comunicação”, explica Marta à Bazaar.

Vinda de uma família de origem humilde, nasceu com alma de artista. Seus pais, que tiveram 13 filhos biológicos e criaram outros dois, saíram do Piauí em pau de arara para construir a capital federal Brasília. Aos 7 anos, ela pediu para que a matriculassem no balé clássico.

“Foi um processo difícil porque queria estudar uma arte extremamente classista. Mas fui formada e atuei até os 18 anos.” Em 2014, Marta enxergou sua responsabilidade como mulher preta ao se dedicar aos ensinamentos do candomblé, a fim de buscar um direcionamento intelectual. “Aceitar a ancestralidade faz com que a gente não perca tanta energia. Passa por essa egrégora: de onde vem e para onde pretende ir. Parece uma utopia afrofuturista.” Com isso, sentiu a segurança de falar: “agora vou fazer do meu jeito.”

Há dois anos em São Paulo, pensa em inclusão e diversidade com naturalidade, entendendo os povos “majoritariamente excluídos” e os trazendo para o centro da cena. Como a sede por conhecimento não cessa, está correndo atrás da formação acadêmica, em publicidade. “Tocar várias coisas ao mesmo tempo é uma bênção”, garante.

Todo o cuidado e atenção que dedica ao dar suporte aos outros é o reflexo de quem se tornou. Por isso, todo dia agradece por contribuir para a mudança no mundo.

Carol Barreto

Foto: Arquivo Pessoal

O nome Carol Barreto e o conceito de modativismo se confundem – difícil saber onde começa um e termina o outro. A designer de moda, ativista e pesquisadora baiana é a criadora do termo e seu significado. Bem resumidamente, ela pensa a militância por meio da moda. Abarca modos descoloniais de encadeamento entre formas de pensamento e ação, resultantes de processos criativos e produtivos ligados à diversidade cultural.

Da teoria para a prática: o conceito desta baiana, professora da Universidade Federal da Bahia, é aplicado na vida real a partir de um ateliê coletivo em que ela e sua equipe criam as coleções sem intenção comercial. Ajudam, incentivam e fazem com que os alunos e alunas que trabalham ali – principalmente mulheres negras e LGBTQIA+ – encontrem e potencializem suas habilidades pessoais.

Barreto dá chance a que mais pessoas, especialmente as que têm menos oportunidades no mercado de trabalho, se profissionalizem, sigam suas raízes e continuem traduzindo a cultura afro-brasileira para a moda e a arte.

“Depois de fechar a minha loja, me juntei a uma colega de profissão, que dá aula em um mesmo centro educacional de moda que eu, e transformamos a sala de aula em ateliê e o ateliê em sala de aula. Não gero emprego para estas pessoas. No entanto, construo um laboratório para que elas tenham experiências práticas. A imersão conosco acaba sendo um estágio para que, a partir de outro olhar, quem se entende em desvantagem diante da história consiga potencializar aquilo que é o seu melhor e ver uma luz no fim do túnel”, conta à Bazaar.

Sempre fazendo questão de que todas as suas produções sejam pensadas, realizadas e concluídas na Bahia, para a ativista e sua equipe é sempre necessário manter o regionalismo aceso e forte. “Tudo é feito em Salvador, no nosso ateliê, não importa para qual lugar do mundo ou do Brasil vá.”

Barreto foi a primeira estilista brasileira a desfilar na Black Fashion Week Paris, em 2015. Todo o seu trabalho é uma forma de retificar e firmar a luta antirracista junto à arte, o que, para ela, é impossível de ser dissociado quando se fala em populações marginalizadas, como a negra e a indígena.

“Meu trabalho existe porque é luta e a minha arte se torna bela e mais inteligível pelas pessoas que conseguem se tocar por ela”, finaliza a estilista, que já teve suas coleções expostas em galerias de arte espalhadas pelo mundo, como Chicago, Nova York, Toronto, Rio de Janeiro, São Paulo e Cidade do México. (João Victor Marques)

Christiane Silva Pinto

Foto: Arquivo Pessoal

Gerente de marketing no Google e fundadora do comitê AfroGooglers, Christiane teve de driblar os diversos nãos e o sentido de exceção que pautaram boa parte de sua vida. Desde cedo, botou na cabeça que queria ser engenheira aeronáutica para trabalhar na Nasa. No Ensino Médio, cercada por piadas machistas, foi desencorajada por colegas e professores e desistiu do curso técnico de engenharia, o que fez seu sonho ir para o espaço.

“Me deparei com o que significa ser mulher em um ambiente que não é inclusivo. Até então, criança ou adolescente, você pode até sentir a exclusão, mas dificilmente consegue identificar”, recorda. Abnegou o curso de exatas e acabou optando pelo jornalismo, onde reforçou seu pensamento crítico. “Não me arrependo, mas a minha vida acabou tomando outro rumo.”

Depois de um intercâmbio na França, na época da faculdade, sofreu na pele o que é ser uma mulher preta e brasileira na Europa. Ao voltar, emprestou seu olhar sensível a uma revista de adolescentes. Quando passou no processo de estágio do Google Brasil, em 2014, quase desistiu porque achava “careta e quadrada” a área de Recursos Humanos, onde iria trabalhar.

Logo aprendeu a admirar o trabalho pelo poder de transformação que ele é capaz de proporcionar na vida das pessoas e ajudou a montar o comitê de diversidade AfroGooglers (adaptado do inglês Black Google Network). “Falei: não quero ser mais a única.”

