Foto: Marcio Farias

A mineira de Ipatinga Heslaine Vieira, 26 anos, que atualmente encara a personagem malvada Zayla, em “Nos Tempos do Imperador”, trama das 18h da TV Globo, é do tipo que não desiste nunca. Um “não” para ela é só mais um motivo para continuar e persistir em seus projetos de vida e de carreira. A jovem, que mora no Rio coma mãe, tem vivido dias de muita euforia com o sucesso que sua personagem na novela vem fazendo, mas ela sabe o trabalho que deu criar Zayla e mantê-la sob as rédeas para estabelecer uma imagem que a afastasse de sua conhecida Ellen, a jovem de “Malhação – Viva a Diferença” e de “As Five”, que ela começa a gravar a segunda e terceira temporadas em breve.

Estudiosa e autodidata, Heslaine buscou ajuda de profissionais por sua própria conta para construir a personagem de Zayla, como Estrela Straus e Luiz Ramos, ambos preparadores de atores, que a ajudaram nessa empreitada para a novela. Além disso, ela desenvolveu um método pessoal para entender a personagem e suas tramas e mentiras, coisa que tinha que acompanhar com uma seleção de post it colados na parede de seu quarto. 

Moradora do Recreio dos Bandeirantes, bem pertinho do Projac – complexo de estúdios de TV da Globo -, ela diz que sua moradia foi escolhida a dedo. Queria estar perto de onde sonhava trabalhar, e não é que deu certo? Contratada pela emissora, a jovem, que é amante de cinema, planeja fazer mais coisas para a telona, e tem um filme para estrear, “Derrapada”, de Pedro Amorim. Extrovertida e pronta para o que der e vier, Heslaine não vê barreiras e quer mais, muito mais, e deseja que as pessoas não desistam de seus sonhos, como a mensagem que deixou para os leitores ao fim desta entrevista. 

Leia a seguir o papo que a atriz teve com Bazaar via Zoom.

Você tem um nome diferente, qual a origem dele?

Olha, mineiro tem mania de inventar nome, a minha mãe teve o meu irmão, que se chama Heslander Vieira, que veio a se tornar Land Vieira [também ator], e o meu minha mãe juntou o Hes com Elaine, e ficou Heslaine.

Como você se descobriu atriz? Como tudo começa?

Começa que eu era muito tímida e minha mãe me colocou no teatro, em projetos sociais, para eu me soltar, hoje ela se arrepende (risos), porque eu não paro de falar. Aí nós, eu e meu irmão, participávamos de alguns desfiles, até que uma agente disse que nós tínhamos possibilidade de crescer e que devíamos ir para o Rio de Janeiro. Eu tinha sete anos, assistia a muita televisão e via que não tinha ninguém como eu, e pensei: “Hum, eu vou caber aí nessa televisão”. Eu assistia “Da Cor do Pecado”, e dizia para o meu irmão que tinha o Raí (Sérgio Malheiros), ou seja, já havia alguém como ele, mas como eu não. Aí eu convenci o meu irmão, que queria ser jogador de futebol, ele até já jogava no time de base da nossa cidade, que ele devia ser ator, porque ele ia bem no teatro, no circo, para que ele me ajudasse a convencer meus pais a irem para o Rio. Então apareceu uma oportunidade de irmos para o Rio, e viemos com três malas sem conhecer nem a cidade nem ninguém aqui. Eu sabia que onde queria trabalhar, então disse a meus pais que tinha que ser aqui, porque eu ia lá bater na porta. Então foi assim que tudo começou.

Quais foram seus papéis mais marcantes?

Eu gosto de todos os papéis que eu tive a oportunidade de fazer. Mas o primeiro grande trabalho que eu fiz eu tinha 12 anos, que foi em “Filhos do Carnaval”, da HBO, em que eu fazia a filha da Roberta Rodrigues, que hoje é minha cunhada. Depois eu gosto muito de “Pedro e Bianca” (produção da TV Cultura), que ganhou o Emmy Kids, “Malhação – Viva a Diferença” [que também ganhou o Emmy como melhor série], com a personagem Ellen, e agora em “Nos Tempos do Imperador”.

“Malhação: Viva a Diferença” foi um divisor de águas na sua carreira?

