Mulheres que inspiram: Gabriela Loran e a importância do ativismo multiplataforma
Foto: Acervo Pessoal

Em tempos de pandemia, entrevistar uma pessoa que admiramos ganhou uma nova rotina. Revisitar seus trabalhos em vídeos e fotos para, novamente, se comunicar com ela por meio de uma tela. Falta calor, falta aquela camaradagem no olhar, a percepção do tempo de fala. Obviamente, existem exceções. Pessoas cuja estrela brilha independente da plataforma, a quilômetros de distância. É o caso de Gabriela Loran.

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Atriz, influenciadora, ativista e futura psicóloga, Gabriela encanta com seu sorriso aberto, seu brilho natural e sua fala calma. A artista acumula alguns feitos que a colocam em destaque no meio em que atua, como ser a primeira atriz trans a participar da “Malhação”. Com a pandemia, Loran precisou se reinventar, como a maioria das pessoas, e é nas redes sociais que compartilha vídeos – muitas vezes engraçados, mas todos necessários – sobre como é ser uma mulher negra e trans no Brasil, na linha de frente da guerra injusta travada nas redes sociais, no mundo do entretenimento.

“É uma grande empreitada, mas eu sinto que é necessário que eu esteja aqui. Desde 2014, quando comecei no youtube, meu propósito era compartilhar minha vivência. É cansativo, mas, ao mesmo tempo, tem sua carga de importância, de estar ali sendo uma mulher trans, preta, levando a minha vivência”, conta.

Mulheres que inspiram: Gabriela Loran e a importância do ativismo multiplataforma
Foto: Acervo Pessoal

Quando tinha 18 anos, Gabriela trabalhava como atendente de farmácia, mas seu grande sonho era migrar para o mundo da atuação. Como sua família não tinha condições de colocá-la nos cursos, ela logo começou a trabalhar e, ao mesmo tempo, cursar um técnico de segurança do trabalho para depois estudar engenharia ambiental. Foi durante esse período em que fazia malabarismo com tantas funções que Gabriela se matriculou no vestibular da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras).

Na época, a faculdade não oferecia financiamento. Mas, quando abriram vagas no FIES e vestibular, Gabriela prestou a prova escondida e, quando passou, teve que tomar uma decisão: viver do que queria viver ou se preparar primeiro para ter segurança e viver meu sonho? Para nossa sorte, ela optou por correr atrás do objetivo de ser artista. Como morava em São Gonçalo, alugou um quarto em uma casa no centro do Rio de Janeiro e começou a trabalhar em um restaurante, para pagar a faculdade e continuar morando no Rio.

“O teatro, na minha vida, foi um divisor de águas. Foi onde me descobri enquanto Gabriela. Precisei visitar várias partes internas para poder desabrochar. Digo que minha transição foi meu desabrochar, dentro da faculdade. Além de trabalhar e estudar, precisava lidar com toda a pressão interna e externa de não saber quem eu era ainda. Como nesta época, final de 2012, as pessoas falavam mais sobre pessoas trans, meu receio era que eu não fosse uma mulher trans, mas que acabava seguindo a onda. Então, comecei a praticar ioga e a buscar dentro de mim as respostas dessa transição. As aulas de corpo, de voz, de canto me ajudaram muito nesse processo. Eu comecei a entender minha identidade aos poucos”, lembra.

No último período da faculdade, a atriz se reinvidicou como Gabriela. “Passei pela fase não-binária, depois entendi que era uma mulher, uma mulher trans. E depois entendi que era uma mulher trans e preta. Porque primeiro veio o gênero na minha vida e depois a minha ancestralidade”, lembra.

A internet

Mulheres que inspiram: Gabriela Loran e a importância do ativismo multiplataforma
Foto: Acervo Pessoal

Assim como, no começo da sua transição, Gabriela Loran contou com a internet para entender pelo que estava passando e quem era, a artista acha importante ser uma fonte de informação e apoio para outras pessoas trans. Mas colocar seu rosto e trabalho na linha de frente não é uma tarefa simples. Assim como compartilha sua trajetória, Gabriela já postou alguns comentários transfóbicos e racistas que recebe em suas redes sociais.

“Estar na internet é doloroso, porque tem vídeo meu que bate cinco milhões [de visualizações] e fura a bolha. É então que a gente entende como o Brasil está assombroso, está assustador. Só neste primeiro semestre desse ano, 80 pessoas trans já foram assassinadas. A sociedade suicida essas pessoas e, eu entendo, muitas vezes já pensei em tirar minha vida, porque pensava que a sociedade não está preparada para a gente. Mas eu lembro de todas que vieram antes de mim, que prepararam o terreno para eu estar aqui hoje. Sei a força dessas mulheres trans e travestis que vieram antes de mim e me preocupo com as crianças que estão aqui hoje”, conta.