No início, o papel do comitê era educar e conscientizar, além de auxiliar no recrutamento. Com o tempo, as atividades se voltaram ao desenvolvimento de carreira e também à saúde mental dos funcionários. Trabalhando próxima à equipe de marketing – revisando briefings, campanhas, narrativas e casting –, mudar de área foi algo inevitável. “Hoje, trabalho com pequenas e médias empresas, falando do pequeno empreendedor do Brasil que, em sua maioria, é negro.”

Algumas iniciativas pioneiras do comitê acabaram sendo institucionalizadas e, inclusive, já estão se expandindo para outros países. Como abriu espaço para lideranças pretas, hoje ela atua como uma espécie de conselheira. “Tenho apoiado líderes nesse processo de transição, ainda mais porque muitos assumiram recentemente, quando começou a surgir essa onda de protestos.”

Christiane não apenas chegou lá. Está sempre pronta a estender a mão para quem vem logo atrás, no árduo caminho da inclusão. (André Aloi)

Jurema Werneck

Foto: Arquivo Pessoal

Nascida em uma comunidade de Copacabana, o Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro, filha de um alfaiate e de uma costureira, Jurema Werneck já disse não acreditar ser coincidência ter nascido negra, pobre e favelada, uma vez que negros são pobres e favelados em sua maioria. Talvez seja essa a sua primeira experiência de racismo.

Graduada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (foi a única aluna negra do curso), mestre em engenharia de produção e doutora em comunicação e cultura, ela é o principal nome da Anistia Internacional no Brasil, desde 2017. Na liderança da organização de direitos humanos, luta pela defesa incondicional das mulheres afrodescendentes, o que inclui buscar respostas ao atentado contra a vereadora Marielle Franco, assassinada em uma emboscada.

Jurema e Marielle eram próximas, tinham histórias de vida semelhantes, eram companheiras de ativismo. Com tudo isso e muito mais atrelado ao seu nome, Jurema Werneck é direta ao se autodefinir. “Sou uma médica, mas sou fundamentalmente uma ativista. Meu principal compromisso é garantir que mulheres e meninas negras, e a população preta como um todo (junto das demais populações discriminadas), possam acessar plenamente os seus direitos ao trabalho”, resume à Bazaar.

Em 1991, Jurema criou a ONG Criola, que tem atuação na região metropolitana do Rio, a fim de levar apoio concreto para mulheres pretas conseguirem, de fato, tudo o que lhes é de direito. “Há 29 anos, atuamos para garantir que elas tenham acesso ao que precisam.” Muito além de auxiliar na busca pelos direitos, a organização também ajuda com ações concretas em prol do empreendedorismo. “Criola também desenvolveu trabalhos para apoiar mulheres produtoras e artesãs”, conta Jurema.

Com atuação forte também em saúde inclusiva, em 2006 ela publicou o livro Saúde das “Mulheres Negras: Nossos Passos Vêm de Longe”. É mais um capítulo da sua luta pelo acesso das afrodescendentes. Mas o principal inimigo da médica-ativista ainda é o racismo. Ela conta que, por princípio, precisa estar ao lado de quem sofre o mais intenso nível de preconceito por causa da cor da pele.

“Meu principal engajamento é estar ao lado daquelas pessoas que vivem os impactos mais cruéis e violentos que o racismo impera em suas vidas, na da sua família e da sua comunidade.” O trabalho é árduo e Jurema sabe disso. Por isso, pede união. “É preciso se juntar àqueles e àquelas que querem fazer deste País um lugar melhor.” (João Victor Marques)

Itala Herta

Foto: Arquivo Pessoal

“Quero que as pessoas enxerguem que existe uma potência não somente em mim, mas nas demais mulheres negras do Brasil e em tudo que realizamos”. É assim que Itala Herta resume o trabalho que vem fazendo há mais de 15 anos com a população preta do Brasil.

Empreendedora social e formada em comunicação, ela atua em projetos de inovação, economia criativa, sustentabilidade e responsabilidade em instituições públicas e privadas. Além de ser consultora de diversidade para grandes grupos empresariais, também é fundadora de alguns projetos que têm como foco acelerar novos negócios e estimular empreendedoras negras às margens do País.

“Existem muitos talentos desperdiçados no Brasil e claro que eles passam por muitas mulheres, inclusive as negras, que estão nas margens da sociedade. Sempre falo que as margens são as grandes potências. Estamos cansadas de sustentar este País há tanto tempo e nos deslocarmos para outros lugares de falta de oportunidade”, diz à Bazaar.

Nascida na Bahia, Itala enxerga seu papel como um lugar político que ela deve ocupar pensando na reparação histórica e em um enorme potencial expansivo. “Estar aqui, para mim, é importante, não só por achar que devo oferecer meu serviço à minha comunidade, mas também porque as mulheres nortistas e nordestinas estão muito atrás em índices de oportunidade e de investimento. Acho que focar no Norte e Nordeste, para mim, é um lugar de potência e reparação.”

O trabalho de Itala também é ajudar empreendedoras negras a crescer e ter uma visão mais ampla do negócio. Muitas empreendem por necessidade e enfrentam dificuldades por questões de dupla jornada e falta de crédito. “Não temos uma legislação específica no Brasil que favoreça a mulher que roda mais de 840 milhões de reais ao ano no Brasil em microeconomia. Esta conta não fecha nunca. A gente não tem um acesso amplo ao crédito e um direcionamento efetivo a isso. A gente não é convidada a ser empreendedora”, complementa.

Com alma esperançosa, a baiana gostaria que, daqui a alguns anos, ela pudesse ressignificar o próprio trabalho, até o momento em que mulheres pretas não estivessem mais às margens da sociedade e não precisassem de ajuda. Entretanto, ela é realista. “Precisam existir muitas outras Italas e demais mulheres que lutam pelo espaço da população negra para dar conta de tudo que ainda precisa ser feito.” (João Victor Marques)