Com certeza, até porque eu tinha feitos coisas no cinema, onde fui muito feliz. Mas eu queria muito experimentar televisão, era muito curiosa por isso. Só que eu já havia feito testes algumas vezes e não tinha passado, mas eu não desisto, eu nunca desisto, pensava que minha hora ia chegar. Mandava vários emails para o Guilherme Gobbi, que é um produtor de elenco da TV Globo, dizendo que eu queria o papel em “Malhação”. Ele dizia, mas é uma novela que se passa em São Paulo, e eu disse que não tinha problema, que eu aprenderia o sotaque. Nisso, passaram-se alguns meses e eu entrei em contato com ele de novo e perguntei se já havia encontrado alguém em São Paulo para a personagem, ele disse que não, então eu pedi que me deixasse ao menos mostrar o que aprendera, porque eu fui pesquisar, aprender mesmo como era o sotaque, e comecei a treinar em casa, porque queria muito esse papel. E tem uma história superengraçada, que eu até já contei, que antes do teste eu fiquei conversando com o Paulo Silvestrini, que era o diretor da série, e eu não sabia que era ele, porque chamei quem estava lá para tomar um café e ele aceitou. Ele me fez várias perguntas sobre a minha carreira, o que já havia feito e tal, e perguntou por que eu queria fazer a personagem. Nisso o Guilherme Gobbi passou e nos viu e perguntou se eu já conhecia o Silvestrini? Quase surtei. No fim ele [Silvestrine] disse para eu fazer o teste primeiro. Ele disse, eu já ouvi seu sotaque, agora quero ver você atuando. Um dia eu estava no shopping comendo massa com a minha mãe, e o Guilherme me liga. Eu já congelei, parei tudo, com o macarrão na boca. Ele disse: “Você passou”. Sabe aquele momento que você não sabe o que faz, se grita no shopping, se está com a boca lambuzada de macarrão, com a minha mãe ali na minha frente, minha maior apoiadora, parecia que eu estava passando mal, mas no telefone eu estava plena, dizendo: “Obrigada, Guilherme, pela oportunidade, eu adorei”. Isso tudo bem calma, mas explodindo por dentro. 

Foto: Marcio Farias

Como foi gravar sua primeira vilã, como Zayla, em “Nos Tempos do Imperador”?

Foi difícil. Eu acho que foi ainda mais difícil porque estávamos na pandemia. Eu tenho um processo criativo no qual eu faço muita imersão. Por exemplo, daqui a pouco, eu vou usar óculos, vou usar mais jeans (referindo-se à personagem Ellen, de “As Five”). E em “Nos Tempos do Imperador” não tive esse tempo, essa preparação, eu não conhecia o elenco. Então eu cheguei muito tentando me entender nesse cenário de época. Treinei muito em casa, sozinha. E com o tempo eu vi como é gostoso fazer uma vilã, e já estou pronta para fazer a próxima.

Como você se preparou para o papel?

Eu tive a sorte de estar com a galera do meu núcleo, mais especificamente. Quando eu cheguei a novela ja havia rodado 37 capítulos. Mas eu contratei uma profissional com quem eu sempre trabalho, que é a Estrela Straus, que tem um método que ela treinou em vários lugares do mundo, ela é maravilhosa. Comecei também a ter aulas com o professor Luiz Ramos, porque eu sou muito CDF, e gosto de entender o que estou falando. E mais para frente a Cristina Bittencourt, que é a preparadora da novela, começou a treinar comigo, mas aí eu já estava gravando. 

Zayla sofreu uma reviravolta e agora está penando, é a redenção dela?

O que você acha? Acha que será redenção dela? Primeiramente, eu acho ela muito inteligente, mas tão inteligente que eu tenho que fazer um esquema na minha parede com post it para poder acompanhá-la, para entender quando ela estava mentindo, quando ela estava fingindo que estava mentindo, quando ela estava dizendo a verdade e quando ela achava que estava dizendo a verdade. Porque ela mente para ela e para os outros o tempo todo. Então eu precisei criar uma linha de raciocínio para ela, para poder entendê-la. Eu quero ver daqui para a frente como ela vai agir para manipular o resto. Eu sou uma menina muito solar, e ela me ensinou muito, a falar sério, a falar duro, quando necessário.

Você acha que evolui como atriz com essa personagem?

Com certeza. Ela é a personagem mais difícil que já fiz. Eu vejo uma evolução muito grande minha desde o começo para agora. E eu quero pegar toda essa bagagem que eu consegui para usar nas próximas personagens, porque nesse ano pandêmico eu pude testar todas as possibilidades, chorando muito, vivendo a vilã. 

Vocês vão gravar a segunda e a terceira temporadas de “As Five”, como é sair de Zayla e voltar a Ellen?