Para enfrentar tudo isso, Gabriela conta com uma base muito importante: sua família. Por isso, decidiu voltar a estudar e cursar psicologia, para construir um trabalho que auxilie pessoas trans e suas famílias. “Sem dúvida, a minha família foi um divisor muito importante na minha vida e na minha construção. Se não tivesse eles, não sei onde estaria. O mais importante hoje é minha base familiar, ter meus sobrinhos, minha mãe e pai. No começo, andava na rua e as mães viravam as cabeças dos filhos, atendia clientes que me destratavam. Teve um período que me isolei na sociedade, com medo do que estava acontecendo. Isso era tão difícil, mas eu sei que quando chegava em casa, quando estava saturada, minha mãe tava com um feijão quentinho, meu pai me abraçava. Me energizava aqui e saia pro mundo, entendia que podia me destruir lá fora, mas eu tinha minha base para me dar suporte. Mas entendo que essa não é a realidade de muitas mulheres como eu, por isso quero trabalhar com isso. Porque se a família dá o apoio, o mundo pode cair lá fora”, analisa.

O universo da beleza

Mulheres que inspiram: Gabriela Loran e a importância do ativismo multiplataforma
Foto: Acervo Pessoal

A trajetória profissional de Gabriela Loran ganhou mais um passo incrível: a artista se tornou embaixadora da L’Oréal Paris. “É muito importante ocupar esse espaço, é muito importante ver que as marcas estão dispostas em investir em mim. Você vê que não é pela minha voz, é por quem eu sou. Não estou lá ditando o que é ser trans, isso cansa também, carregar uma bandeira cansa. Quando a marca me chama para testar os produtos, cuidar do meu cabelo, de quem eu sou, isso é muito lindo”, conta ela.

O autocuidado teve um papel muito importante no processo de transição de gênero de Gabriela. Tirar momentos para aproveitar seu corpo, passar um hidratante, conhecer cada parte entraram para a rotina da atriz. “A beleza é importante para mim neste momento porque está pareada com minha saúde mental. Quando me cuido, me sinto bem. Quando me olho no espelho, me identifico. Aprendo a lidar com meus defeitos e com minhas qualidades. Vejo que é bonito e gosto disso”, completa.

Quando analisa sua rotina, Gabriela afirma que o Creme de Pentear Longo dos Sonhos e a Máscara Hidra Hialurônico, para cuidar do cabelo, o Sérum Revitalift e o protetor UV Defender, para a pele, não podem faltar em seu nécessaire.

Mudar os fios é uma das paixões de Loran, mas seu cabelo natural ainda é seu visual preferido. “Porque é meu e eu nunca sonhei, em todos os meus sonhos de menina, jovem ou adulta, jamais imaginei ter um cabelo como o meu. Ele é a minha identidade, o formato, a textura e o volume. Já alisei meus fios e eles perdem a vida. Quando você sente seu cabelo maravilhoso, encosta, toca e é seu, nada no mundo paga você ter seus próprios fios e poder cuidar deles. Nossa autoestima vai para além disso, é um autocuidado muito importante”, afirma.

A atriz não abre mão da sua rotina de skincare e liga esse hábito a uma forma de se manter sempre ativa. “Faz com que levante da cama em um dia triste e possa me ver, possa me cuidar. A gente sabe que não precisa estar bem todo o dia. Quando tiver que chorar, chore. Mas não te priva de levantar e cuidar de você, do seu corpo. Já tive depressão e um dos fatores muito importantes que me ajudou a sair desse lugar foi o autocuidado, tomar um banho gostoso, cuidar da minha pele e conversar com meu corpo”, acrescenta.

O futuro

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Foto: Acervo Pessoal

Prepare-se para ver muito de Gabriela nas multiplataformas em que ela atua. Além de continuar crescendo na internet e dando continuidade à faculdade de psicologia, a atriz irá interpretar Giovana em “Arcanjo Renegado”, personagem que é a chefe de gabinete da presidente da Alerj, ao lado de Cris Vianna e Zezé Motta. “Na história da televisão, nunca teve uma personagem trans com esse nível hierárquico. É importante para dar poder para essas pessoas, mostrar que podemos ocupar esse lugar também. E, nesta temporada, ser trans não é a problemática da personagem. É importante entender, até na dramaturgia, que a gente não precisa só de enredos do tipo ‘ela pode entrar no banheiro? Ela vai contar que é trans ou não? Ela vai sofrer preconceito?’. Podemos ser muito além disso”, reforça. Além da série, a atriz também protagoniza o filme “O Último Animal”.

“Tem acontecido muitos ataques a pessoas trans e acho que o mais importante é: se você é um aliado, se quer realmente estar ao lado e ajudar a gente – porque você não precisa ser trans para lutar com a gente, só vocês vão abrir as portas para que a gente consiga mudar as coisas. Porque pessoas cis que ocupam os lugares de poder, é preciso que as pessoas despertem, nos ajudem, nos deem emprego, não lembrem da gente só durante o Mês do Orgulho, porque nós vivemos o ano inteiro. Consuma pessoas trans, leia pessoas trans, porque só assim vamos conseguir mudar essas estatísticas horríveis”, finaliza Gabriela, deixando ainda mais encantada esta jornalista, que já estava apaixonada por sua presença.