Ai, eu já comecei essa montanha-russa, que é sair de uma e entrar na outra. Eu me apego muito na personagem, é difícil deixar ir. Embora a Zayla tenha tido muitas opiniões que divergem das minhas, e muitas que são parecidas com essas atitudes novas que ela vem tomando, ela me botou apaixonada por moda, pela nossa história ainda mais, então deixá-la vai ser difícil. Porque a Ellen é outro lugar, a Zayla é vaidosa, ela tem um postura muito firme. Agora a Ellen não é tão vaidosa, ela fala inglês, ela é superinteligente, estou entrando nessa montanha-russa devagar, estou conseguindo. 

Quais são os próximos projetos, além da segunda e terceira temporadas de “As Five”?

Eu tenho muita vontade de voltar a fazer cinema, mas com a pandemia as coisas ficaram todas muito incertas. Então eu achei melhor dar prioridade para a Globo, para acertarmos datas, tudo certinho, e achei melhor não pegar nada por enquanto. Mas eu quero muito entrar na linguagem do cinema de novo. Eu tenho um filme para ser lançado, que é o “Derrapada”, do Pedro Amorim. Minha personagem é uma adolescente que vai ser mãe, e ela é líder de movimento estudantil, nossa, tem uma beleza nesse filme que eu estou muito ansiosa para lançar.

Como você lida com as redes sociais? Já teve hater?

Sempre tem hater, pessoas que não gostam de você tem em todo lugar, mas eu encaro isso muito bem. Claro, as questões racistas me incomodam muito, mas eu nunca dou palco para isso. Eu estou sempre falando sobre mim, sobre minhas histórias, quero compartilhar coisas bacanas. 

Foto: Marcio Farias

Você tem algum ritual de beleza? Como cuida da pele e do corpo?

Água. Eu tomo todos os dias ao mesmo um litro e meio, e tomo assim mesmo, da garrafa, para me certificar de que tomei o necessário. Eu também tenho uma dermatologista que foi uma bênção na minha vida, estou com ela há anos. Ela me diz sempre que saúde e beleza andam juntas. Você tem o seu corpo, e ele é o material do seu trabalho, vamos combinar de você cuidar dos dois, então bebo muita água, eu corro, faço laser, uso creme todos os dias. Sei que essa não é a realidade de todo mundo. Então eu sempre estimulo as meninas a beberem muita água e a fazerem exercício físico que já são um adianto e tanto para se cuidar.

O que pensa do feminismo?

Eu gosto de falar como a nossa união [das mulheres] é realmente poderosa. Nós somos muito inteligentes. Se nós soubermos mesmo disso e ficarmos juntas nesse coletivo, nada vai nos parar. As mulheres vão e estão revolucionando o mundo. Com minhas amigas, que estou encontrando pouco nesse momento, falamos de tudo, finanças, beleza, bem-estar. Fora da pandemia nós fazemos encontros com um número maior de mulheres, mas agora não dá. 

E a causa negra, hoje em dia você acha que ainda é importante bater nessa tecla, falar muito e tal?

Eu acho que a gente está entendendo mais que é importante falar sobre isso. Que a mídia está entendendo, que o mundo business está entendendo, então acho que é o momento de nos aprofundarmos nessas questões, para entender que há um racismo estrutural gigantesco, que é um problema na sociedade, acho que estamos entendendo isso. Tempos que entender as individualidades dentro desse tema. Eu sinto que eu tenho uma missão, na verdade todos nós temos missões, e a causa negra é uma delas. O mundo está fazendo essa revolução, não temos mais tempo, o tempo é agora. Na minha opinião isso deveria ser matéria na escola, quando eu chegava para estudar, em escola particular, negra, bolsista, e tinha um tantinho assim de páginas falando sobre mim e todos as outras páginas falando de brancos. E quando iam falar da matriz africana ainda vinham cheios de preconceitos. Acabou o tempo para preconceito. Eu já questionava na escola, falava: “Por que há apenas dez páginas sobre o meu povo”? Estou aqui aprendendo sobre a Revolução Francesa e não tem a história do nosso próprio povo. As mulheres pretas, as trans, se se unirem, acabou, porque somos uma força e tanto. 

Pelas fotos do seu Instagram, você está apaixonada ou é impressão minha?

Olha esses olhinhos… (risos). É o Gustavo Xavier, que é biomédico. 

Foto: Marcio Farias

Quer deixar uma mensagem?

Eu queria muito incentivar as pessoas a irem atrás dos sonhos delas. Pensar que eu como preta talvez nem chagasse à Globo, que talvez não conseguisse. Eu sei que ainda estou no começo da minha caminhada, mas já estou vivendo o impossível. Quero muito incentivar as pessoas a sonhar.